Este blog busca problematizar a Realidade mediante a expressão de linhas múltiplas e signos dispersos.
quinta-feira, 17 de maio de 2012
quarta-feira, 16 de maio de 2012
Devires
O
paciente vive entristecido pela Grande
Máquina. Sua alegria foi aniquilada em plena vigília.
Do nada. Ninguém assume
a autoria dos pequenos crimes.
Eles são administrados em nome da paz de
espírito. Ora, o espírito
também caga. Avise aos últimos
palhaços que a arte foi solapada em nome do ideal dos homens
de branco. Ao que me consta, nada mudou no sulco das bocas. Elas falam rachando dentes. Mastigam
auroras nati-mortas. Mas o Rosto carrega uma expressão justa, como negar? A bondade natural dos humanos. Ó Lovecraft,
socorrei! Apenas uma cidade respirando um arco-íris, manda por favor...
Não falo por mim. Por mim, ó... Falo pelo que não sou, falo
por devires. Escutai a
canção do mundo... Você dança?
O paciente sucumbe à Ordem. Por favor,
o senhor pode me dizer as
horas? Já vai tarde o tempo
dos mestres, com todo o respeito.
Sonâmbulos da própria dor,
como falar aos
que não falam? A Grande Máquina é uma pequena dose de benefícios a curto e
médio prazo. Ela
se insinua na febre dos
corredores infectos. Um susto, um sus. Tudo é
contágio. Resistir à morte, querida, e fazer dessa vibração algo novo,
será possível? Talvez um devir-amante imerso em trepadas millerianas. Bicho, perdoa o jeito canino: o que é necessário
para viver por viver?
Pacientes são pacientes demais.
Armaduras químicas, lições de casa, manuais de sobrevivência,
coisas simples, eles são normais. Eu queria um gosto de sol em
você, em suas dores mais intensas e irremediáveis. Pena que a
sombra dos quintais do passado anuncie
sessões de tortura regadas à dinheiro. A
entrega é às oito. Todos estarão lá, até o
chefe da Facção Sinistra, aquele
mesmo que começou a seduzir a multidão
com truques de falar
macio. Não tem jeito. Somos inocentes radicais.
(...)
Antonio Moura - do livro Trair a psiquiatria
SEM IDENTIDADE
Eles não agem com finalidade pedagógica, é claro. Não se trata de lhe ensinar o que quer que seja, no momento. Essa língua de catequista, melíflua, biliosa, é a única que sabem falar. Que ele se vá, que tente ir-se, para longe desse ruído lacerante, é tudo que eles pedem no momento. Para onde ele for, estando no centro, irá na direção deles (...) (...) isso vai mal, procurai bem, eu devo sentir alguma coisa, sim, eu sinto alguma coisa, eles dizem que eu sinto alguma coisa, eu não sei o que é, eu não sei o que sinto, dizei-me o que sinto, eu vos direi quem sou, eles me dirão quem sou, eu não compreenderei, mas será dito, eles terão dito quem sou,
(...)
Samuel Beckett - do livro O inominável
AFETOS=SUBJETIVAÇÕES
Tanto quanto em relação à afetividade, os modos de subjetivação (subjetividades) não são considerados pela psiquiatria. Não por erro, mas por "coerência" metodológica.Ou seja, o método da psiquiatria tem como condição de funcionamento a eliminação (se possível, definitiva) de toda e qualquer expressão do desejo. Assinalamos, pois,a dificuldade de pensar e fazer a diferença num mundo indiferenciado. Mas, como no final de "A Laranja Mecânica, sobrou o riso semi-oculto do protagonista. Confira no delírio de Kubrick.
Antonio Moura
A IMANÊNCIA DA CLÍNICA
A psiquiatria não dispõe de uma teoria da afetividade.Comprove nos manuais... Daí, como trabalhar a relação com o paciente, senão no "interior" duma relação de poder verticalizada e historicamente constituída? Ao contrário, para se fazer uma clínica das multiplicidades, os afetos tornam-se a materialidade das práticas. A percepção moral do louco (Foucault) cede lugar a uma percepção da loucura como caos inumano. Não é fácil, mas quanto mais difícil, mais intensas as saídas.Experimente.
Antonio Moura
terça-feira, 15 de maio de 2012
REIFICAÇÃO DOS SINTOMAS
(...) (...)Entretanto, o afeto não é uma coisa
nem é algo
natural. Abstrato,como vimos, ele
é feito, produzido,fabricado
como sentimento humano à condição de
portador de um transtorno: sobressai-se a figura do doente que se torna componente
de um papel social
cristalizado.A larga utilização de psicofármacos em
associações variadas borra a linha abstrata que divide os doentes dos
não-doentes.Para a psiquiatria atual tudo é
psiquiatrizável. Esta sentença diagnóstica ocupa o lugar de poder respectivo
ao enunciado.Importa que o paciente seja medicado e adaptado. O afeto é secundário à tal manobra terapêutica porque
ele foi posto como consciência do sentimento no pacote nosológico.
Se todos
são julgados de antemão doentes, não interessa saber o que efetivamente sentem (qual o afeto?) e sim o que
fazem...É um regime paranóico guiado pela razão:
desconfiar da afetividade. Esta não é mensurável; um modelo de pensar desconsidera até mesmo condições evidentes de sofrimento como
as da depressão e da angústia. Esses afetos
têm formas de
expressão extremamente variadas, nuances clínicas finas, imperceptíveis a um
olhar normatizador. Eles resistem a um cadastramento semiológico. Por isso, muitas
vezes ficam excluidos da avaliação ou
incluidos numa espécie de
“rostidade clínica” [1].Transtorno do humor ou de ansiedade? Uma reificação dos sintomas, um endurecimento dos
signos da doença,uma forma de trabalho
do pensamento da
representação. Não importa pesquisar
as singularidades de
cada caso. O que está
em jogo é o
conceito de doente como
ser improdutivo e não o de loucura. Isso nos remete à
questão do louco e à
sua conduta social. O
conceito de louco
está na base da
construção histórica do conceito
de
doente mental, o que implica
na negação enviesada do da loucura como conceito não médico e por isso
irrelevante para a clínica psicopatológica [2]. A
figura do louco, substituida
na atualidade pela
do portador de
transtorno mental, cumpre, entre
outras, a função de desviar
o foco de pesquisa
da loucura (portanto, do
pensamento) para a clínica moral (a
técnica pura). É uma
maquinaria institucional lastreada
em rituais acadêmicos e
inscrita num corporativismo profissional.[3]
(...)
Antonio Moura - do livro Trair a psiquiatria
[1]
Regime semiótico ou
de signos que
compõe a expressão reificada
do “ser-da-depressão” ou do “ser-da-ansiedade”. Tais regimes são mantidos numa espécie de encaixotamento nosológico como
referência de verdade ao diagnóstico
psiquiátrico.
[2] “A
palavra “loucura”, tão presente na fala e na literatura de todos os
tipos, evidentemente não tem o sentido que a psiquiatria dá a doença mental. Quem fala de loucura não se
importa com o que o médico entende por doença mental, ou não sabe”, Sonenreich, C.,
Estevão, G. e Filho, Luis de Morais, Psiquiatria:propostas,notas,comentários, S.
Paulo, Lemos editorial, 1999, p.10.
[3] O
Movimento da Luta Anti-manicomial,, por exemplo, é visto em alguns meios psiquiátricos como objeto persecutório. Um pensamento malévolo faz do
nome Luta Anti-manicomial a sigla
LAMA. Diz-se “o pessoal da lama”...
ROSTIDADE
Nada menos pessoal que o rosto. Até mesmo o louco deve ter um certo rosto conforme o que se espera dele. Quando a professora tem um ar esquisito, você se instala nesse último nível de escolha e diz: sim, é a professora, mas vejam, ela está deprimida ou ficou maluca.
(...)
C. Parnet - do livro Diálogos (c/ G. Deleuze)
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