sexta-feira, 4 de agosto de 2017

VAI PIORAR?

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A clivagem entre os que podem muito e os que podem muito pouco se expressa na própria natureza deste mandato-tampão, prole monstruosa das bodas entre uma classe política disposta a tudo para escapar à justiça e uma classe empresarial interessada numa oportunidade única para fazer passar reformas que dificilmente seriam aprovadas pelas urnas. E embora ninguém duvide que a crise exige reformas, as pesquisas sugerem que maioria da população suspeita que aquelas que estão sendo feitas são “inevitáveis” apenas no contexto de uma escolha prévia, perfeitamente evitável, tomada a nossa revelia: que o custo da crise seja pago não por quem mais tem (e se beneficiou da farra de isenções que descarrilou a economia), mas pelos mais pobres e pela classe média.

Eis a contradição principal, portanto, que a polarização entre antipetismo e lulismo obscurece. Do lado do antipetismo, porque este entorpecente poderoso é capaz de fazer com que parte da classe média se identifique com interesses que não são seus e prefira ser prejudicada a apoiar medidas redistributivas que entende serem “de esquerda”. Do lado do lulismo, porque este também é um significante cada vez mais vazio. Na ausência das condições econômicas e políticas que o tornaram possível há uma década atrás, ele prefere velhos simbolismos à realidade presente, insiste em fingir que a crise de representação iniciou-se com o impeachment, interdita qualquer discussão de programa futuro ou erros passados e tudo reduz a uma única e duvidosa aposta: carta branca a um candidato que talvez sequer seja elegível para que ele vá e negocie uma solução mágica.
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Rodrigo Nunes, El País, 23/07/2017, 18:07 hs

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