sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

SEM OFENSAS

RIO DE JANEIRO - Querem proibir que "O Teu Cabelo Não Nega", grande marchinha de 1932, seja tocada no Carnaval deste ano. Acham ofensiva a estrofe "O teu cabelo não nega, mulata/ Porque és mulata na cor/ Mas como a cor não pega, mulata/ Mulata, eu quero o teu amor". Mas o que dizer da genial estrofe seguinte? "Quem te inventou, meu pancadão/ Teve uma consagração/ A Lua, te invejando, fez careta/ Porque, mulata, tu não és deste planeta". Não é uma apaixonada declaração?

Os velhos Carnavais viviam dessa glorificação dos tipos nacionais: "Linda morena, morena/ Morena que me faz penar/ A Lua cheia que tanto brilha/ Não brilha tanto quanto o teu olhar" (1932); "Lourinha, lourinha/ Dos olhos claros de cristal/ Desta vez, em vez da moreninha/ Serás rainha do meu Carnaval" (1933); "Salve a mulata / Cor do café, a nossa grande produção" (1939). Há décadas o país canta com amor essas marchinhas e nunca se viu uma morena, loura ou mulata se ofender.

Assim como nunca se ofenderam os árabes ("Alá-la-ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô/ Mas que calor, ô, ô, ô, ô, ô, ô", 1941), carecas ("Nós, nós os carecas/ Com as mulheres somos maiorais/ Pois na hora do aperto/ É dos carecas que elas gostam mais", 1942), gagos ("Ta-tá-tá, tá na hora/ Vá-vá-vá-vale tudo agora/ Sou mó-mole pra fá-falar/ Mas sou um Pintacuda pra beijar", 1950), gays ("Olha a cabeleira do Zezé/ Será que ele é?/ Será que ele é?", 1964) ou lésbicas ("Maria Sapatão/ De dia é Maria/ De noite é João", 1980).

E nem podiam se ofender, porque —repare bem—, nas letras, essas minorias sempre levam a melhor. Não por acaso, entre seus autores, letristas e intérpretes originais, havia mulatos, árabes, carecas, gagos, gays e lésbicas.

Enxergar ofensa nas marchinhas é caso para terapia de grupo —com o ofendido no divã e um grupo de psiquiatras em volta.

Ruy Castro, Folha de S. Paulo, 03/02/2017, 02:00 hs

PAUL KLEE


TINHA TANTO...

Tinha tanto medo de solidão 
que nem espantava as moscas


Mia Couto
VERGONHA DE SER BRASILEIRO

O fato muito triste da doença terminal da Dona Marisa Letícia pode ser usado como um analisador sócio-político. Este conceito da análise institucional nos permite compreender um pouco as linhas afetivas em jogo no campo social brasileiro. Ora, constato a existência de dois discursos, com ênfase internética, sobre o episódio atual da doença da ex-primeira dama. São eles: 1- Dona Marisa Letícia foi assassinada pela Lava-Jato, pelo Ministério Público e pela Rede Globo ; 2- Dona Marisa Letícia deve morrer, sim, para pagar todo o mal que fez ao país.  As duas falas se alimentam, antes de tudo, de um ódio fascista, paranóico e insandecido expresso no pressuposto discursivo implícito: "Morte, morte à Vida, custe o que custar; às favas a ètica da potência e da alegria de existir!"

A.M.

ISSO SE CHAMA CIVILIZAÇÃO !

(do blog do José Simão)

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

TEMPO DESCARNADO
(...)
À estética do aparecimento dos objetos ou das pessoas que se destacam no horizonte aparente das unidades de tempo e de lugar da perspectiva clássica, acrescenta-se, para você e para mim, a estética do desaparecimento de personagens distantes surgindo sobre a ausência de horizonte de uma tela catódica em que a unidade de tempo predomina sobre a do lugar de encontro: a perspectiva em tempo real da grande ótica suplantando definitivamente as performances da pequena ótica da perspectiva do espaço real. 
(...)

Paul Virilio, 2005.

NICOLAS BEHR



MIL ANOS
(...)
No momento, a principal crise do Brasil é de semântica. Antes de concluir se o país avançará em meio ao caos é preciso combinar o que é uma crise “muito grande”. Convém definir quesitos, escolher critérios. “Muito grande” se mede pelos 81 inquéritos envolvendo 361 investigados da Lava Jato à espera de julgamento no STF ou pelas 120 condenações já sacramentadas por Sérgio Moro, somando 1.257 anos, 2 meses e 1 dia de cadeia? Que peso devem ter nos cálculos as 77 delações em que os corruptores da Odebrecht listaram duas centenas de políticos? Como contabilizar os três anos de recessão, os 12 milhões de desempregados e o desmantelamento dos serviços públicos?

Enquanto não se chega a um acordo que permita ao Brasil falar a mesma língua, Brasília vai divertindo a plateia com solenidades como a sessão de abertura do ano legislativo de 2017. Mas convém não exagerar no patriotismo. Por trás das poses das autoridades é preciso que exista uma noção qualquer de moral. Sob pena de os brasileiros imaginarem que o abismo, como o inferno da escatologia cristã, é mais uma ficção admonitória do que a realidade de uma crise terminal.

Blog do Josias de Souza, 02/02/2017, 04:20 hs
Miserável país aquele que não tem heróis. Miserável país aquele que precisa de heróis.

Bertolt Brecht

A Qualquer Custo, direção de David Mackenzie, 2016

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

A DOENÇA POBREZA 

A evidência científica é robusta: a pobreza e a desigualdade social prejudicam seriamente a saúde. No entanto, as autoridades de saúde não dão a esses fatores sociais a mesma atenção que dedicam a outros quando tentam melhorar a saúde dos cidadãos. Um estudo sobre 1,7 milhão de pessoas, publicado pela revista médica The Lancet, traz de volta esse problema negligenciado: a pobreza encurta a vida quase tanto quanto o sedentarismo e muito mais do que a obesidade, a hipertensão e o consumo excessivo de álcool. O estudo é uma crítica às políticas da Organização Mundial da Saúde (OMS), que não incluiu em sua agenda este fator determinante da saúde — tão importante ou mais do que outros que fazem parte de seus objetivos e recomendações.

“O baixo nível socioeconômico é um dos mais fortes indicadores de morbidade e mortalidade prematura em todo o mundo”, afirma o estudo

“O baixo nível socioeconômico é um dos mais fortes indicadores de morbidade e mortalidade prematura em todo o mundo. No entanto, as estratégias de saúde global não consideram as circunstâncias socioeconômicas pobres como fatores de risco modificáveis”, dizem os autores do estudo publicado pela The Lancet, cerca de trinta especialistas de instituições de prestígio como a Universidade de Columbia, o King’s College de Londres, a Escola de Saúde Pública de Harvard e o Imperial College de Londres.
(...)

Javier Salas, El País, 01/02/2017, 14:26 hs

NANA CAYMMI - Suave Veneno


SETE  ESTUDOS PARA A MÃO ESQUERDA

(...) (...)

VI

Nenhuma lição nesta paisagem
que não o fartamente conhecido:
as coisas nos lugares, engrenagens

do estar-em-si, do tudo-é-relativo,
etc. A mesma grafitagem
inconseqüente de sempre: rabisco

logo existo. — O mundo segue opaco,
imune à consciência e seus lampejos
de lógica, sua falta de tato,
sua avidez, seus deuses e desejos.

(Aqui termina o sonho. Fim das névoas,
caramelos e almofadas formidáveis.
Daqui pra frente, as portas sem remédio
e todas as maçãs assassinadas.)


Paulo Henriques Britto

ODILON REDON


AS CUIAS DE NIEMEYER

O Congresso reestreia nesta quarta-feira um espetáculo manjado. A coisa se passa numa nação alternativa. Fora do prédio de Niemeyer, há um Brasil em pânico. Dentro, há um país fictício. Fora, quando alguém fala em corrupção numa roda, é impossível mudar de assunto. Pode-se, no máximo, mudar de corrupto. Dentro, pulsa um país sem culpados nem inocentes. Um Brasil 100% feito de cúmplices. Uma nação onde nada aconteceu.

Os congressistas propuseram e aceitaram a tese segundo a qual nenhum deles deve nada. Muito menos explicações. Há os delatados, os investigados, os denunciados, os réus… E há a banda muda, que silencia diante da promiscuidade. É nesta ficção que nenhum roteirista de teatro assinaria, para não passar por inverossímil, que o Congresso reabre suas cortinas depois do recesso. Deputados e senadores tropeçam nos corredores com o maior escândalo de corrupção da história. Mas fingem que ele não está ali.

Nos últimos dois anos, uma Lava Jato inexplicada no meio do Salão Verde da Câmara e do Salão Azul do Senado se transformou em muitas coisas. Começou como um embaraço. Evoluiu para um hábito. De repente, à medida que aumentava o número de ecrencados, tornou-se parâmetro.

Há dois anos, os deputados elegeram Eduardo Cunha para presidir a Câmara. E os senadores reelegeram Renan Calheiros. O primeiro está preso. O segundo é réu numa ação penal e protagoniza 12 inquéritos.

Hoje, os favoritos ao comando das duas Casas do Legislativo são alvos da megadelação da Odebrecht. Mas isso não é assunto que mereça a perda de tempo de uma reflexão no Brasil alternativo que está novamente em cartaz no Congresso.

Fora das cuias de Niemeyer —a da Câmara virada para cima, a do Senado emborcada para baixo—, a democracia representativa está jurada de morte. Dentro, ela se comporta como se estivesse cheia de vida.

Blog do Josias de Souza, 01/02/2017, 04:49 hs