terça-feira, 19 de outubro de 2021

ESTE É O TEMPO


Este é o tempo

Da selva mais obscura


Até o ar azul se tornou grades

E a luz do sol se tornou impura


Esta é a noite

Densa de chacais

Pesada de amargura


Este é o tempo em que os homens renunciam.


Sophia de Mello

LEO BRESLAU


 

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

A EQUIPE TÉCNICA EM SAÚDE MENTAL : 10 LINHAS PARA O MÉTODO DA DIFERENÇA


1-A equipe é um dispositivo grupal.Ou seja, trabalha e funciona visando um objeto e um objetivo:  o paciente e o cuidado.


2-O Cuidado é um conjunto de ações práticas, incisivas, até mesmo ações não-práticas (por exemplo, conceitos, diagnósticos, etc)  que redundam em ações concretas e mudam algo em outra coisa.


3-Pensar é tambem uma prática, já que não se trata do pensamento reflexivo, mas do pensamento-em-ato, pensamento--corpo. Pensar é um exercicio perigoso. Nisso há uma distinção importante para com os métodos da Academia, impregnados de positivismo e falso humanismo.


4-De acordo com o método da diferença, há um estilo deshierarquizado da equipe  atuar em saúde mental. Figuras de autoridade técnica e institucional (como o psiquiatra, por exemplo) são usadas apenas como tijolos nas relações de produção do Cuidado. 


5-Em face da sua história (cf. M. Foucault) a psiquiatria ocupa ainda o lugar da verdade, tanto em relação aos demais técnicos, quanto em relação ao paciente. Com status médico e compromissos morais inconfessáveis, aparece como o centro de ação para o cuidado. Mas não é. Apenas reduz  ou suprime (quando consegue) sintomas.


6-A busca da diferença no paciente é ao mesmo tempo a busca da diferença na equipe, em cada técnico, independente do nivel de escolaridade, do status social, do poder nas relações de trabalho e tantas outras assimetrias O método da diferença valoriza a potência de criar e não a verticalidade dos contratos de mando e comando.


7-O método da diferença se corporifica na clínica da diferença. Um cuidado, para ser concreto e real, passa pela escuta do outro e de suas linhas subjetivas expostas.


8-Se observarmos um caps, um ambulatório, um manicômio, há pistas cotidianas muito claras que mostram o quanto a clinica da diferença está sendo traída. Tudo começa pela Escuta qunado não há escuta.


9-É necessária uma auto-análise grupal como condição para a Escuta. A questão técnico-individual (qual a sua graduação?) é substituída por qualidades como o senso de observação, a intuição, a sensibilidade fina, a inteligência e a atitude de espreita.


10- Fazer a clinica da diferença é seguir um método que vai além dos funcionários da organização, seja pública ou privada. Este método implica na produção do desejo de buscar e expressar novas linguagens, outros mundos. Uma ética do trabalho se alia a uma estética da loucura não médica. 



A.M.

A viagem do capitão tornado -Ettore Scola, 1990

domingo, 17 de outubro de 2021

LINHAS PARA O MÉTODO DA DIFERENÇA EM SAÚDE MENTAL

São elas. 1-Contextualizar o encontro com o paciente: onde? como? quando? com quem? por que? para que? quais as circunstâncias? 2- Considerar os afetos em jogo, incluindo os do paciente e do técnico. Não como um mal-em-si ou bom-em-si, mas como uma positividade, aquilo que move as condutas. Trata-se do desejo. 3- Estabelecer hipóteses diagnósticas conforme a chave semiológica "função versus essência". Fazer prevalecer a função terapêutica. 4- Adotar uma atitude expectante (ao modo fenomenológico) expandindo-a como percepção do imperceptível: a espreita. 5-Percutir os sintomas a partir da vivência que o paciente traz do sintoma. Ou seja, retirar o sintoma da grade biomédica (uma doença) e tratá-lo como modo de existência: "eu sou meu delírio, eu sou minha fobia, etc". 6-Tentar, na medida do possível, inverter com o paciente para além da empatia. Não sentir o que o outro sente (isso é impossível) mas sentir com o outro. Trata-se, enfim, de arriscar um cuidado. O que não é simples, ao contrário. 7- Evitar a auto-identificação em papéis sociais contrários à expressão da diferença, já que eles se nivelam ao de psiquiatra neurobiológico. Não ser, pois, juiz, policial ou sacerdote, entre outros agentes da Ordem. 8-Conectado ao ítem 1, avaliar que forças institucionais fazem o paciente falar uma verdade que não é a dele. Criar condições para ele falar em seu próprio nome. 9- Usar o poder técnico como um contra-poder a favor da expressão do corpo singular. Um exemplo é o do paciente impregnado devido a prescrição equivocada de psicofármacos. A correção deve ser acompanhada de uma explicação técnica ao próprio paciente ou aos familiares. 10-Entender que a subjetividade precede os sintomas ou os diagnósticos à la CID - 10. Ou seja, ninguém é bipolar (uma essência) e sim produzido bipolar. Que tudo é produção, inclusive de doença,  medo,  sofrimento e tédio. 11-Construir uma ética da potência, da alegria no lugar de uma ética destrutiva e do ódio. Tais afetos, conscientes ou não, atravessam e configuram o manejo do cuidado. Cuidado com o cuidado. 12- Trabalhar com a leveza existencial (tornar-se criança sendo adulto) ainda que em meio às situações mais ásperas e dolorosas. 13-Considerar que os poderes estabelecidos da sociedade funcionam e se apoiam na fabricação de crenças num além-mundo. Ao contrário, acreditar nesse mundo e nessa terra como o lugar-do-agora. 


A.M.


ENCONTROS

Quando se trabalha, a solidão é, inevitavelmente, absoluta. Não se pode fazer escola, nem fazer parte de uma escola. Só há trabalho clandestino. Só que é uma solidão extremamente povoada. Não povoada de sonhos, fantasias ou projetos, mas de encontros. Um encontro é talvez a mesma coisa que um devir ou núpcias. É do fundo dessa solidão que se pode fazer qualquer encontro. Encontram-se pessoas (e às vezes sem as conhecer nem jamais tê-las visto), mas também movimentos, ideias, acontecimentos, entidades.

(...)


Gilles Deleuze e Claire Parnet, in Diálogos

WILLIAN VALIM


 

sábado, 16 de outubro de 2021

Poema sobre a recusa


Como é possível perder-te

sem nunca te ter achado

nem na polpa dos meus dedos

se ter formado o afago

sem termos sido a cidade

nem termos rasgado pedras

sem descobrirmos a cor

nem o interior da erva.


Como é possível perder-te

sem nunca te ter achado

minha raiva de ternura

meu ódio de conhecer-te

minha alegria profunda.


Maria Teresa Horta

LEVE, O CORPO

(...) Com isto concluo e pronuncio meu julgamento: eu condeno o cristianismo; lanço contra a Igreja cristã a mais terrível acusação que um acusador já teve em sua boca. Para mim ela é a maior corrupção imaginável; busca perpetrar a última, a pior espécie de corrupção. A Igreja cristã não deixou nada intocado pela sua depravação;transformou todo valor em indignidade, toda verdade em mentira e toda integridade em baixeza de alma. Que se atrevam a me falar sobre seus benefícios “humanitários”! Suas necessidades mais profundas a impedem de suprimir qualquer miséria; ela vive da miséria; criou a miséria para fazer-se imortal... Por exemplo, o verme do pecado: foi a Igreja que enriqueceu a humanidade com esta desgraça! – A “igualdade das almas perante Deus” – essa fraude, esse pretexto para o rancor de todos os espíritos baixos – essa idéia explosiva terminou por converter-se em revolução, idéia moderna e princípio de decadência de toda ordem social – isso é dinamite cristã... Os “humanitários” benefícios do cristianismo! Fazer da humanitas uma autocontradição, uma arte da autopoluição, um desejo de mentir a todo custo, uma aversão e desprezo por todos desejos bons e honestos! Para mim são esses os “benefícios” do cristianismo! – O parasitismo como única prática da Igreja; com seus ideais “sagrados” e anêmicos, sugando da vida todo o sangue, todo o amor, toda a esperança; o além como vontade de negação de toda a realidade; a cruz como símbolo representante da conspiração mais subterrânea que jamais existiu – contra a saúde, a beleza, o bem-estar, o intelecto, a bondade da alma – contra a própria vida... Escreverei esta acusação eterna contra o cristianismo em todas as paredes, em toda parte onde houver paredes – tenho letras que até os cegos poderão ler... Denomino o cristianismo a grande maldição, a grande corrupção interior, o grande instinto de vingança, para o qual nenhum meio é suficientemente venenoso, secreto, subterrâneo ou baixo – chamo-lhe a imortal vergonha da humanidade... 

(...)

F. Nietzsche in O Anticristo

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

A DIFERENÇA NA SAÚDE MENTAL - VIII

Conforme a diferença, o diagnóstico psiquiátrico é funcional e não essencial. Isto significa dizer que a pergunta-chave passa a ser: a quem ou para que serve tal diagnóstico? Ora, a psiquiatria tem ao seu dispor um manancial extensíssimo de diagnósticos. Eles compõem um sistema de registro de sintomas. Objetivam um controle sobre os corpos e as mentes. Tudo, claro, com respaldo jurídico e institucional.  Por outro lado, a diferença em saúde mental vai na contra-corrente. Não que traga uma verdade pronta para se opor à verdade da psiquiatria. Nada seria mais tosco. Ao contrario, a diferença não usa o conceito de verdade, e sim o de criação. Neste sentido a prática da diferença em psicopatologia se caracteriza pelo ato de experimentar o novo, inventar, arriscar. Adota o critério da ética pela vida e da estética dos corpos em relação. Em outros termos, a diferença na psicopatologia é a clinica da diferença. Ai a potência de cuidar do outro (e de si mesmo) se traduz numa ética do viver. E que o Encontro com o outro (não só a pessoa do paciente, mas o mundo) expresse um estilo singular de captar signos (mesmo os terríveis) e transformá-los em arte. A diferença é uma produção de arte. Poucos a suportam.

A.M.

terça-feira, 12 de outubro de 2021

SOPA DE FÁRMACOS - II

Vale repetir que quando o psiquiatra prescreve remédios, ele não está só. Junto à ele estão os demais técnicos em saúde mental e as forças (instituições) que buscam  ordem e controle. Assim, o ato-de-medicar é um ato coletivo, mas que parece individual. Isso não exime o psiquiatra de uma responsabilidade ética e técnica. Ao contrário, coloca-o como agente terminal (juridicamente autorizado) de um agenciamento coletivo que o ultrapassa como técnico, e ao mesmo tempo o "coage" a fazer o que tem que ser feito. Tal perspectiva teórica é condição para se pensar o trabalho de um centro de atenção psicossocial como trabalho de equipe descentrado em relação à figura do psiquiatra.  O psiquiatra não é o centro das ações terapêuticas e talvez nem sequer seja importante na condução de alguns casos. Pode até "atrapalhar" caso interfira nos processos subjetivos do paciente e nos seus resultados práticos. Um exemplo simples é o das superdosagens medicamentosas e seus efeitos nocivos aos afetos e efeitos de mudança e resolução de problemas.  Confira: esse é o paciente impregnado ou excessivamente sedado. Assim funciona a "sopa de fármacos " que pode se naturalizar como nutriente da dependência aos remédios. Isso é comparável à dependência psíquica do usuário ao serviço. Este se torna um território existencial  com um sentido exclusivo. O caps minha vida.

A.M.