terça-feira, 19 de julho de 2022

VIAGENS DE MIGUEL

O Encontro com uma criança, Miguel.  Como dizê-lo? Apenas que circula livre nas colinas verdes do meu pensamento. E brilha como um dia amante. Nada abstrato, já que ele está bem à minha frente (nesse momento) e diz: "pai, o que é a diferença?" Falo que não sei, bem, quer dizer, não sei lhe responder, já que a diferença rigorosamente não é, ela não está, ela vai, ela corre, flui num corpo se fazendo e a se fazer. A diferença é o devir. Tampouco é uma questão de saber, mas de sentir, perceber. A diferença é um certo jeito do afeto, o desejo em suas multiplicidades de risco. Ele não entende bem o que digo e volta a indagar: "mas onde ela anda, onde está?". A resposta vem súbita como num clarão-surpresa:  a diferença está em você, ó criança, a diferença é você, correndo e escorrendo pelos campos, montanhas, matas e flores, ventanias de um tempo infindo. Sossegue, você entende: por onde andar, os fluxos da diferença extrairão da sua beleza o sentido, mesmo o sentido do não sentido de viver. E cultivarão a alegria no meio das brutalidades do humano em volta. Tudo porque você é o amar como acontecimento, o sem retorno, o irreversível, o sem explicação, o sem razão, o sem nome. Antes de tudo,  poesia,  música e dança das florestas.


A.M.

TAIGUARA- Helena, Helena, Helena (Audio)

segunda-feira, 18 de julho de 2022

Como identificar o fascismo? parte 3

Na experiência fascista está embutida a questão da verdade. Sob condições sócio-históricas e politicas muito amplas, isso conduz o destino de milhões: o Estado, a Nação, o Povo, o Poder, transcendências... A clínica psicopatológica diz: o fascismo não parece um delírio. Ele é um delírio que organiza o próprio juízo (não perdê-lo jamais) e ajuda o seu portador a produzir sentidos para a realidade atual do mundo. O fascista,  servo e devoto, é vizinho do paranóico, habitando o universo clínico da psiquiatria, talvez sem ser notado. Suas funções cognitivas estão intactas. Ao exame de sanidade mental, doença zero. Então, identificá-lo passa por categorias psiquiátricas, mas necessita ir além, até onde as linhas desejantes confluam em Certezas densas ou numa Verdade  absoluta. Rompe-se a fronteira com a forma-Religião, mas afetos subjetivos fixam uma vibração egóica. Esta se reconhece como identidade poderosa e qualifica o fascista como portador de uma mensagem de salvação política. Nas dobras da alma e na superfície da prática social, a tal identidade torna-se a verdade de cada um, ou seja, do indivíduo, ainda que o mais frágil. Pseudo-poder, universo privado, mundinho do eu. Assim se fecha o circuito da verdade, de uma verdade fabricada como território de sentido: isso é a vida, dir-se-ia... Caso ela desmorone, virá a tona a face suicidária do sentimento fascista, a qual discutiremos no próximo texto.

 

A.M.


domingo, 17 de julho de 2022

 vai ver que o apocalipse

 já aconteceu

e a gente nem percebeu


Nicolas Behr

MICHAEL FLOHR


 

garimpo


esta procura tem um nome insanidade

passei da idade de tentar fazer sonetos

eu só consigo descrever cinzas e pretos

acho que o verso não alcança claridade

pelas gavetas prateleiras escondidos

ainda agarro pelo rabo alguns cometas

quero as estrelas não encontro suas tetas

sinto a fissura dos pequenos desvalidos

a minha escrita sempre foi penosa esgrima

desde menina que não tenho paradeiro

eu caço sapo com bodoque o dia inteiro

nesta esperança de catar melhores rimas

vasculho as glebas os grotões e quem diria

bateio o sol chego a pensar que a noite é dia


Líria Porto


 

sábado, 16 de julho de 2022

Como identificar o fascismo?  parte 2


Sob uma ótica conservacionista ( e liberal) são demasiado simplórias as análises sobre o fascismo. Elas se sustentam na moral, em grande parte na moral cristã. Diz-se: coisa horrenda o grito de “viva a morte!”,  expelido da boca de cidadãos de bem, homens íntegros, pessoas humanas. Pensar assim é não pensar, é tão só “por a mão na consciência”, velho conceito teórico com usos  epistemológicos, filosóficos, psicológicos, psiquiátricos, políticos,  entre outros, para interpretar a realidade. Ao se evadir de tal  grade moralista, é possível usar o desejo como conceito operacional. Ele está fora da órbita do eu.  O fascismo,  então, é visto como construção desejante que nutre formas sociais carcomidas. Trata-se, apesar de tudo, do combustível que move as superfícies do mundo iníquo.  Uma  máquina afetiva (a história o mostra) se interioriza subjetivamente nos indivíduos (aos milhões) produzindo um sentido para a vida. “Morrer pela pátria e viver sem razão”. Ora, não há o desejo puro  e sim um composto de linhas subjetivas (forças)  em prol da hegemonia institucional do sujeito assujeitado. O discurso final fascista seria: “eu sinto, eu ajo, ...e destruo o que se move porque é sujo.” Ódio ao devir. Neste cipoal de desejos múltiplos, não há lugar para uma política dos corpos. O fascismo fez parar o tempo. Morte às minorias e ao Novo. Fiel à tradição da consciência (  a alma ), o corpo é o  organismo que deseja a si mesmo como modo de existir único e total. A fratura exposta do nazifascismo (como no Brasil de hoje) é denegada em favor do si mesmo,  apêndice existencial familiar e utilitário. O rosto mortuário das classes médias se anuncia e se revela a nu. Que o mundo vá mal desde que eu me salve.  O sentimento fascista opera uma revolução às avessas. Um ar rarefeito de oxigênio racional infecciona tempos midiáticos. Este é o limite político a ser ultrapassado. Ou não. 


A.M.  


O FASCISMO AVANÇA

terça-feira, 12 de julho de 2022

CONVERSAR


Em um poema leio:

Conversar é divino.

Mas os deuses não falam:

fazem, desfazem mundos

enquanto os homens falam.

Os deuses, sem palavras,

jogam jogos terríveis.


O espírito baixa

e desata as línguas

mas não diz palavra:

diz luz. A linguagem

pelo deus acesa,

é uma profecia

de chamas e um desplume

de sílabas queimadas:

cinza sem sentido.


A palavra do homem

é filha da morte.

Falamos porque somos

mortais: as palavras

não são signos, são anos.

Ao dizer o que dizem

os nomes que dizemos

dizem tempo: nos dizem,

somos nomes do tempo.

Conversar é humano.


Octavio Paz


 

O ENCONTRO MARCADO


Numa prática clínica da diferença em psicopatologia, o conceito de Encontro é essencial. Ele diz respeito à chance de estabelecer ligações com os afetos que circulam livremente e/ou aprisionados pelas formas sociais (por ex., a de paciente "mental"). No caso da psiquiatria biológica, da terapia cognitivo-comportamental, das psicoterapias regidas pelo senso comum, das psicologias do bom senso, das terapias religiosas, das psicanálises edipianizantes, enfim, das agências psi normatizadoras, os afetos livres (devires) rodopiam no mesmo ponto subjetivo, endurecidos em sintomas prontos a serem eliminados. Há até pacotes comerciais disponíveis para resolução em apenas 3 meses. Confira. Caso haja êxito, vão-se os sintomas e com eles o desejo. Ao contrário, é preciso encontrar-se com o sintoma já que o Encontro é condição básica para 1-usar os afetos livres para fora da configuração subjetiva dita patológica; 2- desorganizar as formas sociais especializadas em infeccionar as forças ativas. Em ambos os casos, o Encontro não se dá com uma bela alma, mas com a crueza do real múltiplo. Estão e estarão aí, por exemplo, todos os tipos de personalidades anormais que a psiquiatria conservadora engloba sob o código F.60. Ou as histerias, filhas freudianas convertidas ao século XXI e estranhas ao diagnóstico psicanalítico. Ou os pânicos urbanos gritando alto frente à dissolução das certezas do homem tecnológico. Ou as psicoses não especificadas em eus cindidos e aniquilados pelo tempo virtual. Ou corpos descarnados oscilando entre a autoflagelação e o suicídio enquanto formas de se sentirem vivos. O Encontro hoje é, pois, um encontro sem rosto fixo, sem modelo, sem eu, sem consciência, mas ainda assim um Encontro.


A.M.

BACURAU | 2019

QUEM É POETA?

A experiência poética não é só a de quem escreve o poema, mas também a de quem o lê. Em tempos de tecnologia industrial avançada e aparentemente vencedora, a poesia ocupa um lugar de criação "menor" e por isso, maior. Maior só o menor, o ínfimo. Não no sentido de uma forma "pequena", mas o "sem forma", como nos espaços infinitesimais do filme "O incrível homem que encolheu" ( Jack Arnold, 1957). A experiência poética se dá num processo de criação subjetiva (bem entendido, escancarado no mundo) onde a violência feita à sintaxe e à semântica afronta o caos no próprio terreno que é o da semiótica. Produzir signos a-significantes talvez seja a função do poeta/leitor como aventureiro de universos indizíveis. Neles também o horror está incluído. Por isso experimenta o gosto das paixões sem dono, o insólito, o sem-explicação. Ler um poema é ligar-se ao texto numa linha de fuga existencial, nem que seja por um segundo. Zero para a possibilidade de interpretá-lo ou compreende-lo, o sem-razão, o sem-governo, o sem-sentido. Um sentido que é produzido pelo leitor. Assim, a experiência poética é acessivel a todos. Basta sentir as horas no coração da Terra. Isso não é fácil.

A.M.