SEM CONCESSÕES
(...)
Por uma razão qualquer, a compreensão de que nada havia a
esperar teve salutar efeito sobre mim. Durante semanas e meses,
durante, na realidade, toda minha vida, eu vinha esperando que
acontecesse algo, algum fato extrínseco que alterasse minha vida; e
agora, de repente, inspirado pela absoluta desesperança de tudo,
sentia-me aliviado, sentia como se tivessem arrancado um grande peso
de meus ombros. Ao amanhecer, separei-me do jovem hindu, depois de
lhe ter tomado alguns francos, o suficiente para um quarto.
Caminhando em direção a Montparnasse, decidi deixar-me arrastar
pela maré, não opor a menor resistência ao destino, fosse qual fosse a
forma sob a qual se apresentasse. Nada do que me acontecera até então
fora suficiente para destruir-me; nada fora destruído, exceto minhas
ilusões. Eu mesmo estava intacto.
O mundo estava intacto. Amanhã talvez houvesse uma
revolução, uma epidemia, um terremoto; amanhã talvez não restasse
uma única alma a quem se pudesse recorrer para obter simpatia,
auxílio, fé. Pareceu-me que a grande calamidade já se manifestara, que
eu não poderia ficar mais verdadeiramente sozinho do que naquele
próprio momento.
Decidi que não me apegaria a nada, que não esperaria nada, que
a partir de então viveria como um animal, como uma fera carnívora, um
nômade, um rapinante. Mesmo que declarassem a guerra e fosse meu
destino partir, eu agarraria a baioneta e a enterraria, a enterraria até o
punho. E se o estupro for a ordem do dia, então estuprarei, e com uma
vingança. Nesse próprio momento, no quieto alvorecer de um novo dia,
não estava a terra tonta com crime e miséria?
Algum único elemento da natureza do homem teria sido
alterado, vitalmente, fundamentalmente alterado, pela incessante
marcha da história? Pelo que ele chama de melhor parte de sua
natureza, o homem foi traído, só isso. Nos extremos limites de seu ser
espiritual o homem se encontra de novo nu como um selvagem. Quando
encontra Deus, por assim dizer, ele está bem arrumado: é um
esqueleto. A gente precisa afundar-se de novo na vida a fim de ganhar
carne. O verbo precisa fazer-se carne; a alma tem sede. Qualquer
migalha em que meus olhos pousem, agarrarei e devorarei. Se viver é a
coisa suprema, então viverei, mesmo que precise tornar-me canibal. Até
agora eu vinha tentando salvar meu precioso couro, preservar os
poucos pedaços de carne que escondem meus ossos. Estou cheio disso.
Atingi os limites da resistência. Minhas costas estão contra a parede;
não posso recuar mais. No que tange à história, estou morto. Se existe
algo além terei de saltar para trás. Encontrei Deus, mas ele é
insuficiente. Só espiritualmente é que estou morto. Fisicamente estou
vivo. Moralmente estou livre. O mundo que abandonei é uma jaula. A
aurora está nascendo sobre um mundo novo, um mundo de selva no
qual os espíritos descarnados rondam com garras afiadas. Se sou uma
hiena, sou uma hiena descarnada e faminta: avanço para engordar-me.
(...)
Henry Miller in Trópico de Câncer
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