domingo, 12 de março de 2017

UMA LOUCURINHA

Vou contrariar os sensatos conselhos dos economistas de plantão. Essa laminha da conta inativa do FGTS, fruto do seu bíblico e sagrado suor, deve ser gasta com uma viagem de amor. No mínimo com um piquenique no domingo do parque, um combo cinema+jantar romântico, algo que você não faz com a dita pessoa amada/amante há muito tempo.

Sei que pagar dívidas, como recomendam as frias marionetes da racionalidade, seria o correto. Que tal esquecer o banco e os credores apenas por um momento na vida e fazer uma loucura? Uma loucurinha, afinal, a considerar a média, a maioria dos trabalhadores receberá pouca grana.

Será inesquecível. Depois você corre atrás, qual um Usain Bolt da sobrevivência, e cobre ou rola a dívida. Haja irresponsabilidade do cronista —mestre em desastres financeiros e portador de um delirante capital amoroso, como sopraria neste momento o poeta e psicanalista Hélio Pellegrino. Uma loucurinha, eis a pedida.
(...)

Xico Sá, El País, 10/03/2017,18:14 hs

GRANDES ESCRITOS


PARA ALÉM DE KAFKA

Em conversa com um amigo, o ministro Herman Benjamin, do Tribunal Superior Eleitoral, chamou de “kafkiano” o processo que mantém sub judice a Presidência de Michel Temer. A definição é inexata. Na verdade, o processo é pós-kafkiano. O barulhinho que se ouve ao fundo é o ruído de Franz Kafka se contorcendo no túmulo ao perceber que o absurdo perturbador de sua ficção foi superado por uma história fantástica passada num país imaginário. Uma história bem brasileira.

A realidade dos autos relatados pelo ministro Benjamin está cada vez mais inacreditável. O interesse pelo julgamento do processo diminui na proporção direta do aumento das evidências de que a vitória de 2014 foi bancada com dinheiro roubado da Petrobras. Autor da ação que pede a cassação da chapa Dilma Rousseff—Michel Temer, o PSDB anda tão ocupado em salvar o país que já não tem tempo para cobrar a punição dos crimes que apontou.

O tucanato tornou-se o esteio do governo Temer. O derrotado Aécio Neves virou um levantador de ministros. O vice-derrotado Aloysio Nunes Ferreira acaba de ser nomeado chanceler. Na oposição, o PSDB era incapaz de reconhecer a honestidade dos governantes. No governo, esqueceu que o PMDB é incapaz de demonstrá-la. Todo o dinheiro sujo que a Odebrecht investiu em 2014 não daria para vestir 1% das desculpas esfarrapadas dos tucanos para conspirar contra a lógica no TSE.

Devolvida a Porto Alegre e à sua insignificância, Dilma Rousseff entregou-se a duas atividades. Quando não está cuidando dos netos, dedica-se a denunciar o ''golpe''. No TSE, os defensores de madame se juntam aos advogados de Michel Temer numa tabelinha a favor da protelação. Difícil saber se golpeados e golpistas fogem de um julgamento rápido por que são capazes de tudo ou por que são incapazes de todo.

Há mais: Temer, o processado, indicará entre abril e maio, dois dos ministros que o julgarão no TSE. Há pior: o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Gilmar Mendes, frequenta o noticiário na condição de conselheiro do acusado. Quando Dilma ainda estava sentada na poltrona de presidente, Gilmar pegou em lanças pela abertura do processo, evitando que a podridão das contas eleitorais descesse para o arquivo. Agora, o mesmo Gilmar afirma: o mais importante é a exposição do lixão, não o resultado do julgamento.

Em meio a este cenário pós-kafkiano, um período excepcional da história do país, a qualquer momento se verá a maioria dos ministros do TSE declarar a respeito dos milhões em verbas sujas que passaram pelas arcas de 2014: “Calma! É só caixa dois, gente!”. E o brasileiro perceberá que não é que o crime não compensa. É que, quando ele compensa, muda de nome.

Blog do Josias de Souza, 12/03/2017, 05:47 hs

LAST TANGO IN PARIS - Gato Barbieri


Delírio puro

quanto mais louco
lúcido estou.

no fundo do poço que me banho
tem uma claridade que me namora
toda vez que eu vou ao fundo

me confundo quando boio 
me conformo quando nado
me convenço quando afundo.

no fim do fundo
eu te amo.


Chacal

sábado, 11 de março de 2017

Eu sou Zaratustra, o sem-deus: cozinho todo acaso em minha panela. E somente quando ele está bem cozido eu lhe dou boas-vindas, como meu alimento.

F. Nietzsche

O QUE É UM RIZOMA? Joseph Vogl


EM SEU PRÓPRIO NOME

Loucura não é um conceito médico. Doença mental, transtorno mental, psicose, neurose, depressão, e muitos outros, sim, são conceitos usados pela medicina psiquiátrica. Ora, se "loucura" não é um conceito médico, em contrapartida, e por isso mesmo, ele pode ser utilizado como um operador clínico na pesquisa sobre o comportamento humano. Olhar a psiquiatria de fora, do que não foi (ainda) codificado por ela, não é fácil. Isso significa que para "compreender" alguém que aja de um certo modo e não de outro, há que conectar os saberes "explicativos" em circuitos rizomáticos, ou seja, sem um centro de poder de onde emanariam verdades últimas. Erosão de sentido. Assim, a loucura ( o que é isso?) traz elementos empíricos e teóricos para imergir no caos da existência. Devir-loucura. Trata-se de uma experimentação viva que escapa às sistematizações científico-acadêmicas. Falar em seu próprio nome, tanto o louco como o não-louco, será possível?

A.M. 
PRENDAM O HONESTO!

(...)
Em termos econômicos, os números da corrupção estão aí, soltos, porém sob controle, como um animal doméstico: basta chamá-los que eles aparecem na sala.
A contabilidade não se esgota nos ganhos fabulosos das empresas envolvidas no esquema, nem na parte do leão que coube ao PT. Ela se estende aos pequenos e ao grande aliado do partido, o PMDB. E, em escala menor, ao PSDB e ao DEM. Mesmo na quadrilha montada por Sérgio Cabral não se sabe ainda o quanto de recursos federais foi devorado no jogo de propina e superfaturamento.
(...)
Fernando Gabeira, 10/03/2017

quinta-feira, 9 de março de 2017

vazio agudo 
ando meio 
cheio de tudo


Paulo Leminsk
CLÍNICA DOS AFETOS

(...) portando, tudo leva a pensar que todo sentimento de 'simpatia' se refere a uma 'posição sexual' inconsciente e, quando duas pessoas se encontram, sejam elas do mesmo sexo ou de sexo opostos, o inconsciente tentará sempre uma transferência (…). E se o inconsciente consegue fazer com que a transferência seja aceita pelo consciente – abertamente sob forma sexual (erótica) ou então sublimada, disfarçada (respeito, gratidão, amizade, apreciação estética) – resulta daí um sentimento de simpatia. Se a censura que vigia no limiar da consciência responde negativamente às tendências sempre positivas do inconsciente, são possíveis todos os graus de antipatia, até aversão e repulsa.
(...)

Sándor Ferenczi, 1909

terça-feira, 7 de março de 2017

Curso: Temas em psicopatologia clínica

Coordenador - Antonio Moura
Reunião com interessados – dia 25/03/2017 – sábado – 10:00 hs
Clínica Ethos – Bairro Recreio - Vitória da Conquista
Nesta reunião será colocada a proposta do curso.
Entrada franca.
Esboço de conteúdo:

1-A PSIQUIATRIA ATUAL

-A forma-psiquiatria
 A psiquiatria considerada como “instituição” antes de ser uma especialidade médica
-Exame do paciente
O comportamento e as funções psíquicas; o Encontro no lugar do Exame
-Saber e poder
A psiquiatria “sabe” pouco, mas “pode” muito. Por que?
-O diagnóstico psiquiátrico
A palavra-de-ordem embutida no enunciado diagnóstico
-Função da loucura
Distinção conceitual “loucura” e “transtorno mental”
-Neurociências e psiquiatria
Importância e limites da pesquisa do cérebro para a psicopatologia
-O que é saúde mental?
Função da psiquiatria no campo da saúde mental
-Corpo e organismo
O “organismo” como produto da medicina e o corpo das intensidades
-A luta antimanicomial
 Posição ético-política de uma psiquiatria materialista

2-OS DELÍRIOS (SÍNDROME OU SINTOMA)
-Conceito de delírio
O fulcro: a questão da verdade
-Etiologia
Origens multifatoriais
-Estudo sobre o pensamento
O rizoma como modelo
-Tipos clínicos 
As síndromes e os sintomas
-Exame do delirante
O paciente que não “se sente doente”
-Tratamento
Só psicofármacos?
-Prognóstico
A cura como conceito

3-AS DEPRESSÕES (SÍNDROME OU SINTOMA)
-Conceito de depressão 
Tristeza não é depressão
-Estudo sobre os afetos
A psiquiatria não dispõe de uma teoria dos afetos
-Etiologia
Origem multifatorial
-Exame do deprimido
O pseudo-deprimido
-Tipos clínicos
Mil depressões
-Tratamento
Limites dos psicofármacos
-Prognóstico
A cura como conceito


4-OS PSICOFÁRMACOS 
-Quadro geral (tipos)
-Clínica psicofarmacológica
-Psicofarmacoterapia e psicoterapia: aliança ou conflito?
-Indicações, limitações e efeitos adversos
-Uma clínica sem psicofármacos?