domingo, 5 de julho de 2026

Coração de frango


e o coração,

quanto pesa?

perguntou ela,

moça magrela

de expostas costelas,

ao homem bigodudo

detrás do balcão.


depende,

de boi ou de frango?


intrigada

não entendeu,

pois era do dela

que tratava.


sabia que pouco valia,

era carne fraca

sangue de anemia

que batia mais por inércia,

do que serventia.


na verdade,

queria fazer uma barganha,

trocar seu coração

por, quem sabe,

um naco de picanha.


o homem não estranhou a proposta

da moça de costelas expostas.

era a terceira vez

que vinham lhe oferecer

aquele estranho produto

já conhecidamente sem uso.


mas por pena ou caridade

lhe ofereceu em troca

duas asas de frango.

o que era muito,

comparado ao seu tamanho.


faminta,

aceitou sem demora.

lambuzou-se com as asas alheias,

visto que ela,

bicho terreno,

não conhecia tais atrevimentos.


até hoje não se sabe:

se foi a gordura espessa

ou a carne fibrosa

(tão desconhecidas a seu corpo de menina)

que lhe causaram alucinação.


fato é que

munida da carcaça das duas asas,

uma em cada mão,

acreditou-se ave,

ave maria,

e do parapeito da janela,

estufou o peito externo.

de um só golpe

sentiu o corpo leve.


o voo foi breve.

o baque, surdo.

a carne mole,

moída na calçada,

parecia que indagava:


e meu corpo,

quanto vale?


Luiza Romão

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