A TECNOLOGIA E A COLORAÇÃO FASCISTA
(...)
São as mesmas máquinas, mas não
é o mesmo regime. Não que seja preciso opor ao regime atual, que
dobra a tecnologia em prol de uma economia e de uma política de
opressão, um regime em que a tecnologia, supostamente, estaria
liberta e seria libertadora. A tecnologia supõe máquinas sociais e
máquinas desejantes, umas dentro das outras, e não tem por si
mesma poder algum para decidir qual será a instância maquínica,
se o desejo ou a opressão do desejo. Toda vez que a tecnologia
pretende agir por si própria, ela toma uma coloração fascista, como
na tecnoestrutura, porque implica investimentos não só econômicos
e políticos, mas igualmente libidinais, totalmente voltados
para a opressão do desejo. A distinção dos dois regimes, como o
do antidesejo e o do desejo, não se reduz à distinção da coletividade
e do indivíduo, mas a dois tipos de organização de massa, em
que o indivíduo e o coletivo não entram na mesma relação. Há
entre eles a mesma diferença que entre o macrofísico e o microfísico
— considerando que a instância microfísica não é o elétron-má-
quina mas o desejo maquinizante molecular, assim como a instância
macrofísica não é o objeto técnico molar, mas a estrutura social
molarizante antidesejante, antiprodutora, que condiciona atualmente
o uso, o controle [481] e a posse dos objetos técnicos. No
atual regime das nossas sociedades, a máquina desejante só é suportada
como perversa, isto é, à margem do uso sério das máquinas,
e como inconfessável benefício secundário dos usuários, dos
produtores ou antiprodutores (gozo sexual que um juiz tem ao
julgar, que um burocrata tem ao acariciar os seus dossiês...). Mas
o regime da máquina desejante não é uma perversão generalizada;
é sobretudo o contrário disso: é uma esquizofrenia geral e produtora,
devinda finalmente feliz. Porque, da máquina desejante, é
preciso dizer o que diz Jean Tinguely: a truly joyous machine, by
joyous I mean free. (NT)
(...)
G. Deleuze e F. Guattari, in O anti-édipo
(NT) - "Uma máquina verdadeiramente alegre, e por alegre, eu quero dizer livre."
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