quinta-feira, 20 de julho de 2017

CAPITALISMO E ESQUIZOFRENIA - 2

Todo delírio é composto por crenças, ou melhor, por um sistema de crenças.Isso é fácil de verificar na observação psicopatológica e até mesmo fora dela, mas com implicações na própria clínica. Uma crença diz respeito à verdade e por extensão à realidade. O senso comum da psiquiatria costuma dizer que o esquizofrênico está fora da realidade. Mas, de que realidade se trata? E o que é a Realidade? É o que vem de fora, o que chega do mundo, ou seja: o próprio mundo. Subjetivo e objetivo, mundo interno e mundo externo, são apenas categorias marcada pelo selo do pensamento idealista. O mundo atual-real é o mundo capitalístico planetário regido por axiomas em torno do valor-dinheiro. Tais axiomas (verdades "verdadeiras" por si mesmas) fabricam o tecido da subjetividade, os afetos. Desse modo, não podemos considerar a vivência delirante como um simples "sintoma" ao modo biomédico de pensar, mas como uma vivência constitutiva do modo de viver burguês. Assim, para ser possível encontrar o paciente, o delírio deve ser conectado às circunstâncias sócio-institucionais em que vive o delirante. No século XIX a forma-psiquiatria criou a entidade clínica esquizofrenia (chamada então de demência precoce), codificando a loucura com um rosto de identidade para outra identidade, a própria psiquiatria. Mas a incessante produção-consumo material e semiótica promovida cada vez mais pelo capital em escala internacional dissolveu os códigos e territórios existenciais, e fez do indivíduo moderno um "esquizofrênico normal". É que o eu funciona conforme os mil fluxos de informações, comunicações, virtualidades, imagens, mídias, notícias, narrativas, etc... Máquinas sociais gigantescas ou micromáquinas via on-line operam na intimidade psíquica a produção do sentido. Este passou a ser um universo delirante, não como doença orgânica, mas como entidade psicossocial encarnada na pessoa, paroxismo do humanismo cristão. Produção-consumo de felicidade.A realidade ela mesma tornou-se delirante para que possa continuar existindo, funcionando e modelizando as condutas. Basta considerar o espectro da ação subjetiva do capital financeiro e suas implicações abstratas na vida concreta das pessoas. Portanto, temos a equação 1) capitalismo=desejo submetido às mais loucas abstrações, colapso do eu e da consciência e 2) esquizofrenia=desejo submetido à forma-psiquiatria operando na clínica do eu dividido, cindido: "ele perdeu o juizo". Se levarmos, se acelerarmos tais proposições em direção aos fluxos do desejo enquanto processo não capitalístico, não esquizofrênico, mas como devir, muda a perspectiva da clínica em saúde mental e muda a perspectiva da ação política. O devir como delírio não medicalizado passa a afrontar a organização do tempo instituído da consciência. Entramos no terreno das intensidades da arte e da poesia. Daí, a inferência óbvia: tudo muda porque tudo flui, inclusive e principalmente a Realidade.

A.M.

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