Este blog busca problematizar a Realidade mediante a expressão de linhas múltiplas e signos dispersos.
quarta-feira, 31 de dezembro de 2025
SOBRE O FIM DO ANO
Não há fim do ano. Tudo é processo, tudo está no meio e essa é a certeza para jogar bem, como diz Deleuze.
O fim do ano tornou-se uma forma social (instituição) criada pelo sistema do capital. O objetivo, como em outras áreas da atividade humana, é a produção de uma mercadoria (o Réveillon) e seu consumo em multiplicações festeiras.
Este é um belo esquema teórico derivado de Marx. Contudo, não atinge a questão do processo de subjetivação do tempo como categoria essencial das subjetividades.
Na marcação do tempo o que está em jogo é a vida, expressa como existência social. Em tempos atuais é uma linha do desejo atrelada à formação capitalística planetária. Ela executa a cristalização do papel social do consumidor.
Ora, ser consumidor implica, graças às maravilhas técnico-científicas, em consumir a imagem de si mesmo no mundo de uma linguagem redundante: a internet.
Quanto ao "redundante", tal imagem funciona em repetição estéril e automática num vazio de criatividade. Naturalizada em loucas velocidades.
E o tempo "pede" uma imagem física, orgânica, corpórea.
Sendo assim, o "fim do ano" é tão só mais um fluxo poderoso de imagens planetárias. O que as move é o pavor da morte coletivizado e maquiado em mensagens de esperança. O tempo é fatiado, exposto e tornado visível: o ano novo costuma ser apresentado como um bebê...
Compreensiva a decepção das pessoas quando o relógio bate meia noite e um segundo, ao dizerem: "oxi, nada mudou!"
Imediatamente pronta, recomeça a Confraternização Universal dos Humanos em 1º de janeiro.
A.M.
sábado, 27 de dezembro de 2025
sexta-feira, 26 de dezembro de 2025
V (Na treva mais gelada, na brancura)
Na treva mais gelada, na brancura
Mais cega e morta, a vida ainda transluz.
Até de dentro de uma sepultura
Brota um soluço trêmulo de luz,
A luz que sua, a luz que desfigura
As pétalas pendidas nos pauis,
A espuma nos penhascos, fria e pura,
As chamas em seus ápices azuis.
Desalentos, angústias e canseiras
Tornam maior, mais tenebroso o olhar
Que lembra o olhar dos mortos: só olheiras
São existências que se dão inteiras
E sofrem, como o vento, como o mar,
Como todas as coisas verdadeiras.
Dante Milano
quinta-feira, 25 de dezembro de 2025
quarta-feira, 24 de dezembro de 2025
domingo, 21 de dezembro de 2025
sábado, 20 de dezembro de 2025
sexta-feira, 19 de dezembro de 2025
DIREITA E ESQUERDA
Reduzir a política ao binarismo direita versus esquerda é um achincalhe ao pensamento e à sua produção desejante.
Tal manobra é a das mídias sociais e das instituições produtoras do controle subjetivo de milhões.
Influencers por toda a parte se encarregam de complementar a imbecilização das massas.
A linguagem se expressa por um enxugamento semiótico das paixões da alma, da arte e dos devires incontroláveis.
No fim das contas, qual "força da natureza", tudo recomeça sob o signo da burrice.
A violência imposta sobre os "humilhados e ofendidos" se maquia como tecnologia triunfante.
Na terra exausta e exangue o Natal subsiste com suas alegorias de horror ao menino.
A.M.
quinta-feira, 18 de dezembro de 2025
segunda-feira, 15 de dezembro de 2025
TRECHO DE " O ABECEDÁRIO, 1996"
CP: Para fechar a infância, senão não terminamos nunca, a sua parece ter tido pouca importância para você. Você não fala dela e nem é uma referência. Temos a impressão de que a infância não é importante para você.
GD: Sim, claro. É quase em função de tudo o que acabo de dizer. Acho que a atividade de escrever não tem nada a ver com o problema pessoal de cada um. Não disse que não se deve investir toda a sua alma. A literatura e o ato de escrever têm a ver com a vida. Mas a vida é algo mais do que pessoal. Na literatura, tudo o que traz algo da vida pessoal do escritor é por natureza desagradável. É lamentável, pois o impede de ver, sempre o remete para seu pequeno caso particular. Minha infância nunca foi isso. Não é que eu tenha horror a ela! Mas o que me importa, na verdade, é como já dizíamos: “Há o devir-animal que envolve o homem e o devir-criança”. Acho que escrever é um devir alguma coisa. Mas também não se escreve pelo simples ato de escrever. Acho que se escreve porque algo da vida passa em nós. Qualquer coisa. Escreve-se para a vida. É isso. Nós nos tornamos alguma coisa. Escrever é devir. É devir o que bem entender, menos escritor. É fazer tudo o que quiser, menos arquivo. Respeito o arquivo em si. Neste caso, sim, quando é arquivo. Mas ele tem interesse em relação a outra coisa. Se o arquivo existe é justamente porque há uma outra coisa. E, através do arquivo, pode se entender alguma coisinha desta outra coisa. Mas a simples idéia de falar da minha infância — não só porque ela não tem interesse algum — me parece o contrário de toda a Literatura. Se me permite, vou ler uma coisa que já li mil vezes e que todos os escritores já disseram. Mas vi este livro ontem, eu não o conhecia. É de um grande poeta russo, Mandelstam. Eu o estava lendo ontem.
(...)
G. Deleuze e Claire Parnet
domingo, 14 de dezembro de 2025
sábado, 13 de dezembro de 2025
Milagres
Ora, quem acha que um milagre é alguma coisa de especial?
Por mim, de nada sei que não sejam milagres:
ou ande eu pelas ruas de Manhattan,
ou erga a vista sobre os telhados
na direcção do céu,
ou pise com os pés descalços
bem na franja das águas pela praia,
ou fale durante o dia com uma pessoa a quem amo,
ou vá de noite para a cama com uma pessoa a quem
/amo,
ou à mesa tome assento para jantar com os outros,
ou olhe os desconhecidos na carruagem
de frente para mim,
ou siga as abelhas atarefadas
junto à colmeia antes do meio-dia de verão
ou animais pastando na campina
ou passarinhos ou a maravilha dos insectos no ar,
ou a maravilha de um pôr-de-sol
ou das estrelas cintilando tão quietas e brilhantes,
ou o estranho contorno delicado e leve
da lua nova na primavera,
essas e outras coisas, uma e todas
— para mim são milagres,
umas ligadas às outras
ainda que cada uma bem distinta
e no seu próprio lugar.
Cada momento de luz ou de treva
é para mim um milagre,
milagre cada polegada cúbica de espaço,
cada metro quadrado da superfície da terra
por milagre se estende, cada pé
do interior está apinhado de milagres.
O mar é para mim um milagre sem fim:
os peixes nadando, as pedras,
o movimento das ondas,
os navios que vão com homens dentro
— existirão milagres mais estranhos?
Walt Whitman
sexta-feira, 12 de dezembro de 2025
CLÍNICA E TECNOLOGIA DA IMAGEM - V
O que é o Real? A psicanálise (lacaniana) diz que o real é impossível, pois vivemos num mundo essencialmente simbólico. Conforme essa doutrina, o real é lançado para os rumos da psicose, ou seja, rompido com a formação social no qual se inscreve. Quem tem acesso ao real é louco, é o louco em seu desvario. Uma insanidade, enfim. Ao contrário, pensamos ao modo deleuziano. O real não está dado, ele é produzido, sempre produzido. Resta saber por quem. Há toda uma questão ético-política de fundo... Os artistas, os videntes, os poetas, os revolucionários (não os "esquerdistas"), entre tantos outros, sabem disso porque experimentam o mundo na própria carne, melhor dizendo, no corpo sensível, desejante, nutrido de mil sensações. Se a psicose é o real, as "mil sensações" se tornam mil sintomas clínicos do transtorno que a psiquiatria biológica chama de "mental". A tecnologia moderna inunda o cotidiano com uma tal profusão de imagens que uma psicose (com mil sintomas) ocupa o lugar da esquizofrenia reeditando-a como "A" psicose. Assim, depressões, borderlines, retardos, paranóias, demências, drogadiçoes, fobias, pânicos, ansiedades, e tantos outros signos atuais do aniquilamento da subjetividade individuada, se somam e se aliam numa espécie de sopa coletiva psicopatológica. Tudo conduz à psicose. Mas nem mesmo a psicose expressa o Real.
A.M.
terça-feira, 9 de dezembro de 2025
segunda-feira, 8 de dezembro de 2025
domingo, 7 de dezembro de 2025
A anti-escuta - 3
Na sociedade moderna a Escuta vira anti-escuta. Ou pelo menos são cultivadas as condições sócio-políticas para isso.
Está no ar a velocidade dos fluxos de comunicação e informação. Como se o vento anunciasse tempestades. Ou se ele fosse a própria tempestade.
A linguagem do sistema do capital é composta de fluxos e não de significações prévias. Tudo se ajeita. Não importa que talvez você seja um analfabeto. As mensagens são feitas para isso, contam com isso.
Analfabetos, diz-se, no sentido da produção de uma realidade imagética que permeia os afetos e substitui a Terra finita por um infinito de lucro. Ó Marx!
A forma-pessoa é substituída pela forma-consumidor, mesmo e principalmente o que se consuma no próprio extermínio da alma.
Aldous Huxley disse tudo no " Admirável mundo novo" (1932). De lá para cá o aprofundamento do controle das massas e seu suicídio induzido.
Não há retorno do fascismo, do nazismo, da ultra-direita e de todas as expressões da pulsão de morte. Elas já estavam aí.
A anti-escuta avança como Tecnologia Científica com sua verdade religiosa. Hiroshima ainda não foi o pior.
A.M.
sábado, 6 de dezembro de 2025
O IMPASSE E A SAÍDA
Diante da impossibilidade de ser psiquiatra e da impossibilidade de não sê-lo (um zen-paradoxo) surgem linhas de risco, amorosidades nem sempre visíveis.Elas atravessam práticas clínicas: um devir-imperceptível, um devir-clandestino, um agente duplo operando no coração do sistema. A camuflagem torna-se uma função-guerreira. O pensamento sem imagem desloca-se a velocidades infinitas. Extrai da esquizofrenia o esquizo como eterno produtor de multiplicidades clínicas (qual o diagnóstico?) e errantes (qual o lugar?). Daí retorna ao estágio zero na busca do Encontro. Onde tudo recomeça.
A.M.
quinta-feira, 4 de dezembro de 2025
quarta-feira, 3 de dezembro de 2025
OUTRA POLÍTICA? ( 2 )
1-O sistema do capital, atualizado por máquinas técnico-científicas, estabeleceu um regime único de verdade: o indivíduo como entidade biológica versus o Estado e o Mercado.
2-Tudo passa, então, a girar em torno das condições de vida eternizadas pela ideia (poderosa) de progresso.
3- Uma outra política implicaria em ultrapassar a órbita do Estado-nação em favor de povos expressos em multiplicidades étnicas, culturais, políticas, indígenas, espirituais, cósmicas, etc.
4- O que seria a dimensão Coletiva na fabricação de novos modos de sentir, perceber e fazer a Realidade? Seria o fim do Império e de suas metástases nazi-fascistas.
5-Num projeto dessa ordem a Religião desapareceria em prol de experiências espirituais sem espírito. Só o corpo em potência.
6-Impossível?
A.M
CORPO
Pompas e pompas, pompas soberanas
Majestade serene da escultura
A chama da suprema formosura,
A opulência das púrpuras romanas.
As formas imortais, claras e ufanas,
Da graça grega, da beleza pura,
Resplendem na arcangélica brancura
Desse teu corpo de emoções profanas.
Cantam as infinitas nostalgias,
Os mistérios do Amor, melancolias,
Todo o perfume de eras apagadas...
E as águias da paixão, brancas, radiantes,
Voam, revoam, de asas palpitantes,
No esplendor do teu corpo arrebatadas!
Cruz e Sousa
terça-feira, 2 de dezembro de 2025
segunda-feira, 1 de dezembro de 2025
O ATO DE CRIAÇÃO
(...)
Qual é o conteúdo da filosofia?
Muito simples: a filosofia é uma disciplina tão criativa, tão
inventiva quanto qualquer outra disciplina, e ela consiste em criar ou
inventar conceitos. E os conceitos não existem prontos e acabados numa
espécie de céu em que aguardariam que uma filosofia os apanhasse. Os
conceitos, é preciso fabricá-los. É claro que os conceitos não se fabricam
assim, num piscar de olhos. Não nos dizemos, um belo dia: “Ei, vou
inventar um conceito!”, assim como um pintor não se diz: “Ei, vou pintar
um quadro!”, ou um cineasta: “Ei, vou fazer um filme!”.
É preciso que haja uma necessidade, tanto em filosofia quanto nas
outras áreas, do contrário não há nada. Um criador não é um ser que
trabalha pelo prazer. Um criador só faz aquilo de que tem absoluta
necessidade. Essa necessidade — que é uma coisa bastante complexa, caso
ela exista — faz com que um filósofo (aqui pelo menos eu sei do que ele se
ocupa) se proponha a inventar, a criar conceitos, e não a ocupar-se em
refletir, mesmo sobre o cinema.
Eu digo que faço filosofia, ou seja, que tento inventar conceitos. E
vocês que fazem cinema, o que vocês fazem?
(...)
Gilles Deleuze, palestra em 17/03 1987, na Fundação Européia dea Imagem e do Som
domingo, 30 de novembro de 2025
sábado, 29 de novembro de 2025
OUTRA POLÍTICA?
1-O sistema do capital, atualizado pelas máquinas técnico-científicas, estabeleceu um regime único de verdade: o indivíduo como entidade biológica versus o Estado e o Mercado.
2-Tudo passa a girar em torno dessas condições de vida eternizadas pela ideia (poderosa) de progresso.
3- Uma outra política implicaria em ultrapassar a órbita do Estado-nação em favor de povos expressos em multiplicidades étnicas, culturais, políticas, espirituais, cósmicas, etc.
4- A dimensão do Coletivo na fabricação incessante de modos de sentir, perceber e fazer a Realidade: seria o fim do Império e das suas metástases nazi-fascistas.
5-Num projeto dessa ordem a Religião desapareceria em prol de experiências espirituais sem espírito. Só o corpo em potência.
6-Muito difícil.
A.M
MÁSCARA
Passa o tempo da face
E o prazer de mostrá-la.
Vem o tempo do só,
A rua do desgosto,
O trilho interminável
Numa estrada sem casas.
O final do espetáculo,
A sala abandonada,
O palco desmantelado.
Do que foi uma face
Resta apenas a máscara,
O retrato, a verônica,
O fantasma do espelho,
O espantalho barbeado,
A face deslavada,
Mais sulcada, mais suja,
De beijada, cuspida,
Amarrotada
Como um jornal velho.
Máscara desbotada
De carnavais passados.
Esta é a nossa cara
Escaveirada.
Até que a terra
Com sua garra
Nos rasgue a máscara
Dante Milano
quinta-feira, 27 de novembro de 2025
quarta-feira, 26 de novembro de 2025
terça-feira, 25 de novembro de 2025
AQUARELA
Da minha infância
retiro as fotografias da família
no luto diário,
os olhos invisíveis
condenando curiosidades,
o baú de preciosidades
(e traças devassas),
trancadas a cadeado,
os sonhos desenfreados,
a mística do susto,
os flagrantes,
evitados a custo,
e por fim retiro
-me do porão
com tudo o que continha minha imaginação
delirante.
Fica a vida.
Que nem parecia importante
Leila Míccolis
domingo, 23 de novembro de 2025
A Voz da Loucura
Através dos estudos de Foucault, observamos que ao falar da loucura, ela foi deixada de fora. Ela permanece calada enquanto falamos em seu nome. O Réu não pode se pronunciar. Fazemos apenas uma fofoca da loucura e silenciamos em sua presença.
No fim das contas, o que vimos é que a loucura foi capturada. Suas forças foram engolidas pela razão, seu modo de funcionamento foi tomado, conquistado por outro.
A loucura é Dionísio que faz Platão tremer. A loucura é o movimento que resiste à dialética que tudo arrasta. Com Pinel e a psiquiatria, a loucura se tornou uma verdade menor, que deve ser abolida através de métodos de cura.
Tudo isso nos faz pensar que a loucura é como um estágio precoce da civilização, uma rebeldia dentro da totalidade ordenada. Afinal, só se torna louco aquele que abriga um conflito interno. E a saúde será organizar estes impulsos.
Por isso Foucault considera a Loucura como “Ausência de Obra”. Ela é o outro lado da sociedade, seu lado errante! A força centrífuga que desordena a força social centrípeta. Ela é a força anômala (sem nomos), o movimento do esquizo (rompimento/divisão), a potência de diferenciação (quebra da identidade). A loucura mostra que tudo aquilo que a civilização quer construir é falso, tem pés de barro.
A loucura é a negação da dialética, do progresso, da acumulação, da continuação. Ela é o questionamento de uma razão teleológica. Sim, e é exatamente por isso que Foucault se interessa pela loucura, por suas descontinuidades, suas possibilidades de pensar diferente.
Para dizer com os poetas, a loucura é um grande “Eu preferiria não”, é a recusa da obra, é a im-produção, é o processo de desacumulação.
(...)
Rafael Trindade, do site Razão Inadequada, acessado em 23/11/2025
sábado, 22 de novembro de 2025
quinta-feira, 20 de novembro de 2025
SOBRE O TEMPO
A questão da pesquisa do tempo é essencialmente filosófica. Deste modo o tempo é antes de tudo o que estabelece condições reais aos modos de existência (ou de subjetivação). É o tempo da duração (Bergson) e não o tempo espacializado, de onde a ciência retira critérios para uma vida regrada, normatizada, cronometrada. Ao contrário, se o tempo é criação ou não é nada, conforme H. Bergson disse, ele é puro afeto, intensidade, aquilo que não pode ser medido, exceto para a ordem social firmar seus valores, normas e limites. Num processo de terapia o modelo do tempo espacializado tende, sem que se note, a paralisar o desejo.
A.M.
quarta-feira, 19 de novembro de 2025
terça-feira, 18 de novembro de 2025
toda mulher é uma paisagem
a curva do sol nascente terra
invade as distâncias
viaja na linha das feiticeiras
onde o arco-íris lambe cores
na primeira hora da manhã
e o lusco-fusco dos segredos
surge na penumbra da sala.
quem é essa mulher que decora
o universo das estrelas sem dono
e desce à margem dos tesouros
escondidos entre cometas azuis
e cordilheiras sem precipícios.
quem me perturba as retinas
o êxtase de esperas tão lentas
com o beijo roçando as coxas
cor de seca maciez de algodão.
quem não é pode ser não existe
nada além do sorriso criança
antes que a madrugada finde
com o gosto dos seus líquidos.
é esta paisagem do tempo
que me move.
A.M
segunda-feira, 17 de novembro de 2025
2 - O QUE É ALMA?
domingo, 16 de novembro de 2025
sexta-feira, 14 de novembro de 2025
O QUE É O QUE É?
Respondendo a Miguel:
1- O QUE É CAPITALISMO?
O capitalismo é um sistema econômico, político, social e cultural. Sua origem remete ao século XIV e XV na Europa, "evoluindo" a uma forma industrial em meados do século XIX e no século XX, o chamado capitalismo financeiro. Em tempos atuais, ao colonizar e habitar a Terra, configura um sistema integrado (global) de dominação e constroe a "sua" realidade, mundo do capital como realidade natural. Para isso, mais que "econômico", ele produz subjetividades (almas) convertidas, seduzidas ao seu modo de produção da vida e da existência. A divisão de classes, o horror econômico, a busca insana pelo lucro, a competição individual, o consumo desenfreado, a ética de destruição da natureza, a ética do "cada um por si", o financiamento científico-industrial das guerras, enfim, "tudo está demente no sistema". É, pois, difícil combater o capitalismo, já que ele nos constitui como habitantes do planeta, servos do seu poder e clientes dos seus valores, serviços e projetos. Mas, será possível uma saída? Sim, claro. A História continua e o Tempo é irreversível.
A.M.
quarta-feira, 12 de novembro de 2025
terça-feira, 11 de novembro de 2025
TEMPO E VELOCIDADE
O Real tornou-se a realidade virtual. Trata-se de um processo social irreversível, assim como é o tempo. O encontro entre os corpos se faz em grande parte ( não há dados quantitativos) através a mediação da imagem. Isso se inscreve na experiência de si, mais sensível em crianças e adolescentes, mas também em adultos na recepção cerebral de estímulos ( fluxos) imagéticos. Eles vêm de todas as partes, anulando a separação interno/externo, subjetivo/objetivo, dentro/fora em prol de semiologias guiadas por equipamentos de poder. A Realidade virtual destituiu o corpo como potência inscrita no espaço-tempo dos encontros. Os fusos horários sucumbem â Hora da imagem descarnada e asséptica. Como no Admirável Mundo Novo (Huxley, 1932) todos parecem adorar esse circuito de velocidade e prazer.
A.M.
segunda-feira, 10 de novembro de 2025
domingo, 9 de novembro de 2025
Sobre o Império de Édipo
Foi Deleuze quem disse que, tal como a revolução russa, é difícil saber quando a psicanálise começou a dar errado. Dito isso, cabe a pergunta: quando a revolução psicanalítica se tornou um estandarte para bandeiras reacionárias? Não queremos com este texto “provar” que Édipo não existe, ele está aí, é fato, é servido do café da manhã até o jantar. Através disso, produzimos neuróticos como em uma linha de montagem.
Por isso, o objetivo é muito mais o de fazer um escracho de Édipo, encontrar as linhas de fuga que racham a máquina edípica e explodem o familismo, ou ao menos que escorrem pelo meio da máquina de moer subjetividades chamada complexo de édipo. Desta forma, talvez seja possível limpar o inconsciente deste vírus que o contamina. Retirar esta pedra angular (considerado pelo próprio Freud) da teoria psicanalítica é talvez ver suas estruturas desmoronarem e, quem sabe, se rearranjarem.
Fluxos gotejam, passam através do triângulo, separam-lhe os vértices”
– Deleuze e Guattari, O anti-Édipo, p. 94
Do site "Razão Inadequada", acessado em 09/11/2025
sábado, 8 de novembro de 2025
O ASSINALADO
Tu és o louco da imortal loucura;
O louco da loucura mais suprema.
A terra é sempre a tua negra algema,
Prende-te nela a extrema desventura.
Mas essa mesma algema de amargura,
Mas essa mesma desventura extrema;
Faz que tu'alma suplicando gema
E rebente em estrelas de ternura.
Tu és o poeta, o grande assinalado;
Que povoas o mundo despovoado
De belezas eternas, pouco á pouco.
Na natureza prodigiosa e rica,
Toda a audácia dos nervos justifica,
Os teus espasmos imortais de louco.
Cruz e Sousa
sexta-feira, 7 de novembro de 2025
O QUE É A MENTE? parte 2
1- Na clínica em psicopatologia (ou para além dela) é possível afirmar que o delírio vem do social. Atribuir ao cérebro a origem do delírio não só é um equívoco etiológico como também um pretexto para que a psiquiatria atual funcione como serva da máquina de poder disfarçada de ciência neurobiológica.
2- A linha (percurso) do delírio do social até a forma de expressão num discurso individual torna-se possível porque a mente é um sistema conceitual aberto; abarca múltiplas realidades, determinações que efetuam uma variação contínua e subjetiva (afetiva).
3-Desse modo, a pesquisa da mente é correlata à pesquisa do delírio; isso porque a questão da verdade está no centro da discussão; qual é a verdade? existe uma verdade única? a mente acredita em delírios?
4-Ora, a mente é o delírio do universo; exposta aos fluxos de signos de toda ordem ( sociais, pessoais, familiares, religiosos, éticos, políticos, históricos, espirituais, etc) a mente é ela própria delirante mesmo que não esteja a delirar; ou que não pareça delirar.
5-Observe: tudo pode estar nos trilhos (uma marcha militar impecável, operários numa linha reta de montagem, servos ajoelhados diante do um chefão impassivel, fiéis num grupo rezando etc) : a depender de uma visão de perspectiva, de uma análise de desejo, tudo isso poderá ser considerado delirante.
6-Eis pois a máquina social que nos dias atuais é a máquina do capital; ela codifica a experiência do universo em prol de um único sistema de valores econômicos e semióticos: o Deus-capital.
7-A linguagem é uma instituição muito antiga. Ela chega de fora e produz a mente; o cérebro não produz a linguagem: é o inverso; no entanto, ele é condição orgânica (biológica) para a expressão subjetiva: representa, replica, informa e comunica; mas não pensa.
8-O pensamento, composto de afetos recolhidos do universo, é um pathos ( sensibilidade), ato (veloz) de pensar, prática de corpo, fazedor de mundos, sentido de vida.
9-Só que é muito difícil pensar; normalmente se pensa que pensa; nada, nada, só uma pálida representação do real.
10- Isso porque a máquina do capital, aliada da ciência e da tecnologia (instituições de grande prestígio social), impede a mente de exercer a sua função de pensar: por isso a adoram.
A.M
terça-feira, 4 de novembro de 2025
CARGOS SECRETOS
O TSE (Tribunal Superior Eleitoral) inicia hoje o julgamento que pode levar à cassação do mandato e à inelegibilidade do governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), por um esquema de criação de cargos secretos no estado, revelado por uma série de reportagens do UOL.
Castro é acusado de abuso de poder político e econômico. Há outros 12 réus na ação, incluindo o presidente da Alerj (Assembleia Legislativa do Rio), Rodrigo Bacellar (União Brasil), e o então vice-governador Thiago Pampolha (MDB), que deixou o cargo em maio deste ano para assumir uma vaga de conselheiro do TCE (Tribunal de Contas do Estado).
(...)
Do UOl, acessado em 04/11/2025
segunda-feira, 3 de novembro de 2025
Subjetividade nazi - fascista à brasileira
Pensar a formação histórico-patriarcal brasileira inscrita na Realidade é condição para compreender a subjetividade (ou subjetivação) atual.
Subjetivar o mundo objetivo e objetivar linhas subjetivas. Isso se equivale. É que não existe o indivíduo com um ser isolado, autônomo.
Existem processos (linhas) existenciais com expressão prática sócio-desejante. Mil afetos.
Vêm da Itália ( 1922) e da Alemanha (1933) processos existenciais de base política que eram chamados de fascismo e nazismo.
Apesar do fascismo e do nazismo terem sido derrotados na segunda guerra, os sentimentos que eles evocam sobrevivem.
Com máscaras.
Tais sentimentos se abrigam na chamada direita ou mais precisamente na extrema direita. Mas ninguém, óbvio, quer ser chamado de fascista e/ou nazista.
Eles habitam a Cloaca brasileira: católicos, evangélicos, liberais, empresários, conservadores e outros menos votados.
A.M.
sábado, 1 de novembro de 2025
LINGUAGEM INGÊNUA
A escrita rizomática ( Deleuze/Guattari ) é uma escrita sem centro, sem tema fixo, sem razão e sem explicações a dar. É uma escrita em processo. Não busca reconhecimento e/ou salvação. Significa dizer que vive no tempo do inacabado e se alimenta de intensidades móveis. Por fim, que é o meio, recolhe fluxos de signos da ética e da política.
Isso a faz viver.
A.M.
sexta-feira, 31 de outubro de 2025
A carne é triste depois da felação
A carne é triste depois da felação
Depois do sessenta-e-nove a carne é triste.
É areia, o prazer? Não há mais nada
Após esse tremor? Só esperar
Outra convulsão, outro prazer
tão fundo na aparência mas tão raso
na eletricidade do minuto?
Já dilui o orgasmo na lembrança
E gosma
escorre lentamente de tua vida
Carlos Drummond de Andrade
quinta-feira, 30 de outubro de 2025
O que é psiquiatria? (1)
A psiquiatria é uma especialidade médica surgida na França em fins do século XVIII. Ai se dá a passagem (conforme Pinel) dos asilos aos manicômios.
No entanto, sua origem mais longínqua remete à existência de asilos no século VII (cultura árabe) e no século XVI (ocupação árabe na Espanha). Desde então passam a ser chamados de hospícios e se espalham pela Europa.
Sendo assim, a origem da psiquiatria se confunde com a origem dos asilos, dos hospícios e dos manicômios. Tudo se prepara para encolher as mentes.
A lógica dos asilos é o DNA da psiquiatria.
Já o século XIX, chamado século dos manicômios, dá origem aos hospitais psiquiátricos conforme o modelo atual.
São conhecidas as agressões e os horrores perpretados contra pacientes nos manicômios desse século e ao longo do século XX. Foucault descreveu com detalhes as torturas científicas.
No Brasil, entre outros horrores, o hospital psiquiátrico de Barbacena (1903 a 1990) é um registro histórico como modelo da barbárie consentida.
No período do estalinismo na União Soviética (1927/1957) presos políticos (quantos?) foram internados em hospitais psiquiátricos.
No período da ditadura brasileira (1964/1979) presos políticos (quantos?) foram internados em hospitais psiquiátricos.
A psiquiatria tem uma história pouco edificante.
No Brasil, veio a reforma psiquiátrica e a luta antimanicomial. Diferentemente, no campo da medicina nunca houve alguma reforma cardiológica, pneumológica, nefrológica, etc.
De fato, trata-se de uma especialidade que pede um método para além do biomédico.
A psiquiatria (psicopatologia) não dispõe de uma teoria dos afetos, apesar da extrema importância desse conceito para o trabalho clínico, ou seja, da gestação do vínculo com o paciente.
O paciente psiquiátrico muitas vezes não quer ser atendido pelo psiquiatra, sendo levado à força por familiares ou terceiros. Na clínica médica, não se tem notícia de tal recusa por vezes hostil e agressiva.
O objeto de pesquisa e intervenção clínica da psiquiatria é invisível, impalpável e abstrato. Chamado de “mente” , não há nada parecido em pesquisa médica. A mente não é o cérebro.
Nos hospitais psiquiátricos (ainda existem!) é muito comum pacientes fugirem. Por que fugiriam do tratamento? Em contraste, nos hospitais gerais (clínicos) isso não existe. Pelo menos, que se saiba.
A alta e a cura são dispositivos raros na psiquiatria clínica.
Sim, uma estranha especialidade essa.
A.M.
quarta-feira, 29 de outubro de 2025
Não, meu amigo, a realidade
partiu a corda,
e de forma alguma agradece
ser a nossa espada cotidiana
o bife mal passado
sobre a bomba aux champignons.
Fatigada fatigada
tão fatigada de nós todos!
Mesmo tu, meu amor,
a roda do universo,
tu que eu fiz de plumas e silêncio,
tu minha noite cintilante,
a realidade fatigou-se de ti.
Isabel Meyrelles
FASCISMO : VIVA A MORTE
A frase "Viva la Muerte!" ("Viva a Morte!") é um lema fascista que simboliza a ideologia de violência e o culto à morte inerentes a esse movimento. Não deve ser confundida com o fascismo como um conceito ideológico, que possui características mais amplas, mas a frase representa a sua face mais destrutiva. O fascismo é uma ideologia totalitária, ultranacionalista e antidemocrática que prega a violência, a supressão de opositores e a valorização do Estado acima do indivíduo.
Significado e origem da frase
A frase "Viva la Muerte!" se tornou notória durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), adotada pela Legião Espanhola, uma força militar nacionalista e fascista.
Ela encapsula a crença fascista de que a morte em combate é a maior honra e o destino final para purificar a nação de supostos inimigos e fraquezas.
Essa mentalidade reflete a glorificação da guerra, do sacrifício e do heroísmo que define a cultura política fascista.
Características do fascismo
Totalitarismo e autoritarismo: O fascismo promove um Estado totalitário, onde o poder se concentra em um líder supremo e único, que controla todos os aspectos da vida pública e privada dos cidadãos.
Ultraconservadorismo e ultranacionalismo: O fascismo se opõe a ideias modernas, como o Iluminismo, e prega um ultranacionalismo que exalta a suposta superioridade da nação. Propaga a noção de que a nação, seus valores e sua história são superiores aos de outros povos.
Violência e agressividade: O fascismo usa a violência como ferramenta política para calar opositores, intimidar minorias e manter o controle da sociedade. O lema "Viva la Muerte!" é a representação máxima dessa agressividade.
Antiliberalismo, anticomunismo e antissocialismo: O fascismo se opõe fortemente a ideologias de esquerda, como o comunismo e o socialismo, e rejeita o liberalismo político e econômico, priorizando a intervenção estatal.
Segregacionismo e racismo: Muitos movimentos fascistas promovem o ódio e a perseguição de grupos minoritários, como judeus, etnias e minorias sexuais, visando a suposta pureza da nação.
O fascismo como ameaça à democracia e aos direitos humanos.
A ideologia fascista representa uma ameaça direta à liberdade, à democracia e aos direitos humanos. A história dos regimes fascistas do século XX, incluindo o nazismo, é marcada por genocídios, guerras e atrocidades que resultaram na morte de milhões de pessoas.
Ao exaltar a morte e a violência como virtudes, a ideologia fascista promove uma cultura de terror e exclusão, contrária aos princípios de respeito, diversidade e igualdade de uma sociedade democrática.
Visão geral criada pela IA
A religião convenceu as pessoas de que existe um homem invisível morando no céu, que vê tudo que você faz, todo dia, a todo instante. E esse homem-invisível criou uma lista de 10 coisas que ele não quer que você faça. Se você fizer uma dessas 10 coisas, ele tem um lugar especial cheio de fogo, fumaça, ardor, tortura e angústia para onde ele te envia para sofrer e se queimar e se sufocar e gritar e chorar para todo o sempre até o fim dos tempos... mas ele te ama! Ele te ama e precisa de dinheiro!
George Carlin
terça-feira, 28 de outubro de 2025
A SOLIDÃO DO ESCREVER
Quando escrever é descobrir o interminável, o escritor que entra nessa região não se supera na direção do universal. Não caminha para um mundo mais seguro, mais belo, mais justificado, onde tudo se ordenaria segundo a claridade de um dia justo. Não descobre a bela linguagem que fala honrosamente para todos. O que fala nele é uma decorrência do fato de que de uma maneira ou de outra, já não é ele mesmo, já não é ninguém. O "Ele" que toma o lugar do "Eu", eis a solidão que sobrevêm ao escritor por intermédio da obra.
(...)
M. Blanchot - in O espaço literário




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