domingo, 2 de dezembro de 2018

A DIFERENÇA NA CLÍNICA

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A  análise dos afetos e dos sistemas de crenças substitui o insípido exame mental. Começa  pelo corpo em ação, mesmo que este esteja imóvel. Linhas do corpo não são as do  organismo  físico-químico.Os afetos se traduzem em movimentos às vezes imperceptíveis.Preenchem outro  corpo, o corpo das intensidades. Os olhos. O paciente é olhado nos olhos. Eles revelam algo do nível  da consciência naquele momento. Ora, o nível da consciência está em contínua mudança, mesmo que tal  fato não  seja  percebido. E geralmente não é, exceto  em situações clínicas “grosseiras” como nos quadros orgânico-cerebrais.A consciência está sujeita à flutuações. Estas escapam à visão do médico. A análise da consciência é atravessada pelos afetos e suas  expressões. O  corpo,  enquanto  sujeito e objeto  do pragmatismo  social,  se  apresenta de  imediato. “Ele está pragmático?”, pergunta  nem sempre  formulada, mas sempre pensada. No  cara a cara  psiquiatra-paciente, a  questão  básica é a  do  poder. Esse dado, tão  discutido por Foucault, tem na proposta de uma clínica  da diferença, o  valor da realidade fabricada  pela  psiquiatria.  Portanto,  relativa,   e  sobre   a qual  é  preciso  se  insurgir, pois  o  paciente  de  fato  necessita   de ajuda  ou  pelo menos  algo  deve  ser  feito em  prol  da vida. O Encontro  é  uma  sensibilidade não codificada  em manuais de  psiquiatria. Nada  temos  a  propor  senão  liames anormais de vida.A hora do tempo a-temporal se afirma.Um paradoxo.É a temporalidade como matéria irreversível, devir. Esta é a base existencial para se pensar o paciente  como um agenciamento  de forças,  estranho  encontro regido pelo  acaso, mas do qual não há como escapar. O  paciente traduz  um  certo  comportamento. Sob  um  olhar-clichê,  ele  se  constitui  como  comportamento  preso  num regime  de visibilidade. Não mais. Daí a  rigidez do exame  mental clássico  ceder a  uma percepção fina  construida na  prática  com  o outro. Apesar  de  reconhecer a importância da fenomenologia,  aqui  não se trata  dela. Tampouco  se  trata de um espiritualismo travestido de clínica. Buscamos construir um plano não  hierarquizado. As relações de poder compõem esse  plano junto a outras relações num continuum empírico  sem forma. Tudo  se passa num  lugar  sem  lugar. Ao  seguir a  trilha   do  inconsciente produtivo em suas expressões  à  luz  do  dia,  o percurso  da  diferença se  defronta com  o ato  de criar.  Ou  seja,  trata-se  de  algo  que  (ainda)  não  existe. Na  verdade,  o ato  de  criar é o  ato  de diferenciar-se.   O formato da  clínica não é o  do psiquiatra atrás de uma mesa defronte  ao  paciente.  Pode ser  qualquer coisa, até mesmo a tradicional,  desde  que  torcida e transformada.  O que  muda neste caso é  a sua  atitude e  o  rearranjo dos  elementos vivenciados pelo  paciente. Este não é um nome, mas uma vida, cerne da ética. A “garimpagem” dos signos-sintomas acontece no fluir da conversa. Uma atitude empática do psiquiatra amplia-se...Isto implica  na  construção de um campo perceptivo  que não se restringe  à  pessoa, mas ao que  a  precede e lhe determina: o universo. A diferença não é uma coisa, mesmo a coisa  “valiosa” na visão  humanista. A diferença torna-se. Ela é processo afirmativo inscrito nas  ações do paciente, mesmo que  sejam  inadequadas e  bizarras. É um grito. Ora, um psiquiatra biológico, em geral,  quer calar ou  afastar o grito. Então, o método, para driblar e ao mesmo  tempo usar os  fármacos,  é outro, trilha  desconhecida a explorar. Neste sentido, o percurso do tratamento é incerto. As garantias técnicas se dissolvem. A clínica tradicional desabituou-se a encarar o vazio como resposta aos problemas ditos mentais. Voltamos à perda das referências pontuais e à subjetividade não individuada em papéis demarcados.Quem é o paciente? Quem é o psiquiatra?  A partir de vivências múltiplas, o paciente talvez  não queira ser  normal, mas diferente. Não há o ser-paciente. Não há o ser-psiquiatra. 
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A.M. in Trair a Psiquiatria

Um comentário:

  1. "(...)O formato da clínica não é o do psiquiatra atrás de uma mesa defronte ao paciente. Pode ser qualquer coisa, até mesmo a tradicional, desde que torcida e transformada. (...). Saudades de elogiar os seus textos! esse elogio cabe também as suas demais concepções da clínica que permite o diferente se expressar..., ñ é qualquer um que ao menos enxerga..., e, nem existe "tempo" pra isso, pra ao menos uma tentativa duma expressão, quer seja ela bizarra..., e, já que fica "meio exagerado" elogiar cada um dos seus textos, um por um, tomando o seu precioso tempo..., então esse meu elogio caberá pra todos eles! Vida longa pra você!

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