sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

O MINISTRO  INFANTICIDA (*)

 

É preciso dar o nome correto às coisas. Chama-se crime o esforço do governo Bolsonaro para retardar a aplicação da vacina pediátrica contra Covid. Se a ação criminosa não for interrompida, as maiores vítimas serão as crianças de famílias pobres e miseráveis.

Cumprindo ordens do presidente da República, o Ministério da Saúde condiciona a vacinação de crianças à prescrição médica. Os pais endinheirados obterão a receita com um telefonema. Alguns não precisarão nem comparecer ao consultório.

Os pobres terão de ralar por consultas pediátricas num sistema de saúde público sobrecarregado pelas sequelas da Covid, pelos tratamentos retardados de outras doenças e pelo assédio da ômicron e do H3N2.

Os miseráveis talvez prefiram deixar os filhos sem vacina para não perder o lugar na fila do osso. Pressentindo o desastre, os governos estaduais anunciam a intenção de ignorar o governo federal.

Em manifestação veiculada nas redes sociais, habitat natural do seu chefe, o ministro da Saúde disse que, sob Bolsonaro, impera a "responsabilidade." Repetiu que os pais e "seus médicos de confiança" são as pessoas mais adequadas para decidir sobre a vacinação das crianças. "Segurança e liberdade", anotou.

Na véspera, Queiroga naturalizara as mortes de 301 crianças por Covid no Brasil. Dissera que essa quantidade de cadáveres está "dentro de um patamar que não implica decisões emergenciais." Há duas semanas, ao ecoar Bolsonaro na condenação à exigência de comprovante de vacina de viajantes, o ministro dissera que "é melhor perder a vida do que perder a liberdade."

É esse personagem perverso que controla a pasta da Saúde. As vacinas pediátricas da Pfizer foram aprovadas pela Anvisa em 16 de dezembro. Queiroga deveria ter antecipado a encomenda do produto. Em vez disso, retardou para 5 de janeiro de 2022 os procedimentos burocráticos para a inclusão da vacina no plano nacional de imunização.

Utilizará os 20 dias de atraso para realizar uma inédita consulta pública com ares de plebiscito sobre a vacina infantil. As falanges bolsonaristas se mobilizam para produzir o resultado desejado pelo mito do negacionismo.

Queiroga está há nove meses na poltrona de ministro da Saúde. Como cardiologista, já deveria ter notado que é melhor perder o cargo servindo à sua consciência do que perder a cabeça servindo à irracionalidade que usa a liberdade como pretexto para aprisionar brasileiros no caixão.

Presidente licenciado da Sociedade Brasileira de Cardiologia, Queiroga assassinou a sua reputação de médico. A morte costuma atenuar todos os julgamentos. Mas ainda que o doutor mate seu diploma de medicina um milhão de vezes para sobreviver no cargo não conseguirá mudar a opinião desabonadora que os brasileiros de bom senso formaram a respeito de um médico que se associa à morte.

Num país convencional, Queiroga receberia voz de prisão, não respostas para uma consulta pública criminosa. Mas Bolsonaro e seus cúmplices dispõem de um sistema de blindagem. Nem o infanticídio anima o procurador-geral da República Augusto Aras a procurar.


Josias de Souza, 24/12/2021,11:25 hs

(*) Título do blog




segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

Ex-ministro Ernesto Araújo defende gestão da pandemia em entrevista à BBC

O SISTEMA DO DELÍRIO

O delírio crônico é uma forma clínica  em que a organização subjetiva se mantém sem déficit cognitivo. São os casos, antes discutidos pela psiquiatria  francesa,  chamados  de  “delírios  passionais ou de reivindicação” e “delírios de interpretação”. Funcionam como um território existencial de sentido.Na CID-10 compõem o item “transtornos delirantes persistentes”, capítulo da esquizofrenia.A ideação delirante se desenvolve ao longo de meses ou  anos, e até por uma vida  inteira. A gravidade psicopatológica  varia com as contextualização histórico-vital  de cada caso.Por exemplo, há pacientes  cuja integração social ainda é possível enquanto  outros apresentam dificuldades. Isolam-se. De todo modo, a manutenção da capacidade cognitiva faz por colocar esses pacientes  em situações peculiares, insólitas, constrangedoras no dia-a-dia,  já que,  conforme o senso  comum, à primeira vista "parecem que  não são  loucos mas o são”. Não aceitam tratamento porque não se sentem doentes e/ou com necessidade de ajuda.Essa é uma marca semiológica distintiva em relação aos quadros esquizofrênicos, cujos pacientes acabam por não produzir socialmente, mesmo sem sentimento de doença.(...)

A.M. in Trair a psiquiatria

domingo, 19 de dezembro de 2021

MICHAEL FLOHR


 

contagem regressiva


faltam 378 dias, 6 horas, 52 minutos e 34 segundos para acabar

o pesadelo

ufa


está próximo ou longe

a depender da tragédia

de cada um 


não há mal que dure

sempre

e nem falamos do vírus


A.M.


sábado, 18 de dezembro de 2021

Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra.


Caio Fernando Abreu

Bedroom Folk - Sharon Eyal & Gai Behar (NDT 1 | Strong Language)

NOSSO ADMIRÁVEL MUNDO

No universo de Orwell, a população é controlada pela dor. No de Huxley, pelo prazer. “Orwell temia que nossa ruína seria causada pelo que odiamos. Huxley, pelo que amamos”, escreve Postman. Só precisa haver censura, diz ele, se os tiranos acreditam que o público sabe a diferença entre discurso sério e entretenimento. “Quão maravilhados ficariam todos os reis, czares, führers do passado (e comissários do presente) em saber que a censura não é uma necessidade quando todo o discurso político assume a forma de diversão.” O alvo de Postman, em seu tempo, era a televisão, que ele julgava ter imposto uma cultura fragmentada e superficial, incapaz de manter com a verdade a relação reflexiva e racional da palavra impressa. O computador só engatinhava, e Postman mal poderia prever como celulares, tablets e redes sociais se tornariam – bem mais que a TV – o soma (*) contemporâneo. Mas suas palavras foram prescientes: “O que afligia a população em Admirável Mundo Novo não é que estivessem rindo em vez de pensar, mas que não sabiam do que estavam rindo, nem que tinham parado de pensar”.

Helio Gurovitz, Época, 12/02/2017, 10:19 hs

(*) Psicotrópico do universo de Huxley (Nota do Blog)

quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

  • Por que não teria direito de falar da medicina sem ser médico, já que falo dela como um cão? Por que não falar da droga sem ser drogado, se falo dela como um passarinho? E por que eu não inventaria um discurso sobre alguma coisa, ainda que esse discurso seja totalmente irreal e artificial, sem que me peçam os meus títulos para tal? A droga às vezes faz delirar, por que eu não haveria de delirar sobra a droga?

          (...)

         G. Deleuze in Conversações

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

É difícil aprisionar os que têm asas.


Caio Fernando Abre

OS FUNCIONÁRIOS DA VERDADE


Eles estão em toda a parte. Talvez sejam a maioria. 

São funcionários porque funcionam, operam, agem. Sustentam o mundo estabelecido dos humanos.

Iremos citar alguns exemplos como tentativa de caracterização objetiva e subjetiva. São linhas existenciais que os constituem e se misturam. Por isso um lusco-fusco na expressão prática se impõe como camuflagem de crenças. 

Os funcionários administram o acaso para que seja possível a manutenção da ordem. E apelam para a verdade como referência única.

Essa verdade pode ser várias,  mil, cem mil. Permanece, contudo, sendo uma verdade.Os funcionários precisam de certezas, assim como os pulmões de ar.

Encontramos na grande política funcionários vitalícios. Tanto os que dominam quanto os que são dominados. Há quem chame estes últimos de massa.

Começamos pela política porque aí a história da humanidade é a de um pesadelo do qual não se acorda.Mas poderia ser outro começo.

Por exemplo, a religião: nela os funcionários (ou fiéis) costumam ser ungidos acima dos mortais, na medida em que cultuam a imortalidade.

Mas há muito mais, já que a verdade ajuda (e muito) a viver.

A universidade, e sua forma que vem da Idade Média, usa dos seus para promover a verdade do pensamento. A sociedade fica abaixo no quesito intelectual.

A verdade da academia exporta seus seguidores para a ciência. Ou o inverso, tanto faz. 

Para complicar a questão da verdade, o capital e o seu método, o capitalismo, fabrica uma verdade única, a mercadoria. Esta se expande e se disfarça nos poros abertos do corpo social. Uma longa história atualiza a barbárie planetária do horror econômico. Ou seria político?

A pessoa humana (conceito cristão) naturaliza o funcionamento da verdade como crença no eu, na consciência e no céu como eterna promessa. O futuro não chega.

As massas consomem  e gozam palavras-de-ordem veiculadas pela mídia.

Fake news são verdades, mesmo não sendo. 

Em casos extremos, funcionários da verdade tornam-se fascistas. Querem tampar o buraco de sentido das sociedades de controle. Uma crispação paranóide se anuncia como crise política.

No amor, o romantismo traz o tom adocicado da verdade para os amantes da fantasia. Isso não funciona mais, exceto como arcaísmo.


A.M