Este blog busca problematizar a Realidade mediante a expressão de linhas múltiplas e signos dispersos.
terça-feira, 31 de dezembro de 2024
ÉTICA E CLÍNICA EM SAÚDE MENTAL
Em saúde mental, assim como na medicina, a ética é indissociável da clínica. Não como uma ética idealista, ou seja, não como reflexão teórica sobre a moral. Trata-se de outra coisa, um conceito. Ele está encravado nas práticas. A ética como aumento ou redução da força de viver. Potência dos corpos. Ó Spinosa! A clínica em psicopatologia é assim a própria ética, ela em si mesma, a ética crua. Impossível não haver uma escolha. A psiquiatria manicomial, por vezes disfarçada de neurobiológica, também é ética, ainda que uma ética de invalidação discursiva, destruição e/ou amordaçamento do desejo. É que no ato clínico, a ética passa por linhas singulares da existência que solicitam escolhas finas. Não é fácil, pois não há uma chave universal para resolver dilemas práticos. Ausente um modelo exceto o dos manicômios da alma. Ou o do sistema do capital: mais lucro, exploração, mais, até o infinito. Então a ética não pronta terá que ser inventada a cada momento e num contexto sócio-institucional dado. Diante do paciente, o que fazer? Como diria Deleuze, com que direito?
A.M.
MELANCOLIA DE ESQUERDA
A esquerda sempre foi melancólica?
No fim do século XX, repentinamente, a esquerda revelou uma melancolia que sempre a acompanhou. É uma melancolia sustentada por suas derrotas frequentes, como a derrota da Comuna de Paris, os muitos massacres e guerras, as ditaduras latino-americanas. A história da esquerda é uma história de reveses, fracassos e derrotas. No século XX, a esquerda ainda conseguia superar suas derrotas, sublimá-las dialeticamente, porque a cultura esquerdista era formatada por uma visão teleológica da história. Nós perdíamos as batalhas, mas a história nos pertencia e venceríamos. O socialismo não era só um objetivo. Era concebido como o desenlace inelutável da história. Era tudo ilusão, claro, mas uma ilusão que deu à esquerda uma força extraordinária. Após o colapso do socialismo real e os fracassos das revoluções do século XX, o dispositivo teleológico que permitia à esquerda superar suas derrotas parou de funcionar, e a melancolia se tornou visível e compreensível. Nos anos 60 ou 70 não seria possível um livro com o título "Melancolia de esquerda"
(...)
Enzo Traverso, entrevista a Época (Ruan de Souza Cabral), 08/12/2018, 09:00 hs
segunda-feira, 30 de dezembro de 2024
domingo, 29 de dezembro de 2024
QUATRO OBJETOS TEÓRICOS
A experiência clínica em psicoterapia conta com 4 objetos teóricos, entre outros. São, sem ordem de importância, o Tempo, a Morte, o Amor e o Poder. Eles configuram um enfoque existencial que segue o processo terapêutico como experiência do novo, ainda que este "novo" não se defina com clareza. E certamente não é para fazê-lo, tal a indeterminação do que virá, ou mais precisamente, dos objetivos a serem alcançados. Há muitas formas de psicoterapia, já que esta se põe à serviço das demandas urbanas nas sociedades atuais. O capitalismo, como diz F. Guattari, funciona em escala planetária, produz a angústia dos tempos que correm, notadamente como decomposição de valores tidos como eternos. É nesse ponto de inflexão teórica que os objetos teóricos referidos guardam pertinência como conceitos operacionais no interior de práticas sociais concretas, como é o caso da clínica psicoterápica. O tempo como irreversíbilidade, a morte como amálgama da vida, o amor como acontecimento amar e o poder como potência de existir, se expressam em linhas mutantes de uma vida a se construir.
A.M.
sábado, 28 de dezembro de 2024
quinta-feira, 26 de dezembro de 2024
O EXTERMÍNIO DA ALMA - 6
A alma não é o eu nem o cérebro. Este é objeto de neurocientistas, neuro-cirurgiões finos, técnicos, artesãos de sinapses e neurônios aflitos, e por fim, alvo e vítima de psiquiatras estultos. Mas a alma também não é a das religiões. Ela pertence à natureza; é sua expressão ampliada sem fim. Isso assusta as caixas individuais subjetivas nas linhas de montagem à frente do espelho industrial. Daí as máquinas sociais da modernidade (visíveis ou não) fazem da alma uma coisa manipulável. Segundo Marx isso atingirá requintes de auto-micro-tortura como destino da humanidade. Uma Terra sem alma, globalizada, inteiramente livre para odiar.
A.M.
quarta-feira, 25 de dezembro de 2024
Pedimos somente um pouco de ordem para nos proteger do caos. Nada é mais doloroso, mais angustiante do pensamento que escapa a si mesmo, ideias que fogem, que desaparecem apenas esboçadas, já corroídas pelo esquecimento ou precipitadas em outras, que também não dominamos”
– Deleuze & Guattari, O que é a Filosofia?, p. 237
O Caos Caotiza, ele é ao mesmo tempo nosso aliado e nosso inimigo. Partimos ao encontro do Caos, queremos fazer dele um aliado, mas é nosso intento retornar mais forte, sem nos perdermos. Com a Filosofia, fazemos o percurso do Caos ao cais. Essa é nossa forma de dizer que o pensamento navega de modo frágil e ao mesmo tempo audaz num mar de forças, mas quer, hora ou outra, atracar, encontrar pontos de descanso, um pouco de consistência.
Muito cuidado neste momento! Porque para fugir do Caos nos escondemos embaixo de guarda-chuvas de opiniões prontas! Esse não é o caminho seguido por Deleuze e Guattari. Por isso seu horror por discussões (não procuramos uma verdade que passe pelo filtro da dialética), o medo da reflexão (não procuramos por verdades ocultas em nosso Eu Profundo), por isso sua desconfiança pela contemplação (filosofar exige agir).
Queremos rasgar o caos! Inicialmente para mergulharmos nele, mas para posteriormente estender sobre esse rasgo um plano! Isso mesmo, para inserir no Caos nossos próprio movimentos, nossas medidas, nossos critérios. Tudo o que pedimos é um pouco de calma em meio ao caos. Não queremos o apaziguamento das forças, pois sabemos que é delas que tudo é feito e constituído. Mas precisamos, vez ou outra de um passo pra trás, somente assim podemos dar dois passos à frente. Um pouco de Cais em meio ao Caos.
Se falamos de Filosofia, então queremos dizer: “Nos tragam conceitos! É imprescindível que tenhamos conceitos à nossa disposição!”. É isso que pede cada um dos filósofos, de conceitos para estarem à altura do caos. A filosofia enfrenta as meias-filosofias, de bar, de meia tigela, filosofias que prestam-se apenas à discussão, ou almejam o consenso!
O que o filósofo traz do caos são variações que permanecem infinitas, mas tornadas inseparáveis sobre superfícies ou em volumes absolutos, que traçam um plano de imanência secante: não mais associações de ideias distintas, mas re-encadeamentos, por zona de indistinção, num conceito”
– Deleuze & Guattari, O que é a Filosofia?, p. 238
É isso que pedem os cientistas, cada um deles finca o pé em seu plano de referência para dizer: “Este é o estado das coisas, é assim que as vejo da posição que estou”. Os Cientistas criam funções, encontrar variáveis independentes, constantes e limites. Não porque odeiem o Caos, mas sim porque sentem por ele uma profunda atração. É seu prazer olhar para o abismo e ser encarado por ele. A ciência ama o caos e daria toda a sua vontade de unificação em troca de mais um pedacinho de desconhecido para mergulhar e explorar!
Cabe ao cientista, operando uma seleção e uma filtragem, conduzir gradativamente o Caos a centros de equilíbrio. Colocar limites e renunciar às velocidades infinitas. Essa é sua ferramenta, este é seu ofício. Com elas os cientistas combatem as superstições, as falsas proposições, as pseudociências.
O cientista traz do caos variáveis, tornadas independentes por desaceleração, isto é, por eliminação de outras variabilidades quaisquer, suscetíveis de interferir, de modo que as variáveis retidas entram em relações determináveis numa função”
– Deleuze & Guattari, O que é a Filosofia?, p. 238
(...)
Rafael Trindade, do site "Razão inadequada", acessdado em 25/12/2024
terça-feira, 24 de dezembro de 2024
Pensar o delírio: linhas da diferença - III
11- Se a questão da verdade é fundamental no delírio, todo delírio remete a uma crença ou a um conjunto de crenças (sistema).
12- Na formação subjetiva de cada indivíduo, a primeira crença é a do eu. Quem eu sou? Tal crença vem de fora. O cérebro, como base empírica da mente, processa as informações que lhe chegam. Sem elas ele não existiria.
13- Assim, a verdade é produzida por signos da família, da religião, da escola, do estado, do exercito, etc...
14- Todo delírio vem de fora; a sua forma de expressão vivencial, social, existencial, clinica, e tantas outras, vai depender das condições empíricas do organismo, incluindo-se nele um órgão singular: o cérebro.
15- Nas práticas sociais, obviamente expressas pela linguagem, é onde o delírio vai se afirmar como discurso e corpo; mais profundamente, o corpo como discurso, pois o corpo já é um discurso.
A.M.
segunda-feira, 23 de dezembro de 2024
TEMPO E CLÍNICA
Em psicopatologia clínica, considerar a relação tempo-subjetividade é essencial. Ela deriva de concepções do tempo implícitas. O tempo é uma categoria teórica que pode ser vista de múltiplas formas. Escolhemos duas por serem referências de destaque:1-como elemento vivencial da chamada temporalidade ao modo da fenomenologia; 2- como conteúdo do processo desejante (devir) segundo a visão de H. Bergson. O que distingue as duas concepções? A fenomenologia, considerando a linha passado-presente-futuro, aloca a subjetividade na consciência-do-tempo, ou seja, no espaço da representação. Isso torna a riqueza da vivência submetida ao "peso" de uma identidade a ser buscada na ordem do eu. O tempo=do-eu é um tempo endurecido no presente que não passa. Isso ocorre, por exemplo, na vivência melancólica. O paciente é espremido no hoje. O passado o acusa, enquanto o futuro o ameaça. Quanto ao tempo do devir, trata-se de outra coisa. Há só o Instante fugidio que é cortado sem cessar em passado/futuro num processo irreversível. Uma vertigem. A consciência, enquanto intencionalidade, é posta como efeito dos devires que lhe atravessam e a constituem. Ela não é lugar de uma verdade a ser descoberta, ou de uma luz, nem de uma origem dos afetos. Estes é que circulam livres em arranjos que se compõem numa seta para o futuro, o tempo como criação, invenção de mundos. Pode-se assim dizer que o trabalho do tempo, numa inspiração bergsoniana, vai na trilha de uma subjetividade-em-processo. Não há uma forma subjetiva estabelecida de antemão, mas sim a se produzir no Encontro.
A.M.
domingo, 22 de dezembro de 2024
SOBRE O ACONTECIMENTO
Contra uma pressuposição substancialista que pensa em termos de sujeitos e predicados, substâncias e atributos, Deleuze, em “Lógica do sentido”, traz o conceito de acontecimento e uma teoria da individuação a partir deste conceito. Um exemplo simplificado pode ser instrutivo neste aspecto. Imaginemos um animal tal como um javali. A posição que Deleuze quer contrastar seria aquela que pensa o “javali” em termos de sujeito e predicados; o javali como dotado de um substrato no qual se escrevem predicados/atributos tais como “ser mamífero”, “dentes grandes” etc. Para Deleuze, o javali é a condensação de uma série de acontecimentos e a sua existência é esta condensação em ato, sem nada para além, substância ou substrato. Estes acontecimentos seriam processos que instanciam, concretamente, o javali enquanto ente: processos biológicos (as sínteses celulares no seu corpo); processos “históricos” (a vida do javali); processos ecológicos (a relação do corpo-javali com o meio) etc. Não haveria um sujeito ou objeto anterior a estes processos; indivíduos se constituem apenas como um certo limiar na concatenação destes processos mesmos. Assim, o indivíduo é uma escala ou limiar de variações, como uma cor na escala cromática – certo ponto, dado entre um limite, através do qual podemos dizer, ver e reconhecer uma cor como sendo vermelho ou amarelo, por exemplo. O virtual, na filosofia de Deleuze, corresponde a esta dimensão acontecimental que se dá imanentemente ao atual que, por sua vez, corresponde à dimensão empírica e individuada.
(...)
Domenico Uhng, Universidade Fedreal de Goiás, 2016
O EXTERMÍNIO DA ALMA - 5
Trata-se da atualização pífia da sociedade moderna, com suas máquinas cerebrais encaixotadas em série. Ora, se a alma é o pensamento, aterra e vegeta no endoplasma dos neurônios apáticos. Trata-se do entorpecimento dos afetos como matéria prima do pensar, mesmo e principalmente o mais abstrato. Se a alma é uma abstração pura, não se dobra aos valores de troca do mercado. " Não se troca de alma". Todavia, a devastação dos afetos prossegue o empreendimento da morte disfarçado em pessoa, mormente o discurso político de instituições conservadoras: estado, mercado, escola, direito, e sobretudo o eu e o organismo. Não importa: a orquestra continua tocando até que a água chegue aos ouvidos serenos. De olhos abertos, o nosso Titanic singra no pesadelo.
A.M.
sábado, 21 de dezembro de 2024
sexta-feira, 20 de dezembro de 2024
quinta-feira, 19 de dezembro de 2024
terça-feira, 17 de dezembro de 2024
A DIFERENÇA NA PSIQUIATRIA
(...) Um processo subjetivo é múltiplo e segue linhas de vida que se constituem como um sistema de crenças e o desejo como produção. As linhas moleculares “fervilham” diante dessas vivências (a crença e o desejo), oscilando entre o endurecimento prático (a tirania do verbo “ser”) e o deslizamento prático longe das formações estabelecidas (linhas de fuga). O paciente encontra-se pois, numa encruzilhada de linhas existenciais inseridas num dado contexto. Os quadros nosológicos se submetem a esse contexto e não o contrário. Por isso, é inútil o uso da CID-10 quando se trata de encontrar o paciente. Entre a linha molar e a molecular, a linha de fuga surge (ou surgiu?) como um processo irreversível. Quem é você? A questão da singularidade do portador de um transtorno mental vem à baila como o objeto da intervenção terapêutica, seja qual for a modalidade (psicofarmacológica, psicoterápica,etc). A singularidade é o que está em questão. Assim, as linhas que constituem a subjetividade ganham toda a pertinência na medida em que o paciente não é um sujeito egóico, mas uma multiplicidade que se expressa em singularizações. A linha de fuga percorre o Encontro e faz do mesmo uma via de mão dupla. O técnico e o paciente estão envoltos em multiplicidades que ultrapassam o enquadre simples da clínica enquanto bipessoalidade. A forma-paciente (um rosto visível) cede lugar a mil formas expressas em mapas a serem explorados. Já que as linhas de fuga são as primeiras, umas estancam no sedentarismo molar.Outras disparam em direção às intensidades moleculares. O molde diagnóstico se aferra ao molar e passa a operar ao gosto reducionista. Não é um erro. É uma opção de trabalho tendo em vista certos objetivos do momento, como o de acudir o paciente num sintoma grave (uma depressão com tentativa de suicídio, por exemplo).Ocorre que as linhas molares ressoam na forma-técnico, levando-o a se manter fixo em condutas conservadas. A técnica bem sucedida remete a um modelo implícito de subjetividade. Quem é o paciente? O que é ser normal? Voltamos ao círculo teórico expresso no paciente cerebralizado. Consertar o cérebro a partir da sua manipulação fina é a tarefa em que a psiquiatra biológica acredita .Como contraditá-la?
(...)
A.M.
segunda-feira, 16 de dezembro de 2024
domingo, 15 de dezembro de 2024
américa
uma mulher não é um território
mesmo assim
lhe plantam bandeiras
uma mulher não é um souvenir
mesmo assim
lhe colam etiquetas
mais que nuvem
menos que pedra
uma mulher não é uma estrada
não lhe penetre as cavidades
com a fúria
de um minerador hispânico
o ouro que lhe brota da tez
é antes oferenda
que moeda
uma mulher descende do sol
ainda que
forçada à sombra
Luiza Romão
A imprensa brasileira sempre foi canalha. Eu acredito que se a imprensa brasileira fosse um pouco melhor poderia ter uma influência realmente maravilhosa sobre o País. Acho que uma das grandes culpadas das condições do País, mais do que as forças que o dominam politicamente, é nossa imprensa. Repito, apesar de toda a evolução, nossa imprensa é lamentavelmente ruim. E não quero falar da televisão, que já nasceu pusilânime.
Millôr Fernandes
REALIDADE DAS FORÇAS
A política é constituida por forças. Forças em relação com forças. Neste sentido, "tudo é política" desde que o elemento humano se faça presente. Em termos macrossociais (grandes conjuntos) e microssociais (pequenos conjuntos), a política funciona como um a priori das relações humanas. As forças se "ocultam" nas formas sociais, muitas delas produtivas e necessárias, digamos, a um "bom viver". É o caso da família, instituição muito antiga que "garante" a continuidade de outras instituições como a do eu, da subjetividade, da sexualidade, entre outras. Um axioma se impõe: toda instituição (cujo combustível é o poder) só funciona em relação com outras instituições, formando redes de conexões imprevisíveis. Mesmo na composição do organismo humano (o fenótipo) e do corpo invisível (o sem modelo), instituições-força se relacionam muito mais para compor, conectar e não para destruir. Territórios são criados. Assim, há ambiguidade no cerne do processo institucional. Inexiste "bem " ou "mal" como essências dadas, mas como usos de afirmação ou negação da vida: processo da natureza sem fim. Dissecar esse entrelaçamento de linhas não é fácil e por vezes impossível. No fim, tudo conduz à ação politica segundo análises das forças em jogo. Desde um conflito entre estados nacionais até uma separação conjugal litigiosa, as forças são essencialmente fluidas à serviço de interpretações descoladas (ou não) do real conforme interesses de toda ordem. Podemos chamar tal processo de micropolítico, mesmo que. por exemplo, seja uma crise do Estado de direito. A geopolítica. Eis o quantum desejante que move os corpos nas relações entre si. A moral comparece, mesmo que se a negue, principalmente por isso.
A.M.
O QUE PODE A ALMA?
Parece que a mente humana funciona por seleção e exclusão. Faz sentido pensar assim na vida prática, porque depois de virar à esquerda não podemos virar à direita; ou seja, ao escolher o caminho A, o caminho B fica automaticamente excluído. Fazemos escolhas diariamente, isso é natural e necessário, o problema começa quando, seguindo este raciocínio, precisamos escolher sobre o que pensar e o que não pensar.
Foi Deleuze quem transformou a afirmação espinosista em uma pergunta: afinal o que pode o corpo? Esta questão ficou famosa. Muitos tagarelam sobre a mente, dizia Espinosa, e parece que se esquecem do corpo. Deleuze levou ao limite esta afirmação e se esforçou para excluir do corpo todas as fórmulas tradicionais da filosofia. Desde então, muito se tagarelou sobre o corpo também! E a pergunta contrária de repente ficou proibida, ninguém ousava questionar: afinal, o que pode a alma? Esta curiosidade soava barroca, ou melhor, cristã. Certamente o pensador holandês, tão equilibrado em suas deliberações, jamais nos proibiria de fazer esta outra pergunta. Afinal, o problema não é sobre o que se pode ou não se pode falar. O que nos interessa é se podemos ou não podemos pensar bem uma questão.
Todos conhecem a parábola de Deus formando o homem do pó da terra e lhe soprando nas narinas o fôlego da vida. Esta é provavelmente uma das primeiras afirmações psicológicas da história do pensamento ocidental: o ser humano ganhando vida através da intervenção divina. este mito exacerba nossa concepção da separação entre alma e corpo. E pior, se a alma é presente divino e transcendente, então o corpo só pode nos parecer decaído, pecador. Estas interpretações ganharam força na tradição religiosa e invadiram vários aspectos da cultura e da filosofia, mas é preciso cuidado, estas histórias antigas não podem ser interpretadas com as ideias que temos hoje.
Imagina-se que o gênesis tenha sido escrito no século V a.C. Nesta época, andava pelas ruas da Mileto, na grécia, um antigo pensador pré-socrático chamado Anaxímenes, discípulo de Tales. Ele dizia algo muito parecido: uma força primordial (arché) carrega todas as coisas e por ela nos sentimos levantados, transportados, arrastados, conduzidos. Algo nos atravessa, como o vento que levanta uma folha e a faz dançar. A existência, como um todo, é uma lenta respiração que tudo invade; um eterno inspirar e expirar… um contrair-se e dispersar-se. Ou seja, a divindade aqui não aparece como uma entidade superior e punitiva, ela é o próprio soprar da existência, contínuo e infindável.
O ar é alma do mundo, é o que dá vida e movimento a ele. O ar atravessa o mundo da mesma maneira que um ser vivo a respirar. Trata-se de um pensamento hilozoísta, palavra que tem origem no grega: hyle que significa matéria e zoe que significa vida. Mas a vida aqui não é pensada no sentido estritamente biológico que estamos acostumados, porque os deuses e mesmo a natureza também são esta força. Sendo assim, trata-se muito mais de um impulso vivo que atravessa a matéria até onde consegue. Poderíamos chamar, como Bergson o fez, de Elã Vital. Seja qual for a palavra, o cosmos se mantém por um sopro de ar que o atravessa.
Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido” – Alberto Caeiro
Pois bem, é deste ar que estamos falando. A natureza é este sopro que se espalha em todas as direções, ela é um impulso de propagação que ao mesmo tempo mantém as várias partes deste impulso unidas. Pensemos por exemplo no nosso corpo, esta coleção de átomos, moléculas, proteínas, organelas, células, tecidos, órgãos. Como isso tudo funciona? Muitos biólogos diriam que o corpo funciona como um relógio, e quando uma peça quebra, ele se desregula e pode até parar de funcionar se um médico qualificado não atuar. Claro, este raciocínio é válido quando quebramos o braço ou algo parecido, mas nós sentimos bem fundo no peito que a vida é mais do que uma relação ajustada de peças.
Existe alguma coisa que atravessa todo esse conjunto, uma energia, alguns diriam, como o choque que o Dr. Frankestein descarregou em sua criatura feita de várias partes diferentes de corpos humanos. O que é essa força que dá vida? O que faz um corpo vivo ser diferente de um corpo morto? Neste caso, diríamos que o conjunto é maior que a soma das partes. Para onde segue esta força e o que quer de nós? Estas são as perguntas que nos fazem pensar sobre a alma.
No limite, poderíamos dizer: não amamos corpos, amamos almas, o que nos interessa é a força que atravessa um corpo e dá vida a ele. Tanto faz o nome, pode ser psiquê, mente, alma, espírito. Nos perguntamos o que é isso que faz um cadáver ser diferente de um ser vivo. Ao longo do desenvolvimento das ciências médicas, nos tornamos muito bons em falar do corpo, mas aos poucos parece que perdemos a relação com a vida em seu sentido mais filosófico.
Qual o valor da alma? Uma resposta inicial é possível: um boneco empoeirado encostado no canto do sotão não fala e não nos faz rir. Basta o Ventríloco segurá-lo em seu colo que ele começa a se mover e brincar com todos os presentes. A vida é uma força de interação, de criação; no seu ato de afirmar-se ela cria caminhos novos. O que pode a alma? Diríamos que ela é a emanação mais potente dos corpos.
Uma síntese pode ser feita, pensando numa trégua com os deleuzianos mais aguerridos. Reformulemos a pergunta: o que pode o corpo vivo? Ora, pode expressar a essência de um mundo afirmativo e criador. A alma é o corpo levado aos seus limites, e queremos saber até onde pode ir. Como o vento levanta a folha, nós também somos um sopro, apenas um suspiro, uma brisa efêmera, mas tudo isso importa, e muito.
Rafael Trindade, do site Razão Inadequada, acessado em 15/12/2024
sábado, 14 de dezembro de 2024
Uma coisa branca,
Eis o meu desejo.
Uma coisa branca
De carne, de luz,
Talvez uma pedra,
Talvez uma testa,
Uma coisa branca.
Doce e profunda,
Nesta noite funda,
Fria e sem Deus.
Uma coisa branca,
Eis o meu desejo,
Que eu quero beijar,
Que eu quero abraçar,
Urna coisa branca
Para me encostar
E afundar o rosto.
Talvez um seio,
Talvez um ventre,
Talvez um braço,
Onde repousar.
Eis o meu desejo,
Uma coisa branca
Bem junto de mim,
Para me sumir,
Para me esquecer,
Nesta noite funda,
Fria e sem Deus.
Dante Milano
quinta-feira, 12 de dezembro de 2024
O SENTIDO DAS DEPRESSÕES
As depressões atuais se espalham num amplo espectro de acontecimentos, onde a etiologia (causa) e o quadro clínico (sintomas) são múltiplos. Desse modo, é essencial para uma clínica da diferença em psiquiatria não considerar as depressões no sentido biomédico. Dupla traição: trair a psiquiatria como especialidade médica e à psiquiatria como instituição (forma social). As depressões não são, pois, uma doença do cérebro, mesmo que este se mostre alterado em seu funcionamento. Ora, qualquer afeto produz efeitos sobre o cérebro, mesmo e principalmente um "bom" afeto, por exemplo, a alegria. Ela embriaga. Assim, na análise semiológica do Encontro com o paciente, as perguntas devem partir do mundo para o eu, e não o contrário. De onde você veio, onde você vive, com quem vive, como vive, trabalha, como trabalha, em que acredita, amores, quais seus amores, etc. São linhas existenciais que mapeiam singularidades. Sim, talvez haja necessidade de um anti-depressivo...e se houver, será na contextualização de um tempo desejante. Pena que as cronificações depressivas circulem e se mostrem cada vez mais explícitas. No entanto, como poderia ser diferente se a própria psiquiatria anda deprimida? Sinapses esgotadas... neurônios aflitos... angústia... A alma em colapso.
A.M.
segunda-feira, 9 de dezembro de 2024
COMO RECONHECER O NEOFASCISMO
Há 102 anos (Itália, 1922) nascia o fascismo de Mussolini.Ao seguir na história, esse movimento político inspirou outros regimes (Alemanha, Portugal, Espanha, etc) tornando-se referência até para a dita esquerda. No entanto, à medida em que a sociedade industrial avança, e com ela a tecnologia da imagem, o fascismo se fez diferenciar do totalitarismo. Para obter a dominação e o controle de milhões, formas sociais (instituições) passaram a utilizar métodos com micro-efeitos nas populações, no que Félix Guattari chama de microfascismo. Sem esse dispositivo de “persuasão mental” o controle dos corpos e mentes se revelaria ineficaz. O fascismo tornou-se microfascismo. Dominar de modo explícito cedeu lugar ao controle sobre sujeitos sem que estes saibam que estão sendo controlados e mais, gostem de ser controlados. Óbvio que dominar “por dentro” sempre existiu, ainda que pelo terror induzido na mente dos supliciados. Mas falamos de outra coisa. 102 anos de fascismo foram suficientes para a produção em série (escala planetária) de pessoas humanas que adotam e adoram o capital com ponto hegemônico de subjetivação e desejam isso não só para si, mas para todos, ou seja, para o restante da população mundial. Um processo “natural” é induzido por agências de controle, mormente os Estados nacionais e o grande sistema financeiro e internético com suas mídias afiadas como serviços num plantão ad aeternum. É difícil identificá-lo no coração das pessoas de bem. Se este sentimento de “viva a morte” se instaura e age à revelia do seu portador, a impossibilidade de auto-crítica surge como pressuposto subjetivo. “Que eu morra, mas que permaneçam os valores em que acredito”. Tal foi o refrão macabro do cidadão comum para, por exemplo, para apoiar o governo federal brasileiro de 2018 a 2022. O mito é um desejo funéreo. Trata-se de uma linha suicidária que passa a ser o dado natural da vida. Morrer pela pátria equivale a morrer pela família, pela escola, pela religião, por Deus, por todas as formas sociais, enfim, de transcendências ( o além da vida). Isso credita e legitima a existência da sociedade regida pelo capital, não só como categoria de lucro econômico, mas como fábrica de imagens para um gozo paranóico. O fascista é um paranóico. Este sentimento se interiorizou a um ponto tal que até parece ter deixado de existir, mas existindo mais do que nunca: teorias da conspiração tamponam o buraco do sentido. Estaremos num universo linguístico de redundâncias e paradoxos? Na linha de montagem da subjetividade capitalística, surge, então, como irreal, delirante, impossível e inconcebível, o parto (uma revolução?) de um outro mundo no interior deste. Pensar assim se tornou obsceno.
A.M.
dentadura perfeita, ouve-me bem:
não chegarás a lugar algum.
são tomates e cebolas que nos sustentam,
e ervilhas e cenouras, dentadura perfeita.
ah, sim, shakespeare é muito bom,
mas e beterrabas, chicória e agrião?
e arroz, couve e feijão?
dentinhos lindos, o boi que comes
ontem pastava no campo. e te queixaste
que a carne estava dura demais.
dura demais é a vida, dentadura perfeita.
mas come, come tudo que puderes,
e esquece este papo,
e me enfia os talheres.
Angélica Freitas
AS LINHAS
E, depois, há linhas, uma vez mais, de um outro tipo: linhas de fuga. As linhas que criamos, e sobre as quais nós criamos. Às vezes, nós nos dizemos: mas elas estão como que encalhadas, elas estão como que bloqueadas. Às vezes, elas se desvencilham, elas passam por verdadeiros buracos, elas se destacam. Às vezes, elas estão perdidas … Os outros dois tipos de linhas as engoliram. E, depois, elas podem sempre ser retomadas. O que é esse terceiro tipo de linha? Se dizemos: fazer uma esquizoanálise de alguém. Isso seria chegar a determinar essas linhas, e os processos dessas linhas. Ora, para responder, enfim, à questão, uma coisa muito simples: chamemos “esquizofrenia” o traçado de linhas de fuga. E esse traçado de linhas de fuga é estritamente coextensivo ao campo histórico-mundial. Eu, pequeno burguês francês que não saí do meu país; o que eu deliro, ainda uma vez? Eu deliro a África e a Ásia, à guisa de vingança. E, por quê? Pois é isso o delírio… E não é preciso ser louco para delirar.
Então, se chamo isso de processo: é esse fluxo que me carrega pelo campo histórico-social a partir de vetores. Chamemos isso de viagem, à maneira de Laing e Cooper. Não vejo nisso um inconveniente, pois, com efeito, posso, também, muito bem delirar a pré-história, posso muito bem ter algo a tratar com a pré-história. De toda maneira, é isso que deliramos. Então, o que se passa? Eu digo que cada tipo de linha tem seus perigos. Eu creio que o perigo próprio à linha de fuga, a essas linhas de delírio, é qual? É, com efeito, uma espécie de verdadeiro desmoronamento. O que é um desmoronamento? E, bom, o perigo próprio às linhas de fuga – e é fundamental, é o mais terrível perigo – é que a linha de fuga se torne uma linha de abolição, de destruição. Que a linha de fuga que, normalmente, e enquanto processo, é uma linha de vida, e que deve traçar como que novos caminhos de vida, se torne uma pura linha de morte. E, finalmente, há sempre essa possibilidade. Há sempre a possibilidade de que a linha de fuga cesse de ser uma linha de criação e gire em círculos, como que se pondo a girar sobre si mesma, e desmoronando naquilo que chamamos um ano de “buraco negro”. Ou seja, tornando-se uma linha de destruição pura e simples. E é isso que, a meu ver, explica um certo número de coisas. Isso explica, por exemplo, a produção esquizofrênica enquanto entidade clínica, a esquizofrenia enquanto doença. E creio que o esquizofrênico é fundamentalmente e profundamente doente. É aquele que “apreendido” pelo processo, carregado por seu processo, por um processo… não aguenta o golpe. Ele não resiste ao golpe. É duro demais … É duro demais.
(...)
Trecho de aula - G. Deleuze, "O anti-édipo e outras reflexões, Vincennes, maio de de 1980
domingo, 8 de dezembro de 2024
sábado, 7 de dezembro de 2024
Xeque-mate
Quando menos se espera, já são horas.
A dama de espadas perde o gume
e o pássaro pousado vai embora.
Quando menos se espera, o que se anuncia
não é a sorte grande, a estrela Aldebarã
ou a sagração da primavera.
São tempos de abutre
e o coração, músculo bélico, fraqueja.
De repente, já é sábado,
há uns assuntos desagradáveis para resolver
e, sobre a pele confusa da alma,
uma densa crosta de óxido e desalento.
Quando menos se espera, o rei está em xeque,
e é dezembro.
Há uma complicação de trânsito
na avenida
uma artéria que não dá passagem.
Quando menos se espera, já é tarde.
Carlos Machado
A TRAPAÇA ESPIRITUAL
A chamada "espiritualidade" é, hoje, concebida e tratada como entidade, coisa. Tal é o efeito devastador do modo de reificação (coisificação) inscrito no circuito de "produção-consumo-produção"capitalístico. Fala-se de espiritualidade como se alguém a possuísse: mais espiritualidade (bondade?) ou menos espiritualidade: um atributo, uma propriedade, um objeto-virtude a ser cultivado. Não pensamos assim: a espiritualidade não existe. Só existe o corpo, não o organismo fabricado pela medicina e agências conexas (estado, família, direito, escola...), mas o corpo que nos é tomado e formatado como corpo-organismo, trabalhador, responsável e normal. Ele, o corpo-desejo, está à espreita. O investimento sócio-religioso na espiritualidade cumpre, assim, a função de tamponar a potência do corpo, esvaziá-lo da força de criar a si mesmo e ao mundo. Quando alguém fala em melhorar a sua espiritualidade (muitos falam) exala um cheiro inconfundível de conformismo social. No entanto, esse dado é difícil de constatar ou de contestar de tal modo vem expresso em boas intenções cristãs.
A.M.