DIAGNÓSTICO
Perante a CID-10 e o DSM-V, não é possível
diagnosticar. O diagnóstico não existe. Comecei do zero. Esqueci dos códigos. Escutei vozes
dizendo: “ele pensa que é o apocalipse”. Ninguém por perto para testemunhar. Abri as janelas.
Manhã tão bonita manhã. No entanto, a doutora avisou que vai
chegar mais tarde. Hoje
é dia de visitas inesperadas.
Aos que vierem,
usem a vida como estimulante. No entanto, figuras empoladas pronunciam discursos
doutos. Nada da
expressão do desejo. Nada mesmo. Que fazer? O círculo é estreito, a rede é fina, o controle é (quase) completo. Resta o pensamento: caminhar veloz, conectar aliados insuspeitos, brincar com o peso do diagnóstico. Poe. A loucura não tem
diagnóstico. Os loucos circulam soltos,
mesmo prisioneiros. A sociedade industrial
imprime no corpo dos seus súditos a marca da psiquiatria biológica. Por isso, hoje,
escondo o segredo das origens.
Nada de genética. A universidade não
entende. O povo não entende. O diagnóstico enterra suas esporas
sobre
corpos previamente dominados.
Somos todos inúteis úteis.
A.M.
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