domingo, 10 de maio de 2020

per si

um vírus emparedou-nos
estamos dentro de casa
prisioneiros de nós mesmos
guardiões do próprio cárcere

(quem não trabalha não come
quem suja limpa)


liria porto

sexta-feira, 8 de maio de 2020

CONCEITO DE FASCISMO

Numa democracia representativa é possível haver um extenso leque de opções político-ideológicas. Da extrema direita à extrema esquerda... muitos são os matizes... condição institucional para o jogo democrático. Isso é "normal" na democracia. No entanto, existe o fascismo e isso não é o normal do jogo. Não é, não segue as regras.Mas, afinal, do que se trata? Ninguém mais do que Félix Guattari furou o nervo da questão. Por isso ele fala de "microfascismos". Assim, a pesquisa sobre o tema incide na detecção de linhas fascistas funcionando na subjetividade. Mesmo a mais bondosa, diga-se. O fascismo é algo interior que vem do exterior. Mas é preciso saber o que são tais "linhas". Veremos: são linhas existenciais prenhes de afeto (sentimento, desejo) que seguem um processo voltado ao fim último onde apoiar as crenças e os valores: um líder, uma doutrina, uma teoria, uma religião, qualquer coisa. O que importa é que tal coisa transcendente funcione como único e inquestionável sentido da existência. Com Mussolini era assim. Com Hitler era assim. Com Stalin era assim.O que os diferencia são os vários contextos sócio-históricos. O que os aproxima é o apego à morte como grito de guerra, morte ao Outro, morte à diferença, morte à singularidade, modelo de vida: a tristeza. Isso é o fascismo, este é o fascismo que nós brasileiros, vivemos agora. Enterrados na cova dos trapaceiros da esquerda, nos restou o fascismo da direita como Salvação idiotizante.O covid adora cortar a respiração.

A.M. 
A REUNIÃO CENSURADA

O Planalto resiste em entregar ao STF o vídeo da reunião ministerial do dia 22 de abril sob o argumento de que o encontro tratou de "assuntos potencialmente sensíveis e reservados de Estado, inclusive de relações exteriores". A Advocacia Geral da União, que representa o presidente da República no inquérito aberto a partir das acusações do ex-ministro Sérgio Moro, pede para ser autorizada a entregar apenas parte do registro da reunião.

Já se sabe que o vídeo — além de trazer a suposta ameaça do presidente de demitir Sérgio Moro caso ele não concordasse com a substituição do delegado Maurício Valeixo- mostra uma reunião pródiga em palavrões e menções a assuntos que o governo preferiria tratar em volume baixo, como os acordos com o Centrão.

E também é sabido que a China foi citada na reunião em termos pouco elogiosos — pelo próprio Bolsonaro e logo na abertura do encontro. Mas a frase mais potencialmente danosa dita na mesa não saiu da boca do presidente, e sim do seu ministro da Educação. Depois de comentar medidas tomadas pelo STF que desagradaram o governo, Abraham Weintraub afirmou que a Corte era composta por onze filhos da puta. Um deles é o destinatário do vídeo. E ainda pode compartilhar com os outros dez o comentário "sensível" do ministro.

Thays Oyama, UOl, 08/05/2020, 09:33 hs

BANKSY


O EXEMPLO DE NITERÓI

Enquanto a cidade —e todo o Estado— do Rio de Janeiro se aproxima do colapso sanitário, do outro lado da ponte a cidade vizinha mais rica parece enfrentar a pandemia de coronavírus com um pouco mais de tranquilidade. O município de Niterói, conhecido por ter o sétimo IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) mais alto de todo o país, vem buscando desde janeiro se antecipar à covid-19 com uma série de medidas sociais, econômicas e sanitárias. Com 500.000 habitantes, foi a primeira cidade a adquirir testes rápidos —um total de 50.000― da China e da Coreia do Sul com o objetivo de testar 10% de sua população ao longo de dois meses.
(...)

Felipe Betim, El País, São Paulo, 07/05/2020, 11:23 hs

quinta-feira, 7 de maio de 2020

COVID: AFETOS E CRENÇAS

Em tempos covídicos, a saúde mental é atingida em cheio. Esse fato óbvio nos conduz a buscar uma psicopatologia que se constitua no próprio universo do vírus, não como causa de certa patologia mental ou um sintoma, mas como linha psíquica do sofrimento atual. O universo da pandemia é claramente um universo paranóico. Isso leva a que afetos contagiem (infectem) efeitos de subjetivação sobre cada indivíduo. O medo (tornado crônico) do invisível, o medo do outro, o medo de si mesmo, a suspeita insistente, a desconfiança a priori, a contenção dos corpos, a compulsão com a assepsia, a angústia ( um mal estar indefinido), a obsessão com o pessimismo e a morte, entre outros...  são afetos negativos, destrutivos. Junto com eles, ou misturadas a eles, nos chegam as imagens, mil imagens produtoras de crenças. Informar e comunicar: o objetivo. Elas são veiculadas por tecnologias de ponta onde a mídia, a internet, os celulares e toda a parafernália on line se corporifica como verdade do mundo a se aceitar sem crítica. Assim, as crenças induzem ao medo e o medo induz às crenças. Um círcuito de realimentação discursiva se instaura como subjetividade isolada, ilhada, confinada, apavorada, o que irá nutrir e abastecer depressóes, delírios, alucinações, fobias, ideações suicidas, lacunas de memória, pânicos, auto-mutilações, insônias, apragmatismos sociais, somatizações, conversões e dissociações histéricas... Enfim, fica evidente que a saúde mental não é a saúde do cérebro mas a saúde do mundo social onde o cérebro, sim, está enfiado. Sem remédio.

A.M.

PHILIP GLASS - Prophecies

quarta-feira, 6 de maio de 2020

OH! LULA...

Em julgamento virtual, a 8a Turma do Tribunal Regional Federal da 4a Região (TRF-4) manteve condenação do ex-presidente Lula no caso do sítio de Atibaia (SP) a 17 anos de prisão.
Por unanimidade, os desembargadores negaram os recursos apresentados pela defesa do petista. Na última petição apresentada ontem à noite, os advogados de Lula solicitaram suspensão do julgamento virtual com base no depoimento do ex-ministro Sergio Moro do no último sábado (2). A defesa alegou que a oitiva de Moro era um novo acontecimento relacionado ao processo de suspeição do ex-juiz da Lava-Jato, que aguarda julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF).
(,,,)

Bela Megale, O Globo, 05/05/2020,16:09 hs
Clínica dos afetos - II

A clínica dos afetos poderia ser chamada "clínica da diferença" ou "clínica das multiplicidades". A opção por "afetos" deve-se à estratégica de análise da psicopatologia que sustenta (ou deveria sustentar) a psiquiatria clínica. Veja: um paciente (qualquer...) está sob a influência incessante de forças que se traduzem no corpo, na alma, na conduta, na existência enquanto afetos, intuições, sentimentos, tendências, emoções, impulsos, instintos, quer sejam criadores e/ou destrutivos. Tal perspectiva metodológica busca eliminar a visão do transtorno mental como evento extra-territorial (fora do meio em torno) o que faz por encaixotá-lo em modelos enrijecidos, frios, assépticos, desnaturados, seja o da visão biomédica, seja o de outras metodologias como a da terapia cognitivo-comportamental (TCC), sem dúvida, um monumento ao conformismo tornado ciência. Uma clínica dos afetos começa com os afetos em jogo postos pelo próprio técnico em saúde mental. O que Freud chamava de contratransferência pode ser ampliado para uma atitude de implicação ético-estética no que acontece ao Outro, sabendo que este Outro somos nós mesmos.

A.M.
A vida é uma ferida?
O coração lateja?
O sangue é uma parede cega?
E se tudo, de repente?

Eduardo Pitta, 

MEU QUERIDO SUPERMERCADO

Às vezes, entre a água sanitária e os tomates, surge o amor. Dura um instante, uma flechada, exatamente o tempo de que todos os produtos passem pelo caixa. Assim que se enchem as sacolas, é hora da despedida. Então, Danilo de Melo Santos fica mais uma vez sozinho com seus sonhos. E com o próximo cliente. “Pode ser que um comprador nem repare em você, e enquanto isso você está divagando, imaginando uma vida com ele”, confessa diante da câmera o jovem operador de caixa. Embora nem todos os idílios terminem com um cupom fiscal e um “até logo”. Acontece que, além de carne e legumes, um supermercado está cheio de surpresas. Como a própria vida. “É claro que já saí com algum cliente, é normal. Acontece, você troca um olhar, um elogio, dá o telefone...”, acrescenta Santos. Sabe-se lá quantos romances já nasceram de uma compra. E não só isso: entre os infinitos corredores, escondem-se debates de filosofia e religião, crônicas íntimas de dor e esperança. Estão lá, embora quem tem olhos só para os biscoitos, as azeitonas ou o desodorante nunca repare neles. A diretora brasileira Tali Yankelevich fez isso. E filmou: seu primeiro longa, Meu Querido Supermercado, foi exibido por streaming no último sábado no festival Visions du Réel.
(...)

Tommaso Koch, El País, Madri, 05/03/2020, 20:16 hs

terça-feira, 5 de maio de 2020

EMIL NOLDE


O CÉREBRO MENTE

A psiquiatria é uma especialidade médica híbrida. Funciona na zona de fronteira entre as ciências humanas e as biológicas. Contudo, mais importante para a prática clínica (ou seja, aos efeitos sobre o paciente) é  o fato de ser ela uma forma social que se nutre dos códigos sociais estabelecidos. Exemplo simples é o da moral. A psiquiatria guia-se pela moral como pressuposto implícito dos seus enunciados diagnósticos, os quais inscrevem-se no fenômeno mais amplo de medicalização da sociedade. Para que tal empreendimento "dê certo",  conta com a reverência das pessoas em geral a uma neurocientificidade reducionista e à figura do psiquiatra como ponto de subjetivação mantenedor da ordem. São linhas semióticas (produzem significados) que circulam entre os técnicos de saúde mental num circuito de naturalização a-histórica da medicina, e por extensão da própria psiquiatria. Daí, a assepsia tecnocientífica da psiquiatria biológica esconder a função da clínica-do-remédio-químico como produtora social de fármaco-subjetividades. Para o paciente e familiares, vulneráveis aos fluxos da loucura, a saída terapêutica passa a ser o psiquiatra que apenas medica, ainda que isso mortifique o desejo. Ou justo por isso. O chamado paciente crônico é produzido, estigmatizado como crônico pelas vias do diagnóstico "cidológico" e pela farmacoterapia contençora dos processos subjetivos singulares.

A.M.