domingo, 14 de abril de 2013


PARADOXO DO TEMPO

Houve um tempo que não passou e passou. Nutre-se de paradoxos. Faz rir. O psiquiatra lembra  que não há mais tempo. A hora esgotou-se como seringa descartável. O tempo deixou de ser um espaço , mesmo que de dança. Não mais  que ontem,  o tempo-passagem embriaga e dissolve espaços. As palavras soam bobas. Situações  densas se quebram. Ele se desloca pelos campos verdes  do pensamento, aspira blocos de manhãs. Que ardem na pele dos seres que  ficam. Café da manhã  com  luz queimando os olhos. O dia se avizinha. Prontuários entre canções  de ninar.  Manhãs insistem.  Plantões voltam sempre, deitam no plantonista que se  esvai em sofrimentos deliciosos. É hora de dormir com a  manhã. Antes,  a insônia compunha os  insanos. O círculo da velha juventude  e a gargalhada  dos pacientes seguiu  os passos de um tempo a se fazer.  Agora. Nenhuma crença move o passado.  Não há falta.  Um corpo  muda e permanece na pele do sol que queima o filme de remédios na veia. Dois dois.  O psiquiatra trabalha  sem  saber de si. Os olhos da loucura  arregalam  a manhã para além dos muros. Ele sabe  que não sabe o instante seguinte, ou onde estará o companheiro Marx. Marx! Marx! Suas pesquisas incluem a dor de existir tão profunda quando a aparência dos que vivem das  batidas incertas do mundo. Alguma coisa empurra o humor não psiquiátrico para uma  alegria suspensa no ar. Sem garantias.  Companheiros de textos  constroem  em sua carne espiritual infinitos à  mão. Entre si olham  retinas ainda não cansadas pelos ardis da miséria. Uma máquina de fazer o cosmos  no mais rente ao  chão, se esboça. O psiquiatra fala do passado para construir  pedaços dispersos de memória vã.  Sem retorno.

A.M.

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