segunda-feira, 1 de julho de 2013

PESADELO REFRIGERADO

Foi num hotel em Pittsburgh que terminei de ler o livro de Romain Rolland sobre Ramakrishna. Pittsburgh e Ra­makrishna — pode haver contraste mais violento? Um é o símbolo do poder e da riqueza brutais, o outro, a própria encarnação do amor e da sabedoria.
Começamos aqui, então, o rapidíssimo pesadelo, a cruz em que todos os valores são reduzidos a lixo.
Estou em um quarto pequeno, que deve ser considerado confortável, de um hotel moderno equipado com todas as últimas comodidades. A cama é limpa e macia, o chuveiro funciona perfeitamente, o assento da privada foi até esterilizado depois do último hóspede, se é que se pode acreditar no que diz a tira de papel que o envolve; sabonete, toalhas, luz, papel de carta, tudo fornecido em abundância.
Estou deprimido, mais deprimido do que consigo expressar. Se fosse ocupar este quarto por um tempo considerável, ficaria louco — ou cometeria suicídio. O espírito do lugar, o espírito dos homens que fizeram desta cidade o horror que ela é, penetra pelas paredes. Existe assassinato no ar. Tudo me sufoca.
(...)
Henry Miller in Pesadelo Refrigerado

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