segunda-feira, 21 de novembro de 2016

domingo, 20 de novembro de 2016

O QUE É GUERRA?

O clima na Cidade de Deus segue tenso após os tiroteios e operações policiais que culminaram com a queda de um helicóptero da Polícia Militar, com quatro militares mortos.

A moradora Vivi Salles iria realizar um sarau comemorativo de cinco anos do Poesia de Esquina, movimento criado por ela para reunir poetas da Cidade de Cidade de Deus, ontem, mas teve que cancelar o evento, por causa dos confrontos entre criminosos e policiais na região. A poetiza, que tem 26 anos, disse que nunca havia presenciado tanto tiroteio durante o dia.

— Normalmente era só de madrugada, agora passou a ficar normal ouvir tiros durante as manhãs. Ontem, eu achava que a situação ia se estabilizar depois do meio-dia. Mas o tiroteio voltou com tudo à tarde e perdurou até as 22h. Outro evento cultural além do meu também teve que ser cancelado. Houve uma sequência de tiros muito grande na tentativa de abater o helicóptero — afirmou Vivi.
(...)

Pablo Jacob e Lucas Altino, Globo.com, 20/11/2016, 14:07 hs



ALVARO CASTAGNET


NÃO TORÇA O QUE DIGO

O torcedor de futebol é, antes de tudo, aquele que torce a realidade. Está tomado. Assim, não lhe coloque razões, argumentos lógicos, cautelas na previsão dos fatos, análises intelectuais, discursos assépticos. Nada disso. O torcedor de futebol é, antes de tudo, um apaixonado, louco de amor, por amor e com o amor às cores do seu time. No entanto, o seu objeto não é o time, mas o torcer pelo time. Ele ama o amar. De nada adianta lhe impingir juizos morais ou políticos. Esquece. Simplesmente aceite-o. Ele também é você, claro, travestido em outros assuntos, outros objetos. É você, mesmo e principalmente se não o admite. O torcedor de futebol é um "personagem conceitual". Ele expressa o solo primário da condição humana: afetos para todos, por todos os lados, por todos os poros... experiências de perdição.

A.M.


P.S. - BBMP
Não há somente a desgraça de não ser amado;
há a infelicidade de não amar.
Morremos todos desta desgraça!

Albert Camus

20 DE NOVEMBRO - DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA


RIO, EU GOSTO DE VOCÊ

O Rio de Janeiro sente as chagas deixadas pela corrupção endêmica e pela irresponsabilidade administrativa sem limites. Gestores se lambuzaram na fartura de recursos do pré-sal, nas concessões irrestritas lançadas de maneira inconsequente na era Lula/Dilma, nos aportes da Copa do Mundo, da Olimpíada, no dinheiro que jorrava sem controle. E fizeram a festa. Quebraram o Estado. Saquearam o cofre. Mandaram às favas qualquer compromisso fiscal. Deixaram de lado o planejamento, a preocupação com provisão para eventuais apertos de caixa. Gastaram descontroladamente e desviaram mais ainda. O cenário mudou. A crise econômica, a crise do petróleo, a crise da instabilidade, a crise-mãe de todas as crises com o impeachment tomaram conta. E eles não estavam preparados. Não reservaram sequer um minuto de preocupação com o avanço do risco. Era tudo uma grande farra. A conta veio. Pesada. Implacável. Deprimente decadência do poder público enxerga-se naquelas paragens, causando estupor no Brasil e no Mundo. Vivem-se dias de caos por ali com arruaceiros organizando rebeliões. Quebra-quebras e confrontos são constantes. Inclusive deserções das forças convocadas a marchar pela ordem. A Cidade Maravilhosa agora é símbolo de uma tragédia prenunciada nas falcatruas, conchavos e fisiologismo de homens públicos que não deram o menor respeito ao voto recebido nas urnas. Dois ex-governadores presos em menos de 24 horas. O atual, Pezão, sitiado, jogando a toalha, perdendo por completo o controle da máquina, à mercê de baderneiros que tentam impor a ideia do quanto pior, melhor. O pacote de austeridade, com restrições agudas, recaiu sobre os servidores e a reação foi grande. Faz sentido. Em um governo marcado por distorções absurdas, privilégios ao Legislativo e ao Executivo são mantidos enquanto trabalhadores têm de pagar o pato. Mordomias de transporte, de subvenção de combustível e até para a compra de mil selos per capita aos parlamentares fluminenses persistem enquanto hospitais, escolas e salários ficam à míngua.
(...)
Carlos José Marques, Isto É, 18/11/2017, 18:00 hs
De Vulgari eloquentia 

 A realidade é coisa delicada, 
de se pegar com as pontas dos dedos. 
Um gesto mais brutal, e pronto: o nada. 
A qualquer hora pode advir o fim. 
O mais terrível de todos os medos. 

Mas, felizmente, não é bem assim. 
Há uma saída - falar, falar muito. 
São as palavras que suportam o mundo, 
não os ombros. Sem o "porquê", o "sim", 

todos os ombros afundavam juntos. 
Basta uma boca aberta (ou um rabisco 
num papel) para salvar o universo. 
Portanto, meus amigos, eu insisto: 
falem sem parar. Mesmo sem assunto. 


Paulo Henriques Britto

sábado, 19 de novembro de 2016

LINHA SÉRGIO CABRAL


O QUE VIRÁ?

O escritor belga Jan-Werner Müller considera a eleição do republicano Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos uma ameaça real à democracia. Segundo o cientista político formado pela Universidade Princeton, Trump foi um candidato populista durante toda a campanha. Para ele, populistas são contra o pluralismo de opiniões e a oposição, antíteses da democracia. Não há razão para acreditar, segundo Müller, que Trump mudará no exercício do poder – apesar do discurso mais equilibrado na comemoração da vitória. Para Müller, não há chances de outro Trump surgir em outro lugar do mundo hoje; mas ele influenciará partidos de extrema-direita, que já usam sua vitória como propaganda para suas próprias propostas. “O perigo é a disseminação do movimento de supremacia branca”, diz ele nesta entrevista a ÉPOCA. “Trump é algo sem precedentes na história política moderna de países democráticos.” Müller acaba de lançar What is populism, ainda sem tradução.
(...)
Flávia Youri Oshima, Época, 19/11/2016, 10:00 hs

GRANDES ESCRITOS


Perguntas a H P Lovecraft

Por que sempre as cidades ciclópicas com altas torres de cantaria
negra? Por que formas e cores inimagináveis vindas do espaço, vozes
estaladas ou zumbidas e os cheiros insuportáveis? Por que ventos
frios e pesadelos que são reais? Por que o ignoto nos repugna e por
que o fascínio do repulsivo? Por que mundos perdidos no tempo
anterior ao homem? Por que os Antigos eram sempre superiores, mas
repelentes? Por que algo, sempre, deve calar-se? Por que os reinos
informes da infinitude? Por que sempre as substâncias viscosas e
verdes? Por que Aqueles são ameaçadores? Por que as coisas se
evaporam? Por que a incógnita nos causa horror?

Sebastião Uchoa Leite

AUGUSTO MACKE


AFETOS POLÍTICOS - A ALEGRIA
(...)
Por que ainda pensamos no manifestante e ativista sempre com raiva? Se ele sai às ruas para causar algum tipo de mudança, ele carrega consigo sua esperança e seu desejo de bons encontros! Já dizia Foucault que não é preciso ser triste para ser militante! Ora, sinceramente, os acomodados que ficam em casa e os policiais carrancudos nos parecem muito mais tristes e mal-humorados.

Será que ainda temos condições de enfrentar o que está acontecendo com a leveza que só a alegria pode nos dar? Não estamos mais preocupados com o futuro da revolução, mas sim com um devir-revolucionário. Queremos uma resistência ativa, claro! E se não saímos às ruas, então nosso próprio modo de vida, de expressão, precisa mostrar um projeto de instituição da alegria que se materializa diariamente diante de nosso olhos.

Queremos aliados. Queremos conhecer pessoas, outros pontos de vista, ouvi-los. Já perceberam como nossos laços sociais são uma piada de mau gosto? Onde estão os laços sociais? Atualmente eles acontecem apenas com personagens de novela, jogadores de futebol ou em comentários nas redes sociais. Nossa busca pelo afeto (bio)político da alegria não deve ser confundido com o pão e circo que nos hipnotiza e impede de agir. Se saímos de casa é para dar a cara a tapa, para entrar em contato com a diferença.

Por isso precisamos tomar cuidado porque a alegria da qual falamos é a ativa, não a passiva. Queremos instituir a felicidade, torná-la parte de nosso cotidiano, sermos causa dela. Aqui a diferença entre o prazer que amortece e o desejo que cria conexões e nos alimenta no processo. Estamos falando de uma felicidade que ama pensar, uma alegria racional, um processo desejante que aumenta a capacidade de afetar e ser afetado. A alegria ativa como afeto (bio)político não quer nada mais do que crescer e se multiplicar!

Mas chegam os moralistas com suas leis e conselhos. Nos dizem que a própria alegria é perigosa! Os sentimentos humanos são tomados como imperfeições e vícios, e acusam a natureza humana de ser imperfeita e inconstante. Assim, eles prescrevem regras de conduta e criam normas para controlar nosso comportamento. A Ética de Espinosa segue para além desta concepção: não condenar nem julgar os afetos, mas entendê-los, foi o que buscou o filósofo holandês. Por serem ignorantes do que podem os afetos, eles concluem que a natureza humana é decaída e viciosa. Mas nós sabemos que inconstante é o medo e a esperança que eles nos impõe! A alegria cria raízes fortes que são difíceis de serem arrancadas!
(...)
Rafael Trindade, do blog "A razão inadequada", 17/06/2015
POLÍTICA DA VELOCIDADE
(...)
Comumente se diz que o poder está vinculado à riqueza. Em minha opinião, está, acima de tudo, vinculado à velocidade; a riqueza vem depois. Claro que é verdade que o poder precisa de meios, que adquire esses meios através do entesouramento, da exploração ou de ambos, mas as pessoas esquecem a dimensão dromológica( *) do poder. (...) Aquele que tem a velocidade tem o poder. E tem o poder porque é capaz de adquirir os meios, o dinheiro.
(...)
Paul Virilio in Guerra Pura: a militarização do cotidiano

(*) Relativa à velocidade