domingo, 11 de janeiro de 2015

A IMPLICAÇÃO DO LEITOR

(...) O sentido não é mais, como na hermenêutica clássica, um fundamento, um ponto original a ser restituído. Podemos lembrar que a hermenêutica nasce nas leituras da Bíblia, sendo uma técnica de interpretação que tinha em vista desvendar a palavra de Deus. A exegese é, então, a busca por um sentido originário, verdadeiro, do qual a Sagrada Escritura seria o portador. A presença deste sentido verdadeiro, no entanto, acaba sendo transferida para outros campos, como a figura do autor, por exemplo, no Romantismo. E mesmo quando a hermenêutica, que nasceu da leitura dos textos bíblicos, passa a ser aplicada a textos literários, ela guarda a concepção de um sentido absoluto, verdadeiro, a ser descoberto, interpretado, trazido à luz pelo bom intérprete.
Para Foucault, o deslocamento do sentido na hermenêutica moderna é resultado de uma ruptura importantíssima na cultura ocidental da qual Nietzsche, Freud e Marx seriam os responsáveis. Esses seriam para ele os pensadores que nos mostraram a ausência de fundamento, de origem, de um ponto original ao qual o pensamento deveria se voltar. Assim, a partir deles não se pode mais falar em termos de verdades absolutas. Hoje, quando me ponho a ler e interpretar um texto, a partir de certo pensamento moderno, diz Foucault, já não acredito que haja uma verdade única e original. Sei que estou aberto a um campo de possibilidades ilimitadas. Ler e interpretar se tornam tarefas desdobráveis ao infinito. Ler e interpretar se tornam, ainda, tarefas em que o intérprete está implicado. Se não há “uma” verdade, se não absolutismo da verdade, temos o tempo todo apenas versões, variações, modulações, leituras, interpretações. Temos, portanto, somente pontos de vista, perspectivas. E essas perspectivas não poderiam ser independentes do intérprete. Ele está implicado nelas. O próprio sujeito é uma determinada perspectiva sobre a vida. 
(...)
Annita Costa Malufe in Desdobramentos do sentido em Deleuze:implicações para a leitura,2011

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