MISTÉRIO DOS SIGNOS
(...) O segundo círculo é o do amor. O encontro
Charlus-Jupien leva o leitor a assistir à mais
prodigiosa troca de signos. Apaixonar-se
é individualizar alguém pelos signos que traz consigo ou emite. É tornar-se sensível a
esses signos, aprendê-los (como a lenta
individualização de Albertina no grupo das jovens). É possível que a amizade
se nutra de observação e de conversa, mas
o amor nasce e se alimenta de interpretação silenciosa. O ser amado aparece
como um signo, uma "alma": exprime um mundo possível, desconhecido de
nós. O amado implica, envolve, aprisiona um mundo,
que é preciso decifrar, isto é, interpretar. Trata-se mesmo de uma pluralidade
de mundos; o pluralismo do amor não diz respeito apenas à multiplicidade dos seres
amados, mas também à multiplicidade das almas ou dos mundos contidos em cada
um deles. Amar é procurar explicar, desenvolver esses mundos desconhecidos que permanecem envolvidos no
amado. É por essa razão que é tão comum nos apaixonarmos por
mulheres que não são do nosso "mundo", nem mesmo do nosso tipo. Por isso, também as mulheres
amadas estão muitas vezes ligadas a paisagens que
conhecemos tanto a ponto de desejarmos vê-las
refletidas nos olhos de uma mulher, mas que se refletem, então, de um
ponto de vista tão misterioso que constituem para nós como que países
inacessíveis, desconhecidos.
(...)
G. Deleuze in Proust e os signos
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