sábado, 13 de abril de 2013


NEUROMUNDO

Visões parciais, com consequências eventualmente funestas, estão presentes hoje numa parte muito considerável do pensamento contemporâneo sob a forma de aglutinações e rótulos do género (neuro)estética, (neuro)ética, (neuro)economia, (neuro)política, etc. É disso que trata Aping mankind: neuromania, darwinitis and the misrepresentation of humanity ( 2011) de Raymond Tallis. Tallis é sistemático, reflexivo, informadíssimo, impiedoso e profundamente irónico. As reações não se fizeram, como era óbvio, esperar. Entre elas, as de Patricia Churchland e de Daniel Dennett, dois dos filósofos acusados de padecerem dessas duas maleitas maiores do nosso tempo, a «neuromania» e a «darwinitis».
Uma das grandes objecções que podemos fazer a Tallis prende-se com o colapso numa leitura de contornos aparentemente dualistas que faz opor natureza a cultura ou matéria a consciência. Porém, a impressão com que se fica, após a leitura do livro, é a de que o dualismo é, ao longo do texto, um dualismo de circunstância. De alguma forma, o livro tem uma das suas fragilidades no estilo polemizador e ácido que adopta. Seja como for, é uma leitura muito recomendável nos tempos que correm. Revela-nos, afinal, a grandiloquência e a soberba de muita da ciência contemporânea que gravita à volta da neurociência (em particular, da neiroimagiologia) e da psicologia evolutiva. Ao contrário de muitos dos detratores que dizem que Tallis nada tem a propor, Aping mankind tem ainda o mérito de nos sugerir um caminho que poderá passar por propostas, de recorte fenomenológico, como sejam as de Alva Noë  ou de Michael Wheeler , ou por aquilo que se designa por «mente ampliada», de que o expoente é sem dúvida Andy Clark.

Luis Quintais

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