quarta-feira, 9 de agosto de 2017

CAPS: BASES DA CLÍNICA PSICOPATOLÓGICA

De início, pode-se identificar (entre outras) duas dificuldades que condicionam o funcionamento de um Caps. Ambas se ligam à realidade fora do Caps. Sem ordem de importância, a primeira está acoplada à Rede de Atenção Básica, a segunda ao perfil clínico de um paciente do Caps. Elas estão ligadas entre si, consumando-se na composição dos usuários e no projeto terapêutico singular (PTS). Estão dentro e fora como duas realidades numa só: a Clínica.  Se esta vem de fora, o Caps é uma realidade voltada para fora. Mas se esse "fora" está "dentro", é possível tornar o “fora” a própria realidade. Então, do que se trata, concretamente, dizer que “ o Caps é o próprio fora?" Significa dizer que o “fora” é o real, o real-concreto,o real-social, o mundo em seu fluir incessante configurando a clínica – o Encontro - como superfície (multiplicidade) de práticas voltadas à produtividade e autonomia do paciente. Trabalhar nessa ótica implica num compromisso ético do técnico em saúde mental. Sendo assim, não se trata de atender o paciente ao modo mecanicista (consertar um organismo) mas de fazer produzir linhas de diferenciação existencial, ainda que sob as condições mais adversas. É que a semiótica da loucura (dissolução dos códigos estáveis, fim de mundo, apocalipse...) incomoda aos serviçais do senso comum e do bom senso, esteios subjetivos da Ordem Estabelecida. Ela foge do lugar da consciência normativa. O trabalho com o paciente está, pois, para além do paciente e ao mesmo tempo é o paciente como o Outro-em-nós colocado como linha de risco, risco de enlouquecer. Quem sou? Que fazer? Estamos diante dos perigos constitutivos da clínica e do serviço no qual ela se instala e se produz. Talvez seja possível apenas começar a pensar como: 1- evitar  o reducionismo tosco da visão biomédica, não usando a CID-10, as imagens do cérebro e os psicofármacos como únicos (ou principais) promotores de saúde mental; 2- evitar os princípios morais da racionalidade, do eu e da consciência na avaliação clínico-psicopatológica; 3- não usar as relações de poder inscritas no contato com o paciente como a forma pura da técnica, poder que remete ao item 1; 4- não considerar o paciente duma perspectiva estritamente individual, pessoal, egóica, devendo-se incluir na etiologia os vetores sociopolíticos, econômicos, culturais, institucionais, familiares, espirituais, etc, que atuam e produzem modos de subjetivação; 5- Não “sentir pena” do paciente, mesmo quanto aos mais graves, humilhados e destruídos, livrando a prática clínica da aura de um humanismo salvacionista e esgotado.


A.M.

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