sábado, 13 de abril de 2013

QUEM DELIRA? (2)

Escutar um delírio: som musical que  pode ser terrível, ou não. Música embriaga  até    corações  enrijecidos. Não  busque fórmulas, protocolos, cifras. Saia de si. Pense  contra  si.  A forma-psiquiatria não tem dono. Ela  é  dona de  nós  cegos  no momento de desembrulhar um caso  difícil. Tratar  além   do feijão com arroz, tão  fácil, ainda  mais se o feijão com arroz for  fabricado em série. Instituir a contra-instituição sem binarismos não é fácil, sabemos. Chegar ao não-lugar da traição incessante. A coisa toda vem do século XIX. É uma fraude cuidadosamente preparada em laboratórios da alma. Todos acreditam. Todos deliram. Um dia, ele entra  no consultório  e  senta-se  na cadeira do paciente. Não  se trata  de uma “inversão de papéis” ao  jeito  do psicodrama. Isso seria  impossível e por  demais  humanístico. Trata-se da   desordem infiltrada no tecido da ordem asséptica. O psiquiatra é o paciente que resiste ao funcionamento linear da  entrevista. Pergunta se há consciência. Não há. Descobre  que o cérebro é uma instituição instituída desde a forma de falar sozinho. Ensaia solilóquios  fugidios. A essa  altura, se  rompem  identidades. Escutar  o delírio é olhar as vozes e  ouvir o tempo  que  não passa... e já passou. Trair é  inventar.

A.M.


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