DESEJO
A palavra desejo pode designar uma série de sentidos, trataremos, pois, neste breve glossário, da concepção trabalhada por Deleuze e Guattari.
Esses autores partem do pressuposto que a realidade é pura produção, composta por singularidades e sustentada pelo desejo, sendo assim, desejo aqui é produtor de realidades, processo de produção de universos psicossociais, o próprio movimento de produção deste universos. O desejo cria a possibilidade de produção, criação, invenção de modos e formas vitais. A realidade é produção desejante e o desejo é a força motriz que impulsiona a máquina subjetiva, ou seja, que impulsiona o ser humano a produzir, a imergir num devir criador e impulsiona a subjetividade em múltiplas direções. Tudo o que existe é assim produzido.
Essa concepção de desejo vai contra o proposto pela Psicanálise, que preconiza-o como algo reprimido e recalcado, proveniente do inconsciente, que, por sua vez, é dominado pela tríade Pai-Mãe-Filho, o Complexo de Édipo e a Castração. Deleuze e Guattari não eliminam a noção de inconsciente, mas defendem uma idéia muito diferente do inconsciente freudiano, representacional ou estrutural: o inconsciente maquínico. Ao invés de ser esse como um teatro, onde funções, tramas e personagens se repetem indefinidamente, prepõem-no como uma fábrica do Real-Social em contínua produção. Pelo fato de ser fluido, atravessa com sua potência criativa os meios sociais na invenção do novo e na produção de intensidades. Por sua natureza fluida, o inconsciente maquínico-desejante tem em seu caráter produtivo um viés nômade. Seus fluxos e intensidades desejantes funcionam como dispositivos e deixam acontecer os processos de subjetivação, desarranjando e rearranjando as subjetividades em suas cristalizações e criando o novo na medida das possibilidades de cada corpo e na potencialização da vida. Dessa forma, também divergindo da concepção psicanalítica, o desejo não é uma falta, e sim uma criação de vida, o desejo não carece de nada.
Para esses filósofos desejo é externo, está em tudo no real, a sua essência não é exclusivamente psíquica, pois participa de todo o real. Outro importante ponto em relação à psicanálise, é que o desejo também é parcialmente submetido a entidades repressivas, mas estas não são exclusivamente psíquicas, e sim um complexo conjunto ao mesmo tempo político, econômico e comunicacional, isto é, a repressão do desejo está ligada a todos esses fatores, de maneira que esses é que nos impõem desejos e não permitem a nossa singularidade. Deleuze e Guattari, ainda, rejeitam a noção marxista de que o desejo pertence à ideologia.
Outro aspecto importante do desejo é que nunca desejamos algo sozinho, desejar é uma produção maquinica, é construir um agenciamento, construir um conjunto, uma região, somos máquinas desejantes. Além disso, pode-se dizer que essas máquinas funcionam “falhadas”, pois não seguem uma lógica linear, repetitiva ou previsível (como na psicanálise): desejar é delirar! E o delírio não escolhe apenas elementos familiares, agencia elementos de uma infinita variedade de universos, produz múltiplas figuras da realidade - e não só da realidade subjetiva. Dessa forma, o desejo pode ser identificado como uma força afirmativa de invenção e de diferença que segue sempre em movimento, operando como uma potência criadora e quebrando as normas inflexíveis
"Nas máquinas desejantes tudo funciona ao mesmo tempo, nos hiatos e nas rupturas, nas panes e as falhas, nas intermitências e nos curtos-circuitos, nas distâncias e nos despedaçamentos, numa soma que nunca reúne suas parte em um todo." (Guattari, 1972)
Na realidade, o desejo não é dado previamente nem é um movimento que iria de dentro para fora: ele nasce fora, de um encontro ou de um acoplamento. Explorador, experimentador, o desejo vai de efeito em efeito ou de afeto em afeto, mobilizando os seres e as coisas não para si mesmos mas para as singularidades que eles emitem e que ele destaca. é um processo contínuo de produções simultâneas e imanentes com estados inéditos e estranhos, carregados de intensidades. Assim, pode-se dizer, também, que desejar é passar por devires.
Cháris Rocha e Natália Beker
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