domingo, 13 de novembro de 2022

Depois de Lúcia - Trailer legendado

confissão


eu teria sido puta

na maior boa vontade

faltaram-me os atributos

e também alguma audácia


(sempre achei as putas lindas

mas só faço amor de graça)


Líria Porto

O que é psiquiatria? (1)


A psiquiatria é uma especialidade médica surgida na França em fins do século XVIII. Ai se dá a passagem (conforme Pinel) dos asilos aos manicômios.

No entanto, sua origem mais longínqua remete à existência de asilos no século VII (cultura árabe) e no século XVI (ocupação árabe na Espanha). Desde então passam a ser chamados de hospícios e se espalham pela Europa.

Sendo assim, a origem da psiquiatria se confunde com a origem dos asilos, dos hospícios e dos manicômios. Tudo se prepara para encolher as mentes.

A lógica dos asilos é o DNA da psiquiatria.

Já o século XIX, chamado século dos manicômios, dá origem aos hospitais psiquiátricos conforme o modelo atual.

São conhecidas as agressões e os horrores perpretados contra pacientes nos manicômios desse século. Foucault descreveu com detalhes as torturas científicas.

No Brasil, entre outros horrores, o hospital psiquiátrico de Barbacena é um registro histórico como modelo da barbárie consentida.

No período do estalinismo na União Soviética (1927/1957) presos políticos (quantos?) foram internados em hospitais psiquiátricos. 

No período da ditadura brasileira (1964/1979)  presos políticos (quantos?) foram internados em hospitais psiquiátricos.

A psiquiatria tem uma história pouco edificante.

No Brasil, veio a reforma psiquiátrica e a luta antimanicomial. Diferentemente, no campo da medicina não se tem notícia de alguma reforma cardiológica, pneumológica, nefrológica, etc.

De fato, trata-se de uma especialidade que pede  um método para além do biomédico.

A psiquiatria (psicopatologia) não dispõe de uma teoria dos afetos, apesar da extrema importância desse conceito para o trabalho clínico, ou seja, da gestação do vínculo com o paciente.

O paciente psiquiátrico muitas vezes não quer ser atendido pelo psiquiatra, sendo levado à força por familiares ou terceiros. Na clínica médica, não se tem notícia de tal recusa por vezes hostil e agressiva.

O objeto de pesquisa e intervenção clínica da psiquiatria é invisível, impalpável e abstrato. Chamado de “mente” , não há nada parecido em pesquisa médica. A mente não é o cérebro.

Nos hospitais psiquiátricos (ainda existem!) é muito comum pacientes fugirem. Por que fugiriam do tratamento? Em contraste, nos hospitais gerais (clínicos) isso não existe. Pelo menos, que se saiba.

A alta e a cura são dispositivos raros na psiquiatria clínica.

Sim, uma estranha especialidade essa.


A.M.

sábado, 12 de novembro de 2022

Governo Bolsonaro deixa saldo de destruição na área social, diz ex-ministra

PULSAÇÕES LIVRES

Como qualquer um pode lhe dizer, não sou um homem muito bom. Não sei que palavra usar para me definir. Sempre admirei o vilão, o fora-da-lei, o filho-da-puta. Não gosto dos garotos bem barbeados com gravatas e bons empregos. Gosto dos homens desesperados, homens com dentes rotos e mentes arruinadas e caminhos perdidos. São os que me interessam. Sempre cheios de supresas e explosões. Também gosto de mulheres vis, cadelas bêbadas que não param de reclamar, que usam meias-calças grandes demais e maquiagens borradas. Estou mais interessado em pervertidos do que em santos. Posso relaxar com os imprestáveis, porque sou um imprestável. Não gosto de leis, morais, religiões, regras. Não gosto de ser moldado pela sociedade.


Charles Bukowski

sábado, 5 de novembro de 2022

O FIM E O FIM DO DIAGNÓSTICO PSIQUIÁTRICO - VIII

"Há somente o desejo e o social e nada mais". Tal afirmação de Deleuze-Guattari, extraída do "delírio" de "O anti-Édipo", transmuta-se numa prática ética (que potências?), estética (que criações?) e política (que poderes?) que animam uma psiquiatria inserida na produção desejante e social. O desejo da psiquiatria passa, assim, a ser agenciado como clínica trágica (ou dos corpos). Isto significa encontrar e"garimpar"as multiplicidades que compõem o paciente, e nem por isso, ou talvez por isso, não são percebidas e daí não trabalhadas. A forma-diagnóstico, terrível megamáquina dos homens de branco, neste ponto é desprezada em prol de algo não nomeado, os devires, o que faz mover as linhas singulares da existência. Usamos o diagnóstico apenas por hábito, como quando se diz "está chovendo" ou "me chamo antonio". O diagnóstico psiquiátrico continua existindo, mas deixa de ter importância no ato de considerá-lo peça de uma clínica do Encontro ou das multiplicidades. Sabemos que essa é uma postura opaca ao entendimento dos psiquiatrões da atualidade, empenhados em cadastrar os sintomas pela via das entidades fixas e dos encaixotamentos pseudocientíficos, bem como de impor ao paciente verdades "baixas" do senso comum. Estas chegam lastreadas num dualismo pétreo e hierarquicamente vertical: "você é o doente, eu sou o médico". Portanto, não há possibilidade de diálogo com a "Grande" psiquiatria, magarefe científico de almas, já que a ético-política do Encontro prioriza as linhas finas da subjetividade. 


A.M.

terça-feira, 1 de novembro de 2022

Como identificar o fascismo? Uma introdução

Antes de tudo é preciso partir da análise dos microfascismos. São produções metastáticas (na oncologia se diz:  tumores secundários se desgarram do tumor primário) que seguem o rumo/ritmo de destruições múltiplas da vida. Há um fascismo maior (histórico) do Estado, dos partidos políticos, da grande política, etc,  que não existiria sem os  tumores subjetivos. Eles o fazem letal. O conceito de fascismo ( grande grito de "viva a morte") opera nas relações sociais como combustível de enunciados simples, inclusive e principalmente os do cotidiano. Pode até usar o humor (que importa?) mas das suas entrelinhas exala um cheiro de cadáveres gordos.  Usa o universo tecnológico da internet como campo hiper-veloz onde são editadas palavras-de-ordem encharcadas de ódio. Assim, o que antes importa dizer é que tais discursos convivem com mil outros: religiosos, filosóficos, científicos, acadêmicos, jornalísticos, todos supostamente voltados ao Bem. Em suma, o fascismo como método e estilo de viver trabalha nos mil disfarces da produção textual. Só assim ele "pega". 

A.M.

sábado, 29 de outubro de 2022

Antimétodo 2


Pouco a pouco

Embaralho tudo e nada

Sou meu próprio

Espantalho

Fujo

De mim mesmo

Finjo-me

Da minha própria

Esfinge

Perdido em meu próprio

Labirinto

Sou o que sou

Ou minto? Será isso

Uma regra secreta?


Sebastião Uchoa leite

sexta-feira, 28 de outubro de 2022

Diana Krall ♥ East of the Sun & West of the Moon

      FALTAM 2 DIAS


O QUE DÁ TESÃO

A antiprodução difunde-se pelo sistema: a antiprodução será amada por si mesma, à maneira pela qual o desejo reprime a si próprio no grande conjunto capitalista. Reprimir o desejo, não só nos outros, mas também em si próprio, ser o tira dos outros e de si próprio, eis o que dá tesão, e isto não diz respeito à ideologia, mas à economia. O capitalismo recolhe e possui a potência do objetivo e do interesse (o poder) mas tem um amor desinteressado pela potência absurda e não possuída da máquina. Oh, certamente não é para si nem para seus filhos que o capitalista trabalha, mas para a imortalidade do sistema. Violência sem objetivo, alegria, pura alegria de se sentir uma engrenagem da máquina, atravessado pelos fluxos, cortado pelas esquizas. Colocar-se na posição em que se é assim atravessado, cortado, enrabado pelo socius, buscar o bom lugar onde, de acordo com os objetivos e os interesses que nos são consignados, sente-se passar algo que não tem interesse nem objetivo. Um tipo de arte pela arte na libido, um certo gosto pelo trabalho bemfeito, cada um no seu lugar, o banqueiro, o tira, o soldado, o tecnocrata, o burocrata e, por que não, o operário, o sindicalista... O desejo embasbacado.

(...)

G. Deleuze e F. Guattari in O anti-édipo