PENSAMENTO RARO
No futebol atual, todo mundo sabe jogar, não tem ninguém mais bobo, times ou países, até alguns anos de pouca expressão, hoje se destacam, vencem jogos, ganham títulos, produzem zebras, etc. Apesar disso, um personagem vem se tornando cada vez mais raro nos gramados. O craque. Sem entrar em maiores definições do que seria um craque, apenas cito Zico, Falcão, Sócrates e Júnior, todos da mesma grandeza, por assim dizer. Há muitos outros, claro, inclusive atuais. Escolhi-os por terem sido companheiros num time artístico e mágico, o de 82. Mas, por que, hoje, faltaria o craque? A resposta inclue o uso do pensamento como chave para se entender o que não é mesmo para se entender: o drama trágico do futebol. Assistam a jogos, a muitos jogos,se possível ao vivo, se não em vídeos do passado, e vocês verão que em geral, o pensamento vem ficando ausente, mesmo que se mostre sob a expressão de dribles, passes, chutes, lançamentos, toques de primeira. O pensamento é um órgão raro no jogador de futebol e só os mestres, os grandes, os verdadeiros craques o tinham, a daí, a sua superioridade, daí a sua diferença, a sua singularidade, a arte para além da técnica. O estado atual de formação do jogador, incluindo o condicionamento físico precoce, o avanço da medicina esportiva, da fisioterapia, da educação física, a hegemonia acachapante do mercado capitalístico da bola, o aumento da velocidade da gorduchinha e a consequente redução do espaço euclidiano, o destaque conferido à técnica como atividade essencialmente motora (o jogador talentoso com o olheiro na cola) e por fim, (já aí extrapolando o universo do futebol), a fabricação em série, pela cultura do consumo, do idiota perfeito, como diria Nelson Rodrigues, formataram o exílio do pensamento. Então, eles conseguiram, fizeram o pensamento abandonar os campos verdes e cheios de magia, e no seu lugar se instalar a correria desenfreada pela busca de títulos que a FIFA, a CBF e outras entidades, ritualizaram em belas jogadas (ainda que com escasso pensar) e em lucros desfrutáveis por quem nunca sequer acertou um bico na pelota.
A.M.
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