SEM REMÉDIO
O prazer do médico pela melhora do paciente tem uma conexão subjetiva com o ato respaldado juridicamente de “passar remédios”. Talvez seja uma obviedade dizer, mas na psiquiatria esse ato se reveste de um poder sobre a existência e/ou conduta social de alguém. Fazer uma prescrição medicamentosa é influir diretamente num organismo "doente" que precisa ser adaptado ao convívio. A crença é a de promover uma vida, portanto, fazer o bem. Humanitarismo médico. Não se percebe o engano embutido: o paciente não é redutível a um organismo (vida=organismo visível ) sob pena de engessá-lo no circuito das respostas prontas, estímulo-resposta.Ora, se o remédio atua apenas sobre o sintoma e o paciente torna-se ele próprio um sintoma do mundo, sintoma da decadência ético-estética dos tempos atuais, o psicofármaco produz o mundo como o melhor dos possíveis. Artifício de consumo, iconização da Ciência.
De volta ao início do texto, afirmamos que o prazer (desejo coagulado) do médico conecta-se à máquina do Mercado. Claro que, como sempre, há exceções, mas aqui estão em jogo instituições alimentadas pelo capital. Trata-se da política. Não há pessoas e sim, forças, linhas, potências, acontecimentos. Se falamos desse modo, é porque uma implicação prática nos constitui como lugar de combates invisíveis e inglórios.
A.M.
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