Este blog busca problematizar a Realidade mediante a expressão de linhas múltiplas e signos dispersos.
domingo, 10 de julho de 2022
Como identificar o fascismo?parte 1
Para se efetivar e operar na prática, o fascismo torna-se um sentimento. Desse modo, antes de detectá-lo nas grandes formações sociais, será preciso analisar o seu funcionamento nas pessoas, o que chamamos de microfascismo. Insistimos que sem esse nível de análise, é impossivel compreender suas motivações e causas. Ora, se ele é um sentimento (afeto triste no sentido espinosiano) trabalha pela destruição da vida, mesmo que diga o contrário. Vimos que o disfarce e a mistura de vários sentimentos maquiam o rosto e a fala da chamada pessoa humana, conceito cristão por excelência. Assim, o grito de "viva a morte" não se faz de modo explícito, já que a pessoa, como organização subjetiva, é quem se expressa no campo das ações práticas: é uma cognição da normalidade social. O fascismo estatal ( grande e histórico fascismo) se estabelece sem ser notado, ou seja, é naturalizado junto a mil sentimentos que até podem ser contraditórios, não importa. O que vale nesse "estágio" é manter a organização da pessoa e do indivíduo como ordem interna que necessita da coesão de forças afetivas e perceptivas. A organização dos órgãos na medicina clínica é uma analogia forte. Ser afetado pelo mundo e percebê-lo sem que os signos de fora (a exterioridade) fraturem (como na ortopedia) a identidade da pessoa é uma "ordem" implícita. Assim, a pergunta "quem sou?" deve ser respondida com convicção imediata. Um território subjetivo está montado e a postos como cerne e servo da condição humana. Ele atravessa povos, raças, países.
A.M.
sábado, 9 de julho de 2022
Como identificar o fascismo? Uma introdução
Antes de tudo é preciso partir da análise dos microfascismos. São produções metastáticas (na oncologia se diz: tumores secundários se desgarram do tumor primário) , que seguem o rumo/ritmo de destruições múltiplas. Da vida. Há um fascismo maior (histórico) do Estado, dos partidos políticos, da grande política, etc, que não existiria sem os tumores subjetivos. Eles o fazem letal. O conceito de fascismo ( grande grito de "viva a morte") opera nas relações sociais como combustível de enunciados simples, inclusive os do cotidiano. Usa o universo tecnológico da internet como campo hiper-veloz onde são editadas suas palavras-de-ordem. Quais? Veremos adiante. O que antes importa é que tais discursos convivem com mil outros discursos: religiosos, filosóficos, científicos, jornalísticos, todos voltados ao Bem. Em suma, o fascismo como método trabalha nos disfarces da produção mental. Só assim ele "pega".
A.M.
sexta-feira, 8 de julho de 2022
quarta-feira, 6 de julho de 2022
CAPITALISMO E ESQUIZOFRENIA - 1
A produção capitalística, em tempos atuais, se dá em escala planetária: a devastação da Terra. Por isso Félix Guattari criou o conceito de Capitalismo Mundial Integrado. O CMI significa a produção subjetiva e portanto material, ou o contrário, a produção material e portanto subjetiva. "Só existe o desejo e o social". Neste sentido, infere-se que o sistema capitalístico se afirmou e se afirma em tão amplas proporções exatamente por que domina e controla os indivíduos por dentro, produzindo subjetividades robotizadas (modos de pensar, sentir, perceber e agir) que giram em torno do valor-dinheiro como abstração concretizada em bens de consumo. A servidão imunda, consentida, é querida: consome-se todo tipo de produto, incluindo sentimentos, valores, religiões, notícias, doenças, conhecimentos, assistencialismos, remédios, espiritualidades, etc. Ora, em tal universo, o sentido é produzido sem cessar como sendo o mundo mais desenvolvido, mais avançado já alcançado pelo Homem, o que é comprovado pela tecnologia científica. Sob tais condições, é muito difícil pensar diferente, ou apenas pensar! Porque não há (aparentemente) um fora do capitalismo. O sistema abarcou tudo, tomou tudo, invadiu tudo até as estruturas do inconsciente. Estamos de fato num mundo delirante (Marx o destaca no "fetichismo miraculante" da mercadoria no início de "O Capital"). A Crença maior é o delírio do capital e é para todos. Atravessa países, cidades, continentes: uma busca enlouquecida pela felicidade no exercício diário do consumo fez do homem moderno uma engrenagem plástica (onde só há uma cultura...) da máquina do capital. Como resistir a tal insânia normatizadora, religião profana, alma escrava?
A.M
terça-feira, 5 de julho de 2022
O que é psiquiatria? parte 1
A psiquiatria é uma especialidade médica surgida na França em fins do século XVIII. Ai se dá a passagem (conforme Pinel) dos asilos aos manicômios.
No entanto, sua origem mais longínqua remete à existência de asilos no século VII (cultura árabe) e no século XV (ocupação árabe na Espanha). Desde então os asilos (aos poucos) passam a ser chamados de hospícios e se espalham pela Europa.
Sendo assim, a origem da psiquiatria se confunde com a origem dos asilos, dos hospícios e dos manicômios. Uma máquina institucional se prepara para encolher as mentes.
A lógica dos asilos é o DNA da psiquiatria.
Já o século XIX, chamado século dos manicômios, dá origem aos hospitais psiquiátricos conforme o modelo atual.
São conhecidas as agressões e os horrores perpretados contra pacientes internados nos manicômios europeus. Michel Foucault descreve com rigor os detalhes das torturas científicas.
No Brasil, entre outros horrores, o hospital psiquiátrico de Barbacena (criado em 1903) tornou-se um registro histórico e modelo de uma barbárie consentida. O holocausto brasileiro.
No período do estalinismo na União Soviética (1927/1957) presos políticos (quantos?) foram internados em hospitais psiquiátricos.
No período da ditadura brasileira (1964/1985) presos políticos (quantos?) foram internados em hospitais psiquiátricos.
A psiquiatria tem uma história pouco edificante.
No Brasil, vieram a reforma psiquiátrica e a luta antimanicomial (em 1978). Mas no campo restante da medicina não há notícia de alguma reforma cardiológica, pneumológica, nefrológica, oftalmológica, etc.De fato, trata-se de uma especialidade diferente.
A psiquiatria (psicopatologia) não produziu uma teoria dos afetos, apesar da extrema importância desse conceito para o trabalho clínico na construção do vínculo terapêutico com o paciente.
O paciente psiquiátrico muitas vezes não quer ser atendido pelo psiquiatra, sendo levado por familiares ou terceiros. Contudo, na clínica médica não se tem notícia de tal recusa, que por vezes é hostil e agressiva, medo de psiquiatra.
O objeto de pesquisa e intervenção clínica da psiquiatria é invisível, impalpável e abstrato. Chamado de “mente” , não há nada parecido em pesquisa médica e metodologia científica.
Sim, uma estranha especialidade essa.
A.M
segunda-feira, 4 de julho de 2022
Noite Morta
Junto ao poste de iluminação
Os sapos engolem mosquitos.
Ninguém passa na estrada.
Nem um bêbado.
No entanto há seguramente por ela uma procissão de sombras.
Sombras de todos os que passaram.
Os que ainda vivem e os que já morreram.
O córrego chora.
A voz da noite . . .
(Não desta noite, mas de outra maior.)
Manoel Bandeira
sábado, 2 de julho de 2022
LINHAS DO INFINITO
Há um limite a partir do qual a diferença não se reconhece e não mais reconhece o mundo. Um horror tão extremo e definitivo se instala: ela, a diferença, torna-se pequena e frágil. Tudo o indica. Fala-se da história da humanidade: uma brochada cósmica. A diferença não mais reconhece aí a palavra "vida" por entre escombros da própria vida. Resta o império do medo reinando entre pessoas do mal que se acham do bem. Um dualismo pérfido. Portador de uma verdade, o monstro (sem forma) do Ressentimento assombra e contamina o dia que nasce. Aborta as micro-revoluções internas dos sonhos azuis de uma criança. Nivela os afetos. Aniquila a política, escorraça a ética e enfeia a estética. Resta a melancolia ( como um drone) sobrevoar a paisagem das pessoas monstruosas ou dos monstros pessoais. E os adornar. E os adorar. Idiotizados, o Império os nutre com a carne fria da morte em vida. Mercadoria da alma. Tudo é disfarce. Anunciaram em rede nacional o apocalipse moderno. Mas algo resiste como a diferença...
A.M.



