segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

TRECHO DE " O ABECEDÁRIO, 1996"


CP: Para fechar a infância, senão não terminamos nunca, a sua parece ter tido pouca importância para você. Você não fala dela e nem é uma referência. Temos a impressão de que a infância não é importante para você.

GD: Sim, claro. É quase em função de tudo o que acabo de dizer. Acho que a atividade de escrever não tem nada a ver com o problema pessoal de cada um. Não disse que não se deve investir toda a sua alma. A literatura e o ato de escrever têm a ver com a vida. Mas a vida é algo mais do que pessoal. Na literatura, tudo o que traz algo da vida pessoal do escritor é por natureza desagradável. É lamentável, pois o impede de ver, sempre o remete para seu pequeno caso particular. Minha infância nunca foi isso. Não é que eu tenha horror a ela! Mas o que me importa, na verdade, é como já dizíamos: “Há o devir-animal que envolve o homem e o devir-criança”. Acho que escrever é um devir alguma coisa. Mas também não se escreve pelo simples ato de escrever. Acho que se escreve porque algo da vida passa em nós. Qualquer coisa. Escreve-se para a vida. É isso. Nós nos tornamos alguma coisa. Escrever é devir. É devir o que bem entender, menos escritor. É fazer tudo o que quiser, menos arquivo. Respeito o arquivo em si. Neste caso, sim, quando é arquivo. Mas ele tem interesse em relação a outra coisa. Se o arquivo existe é justamente porque há uma outra coisa. E, através do arquivo, pode se entender alguma coisinha desta outra coisa. Mas a simples idéia de falar da minha infância — não só porque ela não tem interesse algum — me parece o contrário de toda a Literatura. Se me permite, vou ler uma coisa que já li mil vezes e que todos os escritores já disseram. Mas vi este livro ontem, eu não o conhecia. É de um grande poeta russo, Mandelstam. Eu o estava lendo ontem.

(...)

G. Deleuze e Claire Parnet

Um comentário:

  1. Acho que a atividade de escrever pode sim ter a ver a ver com a minha vida pessoal e de outros. A arte imita a vida e a vida imita a arte. Esse tipo de dualidade é saudável, acredito. Eu mesma não consigo ler um texto ou contemplar um quadro colorido sem me projetar neles, pois, para mim,a vida de quem fez essas artes faz parte da vida de cada ser. Singular, mas presente nas multiciplicidades. Daí as várias margens de interpretações que essas obras suscintam . O problema de muitos professores de literatura é que eles querem que nós demos as interpretações que eles defendem como as únicas possíveis. É que muitos deles tem a mente limitada, embora passem boa parte de suas vidas lendo, são regidos pela infância ferida e outras coisinhas mais . Nem se a coisa mais inteligente que o seu terapeuta dissesse em 30 anos de terapia iria resolver - você tem problema e precisa de tratamento. Muitos não querem saber dessa “verdade “, preferem alimentar suas mazelas para passar a vida ruminando “idiotices “. Só acho rsrs

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