terça-feira, 9 de abril de 2013

DA FILOSOFIA TRÁGICA

(...)A história da filosofia ocidental abre-se por uma constatação de luto: a desaparição das noções de acaso, de desordem, de caos. Disso é testemunha a palavra de Anaxágora: "No começo era o caos; depois vem a inteligência, que arruma tudo". [...] Todos aqueles para os quais a expressão "tarefa filosófica" tem um sentido - quer dizer, quase todos os filósofos - concordarão com efeito em pensar que essa tarefa tem por objeto próprio a revelação de uma certa ordem. [...] O exercício da filosofia recobre uma tarefa séria e tranquilizadora: um ato simultaneamente construtor e salvador. [...] Opostamente e à margem dessa filosofia, houve, de quando em quando, pensadores que se determinaram uma tarefa exatamente inversa. Filósofos trágicos, cujo alvo era dissolver a ordem aparente para reencontrar o caos enterrado por Anaxágoras; por outro lado, dissipar a ideia de toda felicidade virtual para afirmar a desgraça. [...] A filosofia torna-se assim um ato destruidor e catastrófico. [...] Assim apareceram sucessivamente no horizonte da cultura ocidental pensadores como os Sofistas, como Lucrécio, Montaigne, Pascal ou Nietzsche - e outros. Pensadores terroristas e lógicos do pior. [...] O que há de comum aos Sofistas, a Lucrécio, a Pascal e a Nietzsche, é que o discurso segundo o pior é reconhecido de saída como o discurso necessário.
(...)
Clément Rosset, do livro Lógica do pior

3 comentários:

  1. Repórter (referindo-se à recepção do técnico Joel Santana pela Torcida do Bahia): "Joel, o Sr. não acha que alguém pode ter ficado magoado por você ter ido para o Flamengo no meio do Campeonato Baiano?"

    Resposta brilhante do Joel: "Isso não é nada demais, cara. Não significa TRAIR o clube. TRAIDORES são os caras que VÃO PRAÍ e NÃO FAZEM ABSOLUTAMENTE NADA pelo clube, ficam 10 anos sem ganhar um título sequer. Esse, sim, são maus profissionais. Já saí cinco vezes do Flamengo e voltei. Cinco vezes do Vasco e voltei. O mesmo aconteceu no Fluminense e no Botafogo. E TODAS AS TORCIDAS ME AMAM. A torcida do Bahia sempre me recebe bem. Não será diferente dessa vez."

    Moral da história: Não é preciso do Deleuze para perceber a lógica do Trair. O próprio cotidiano popular e anti-acadêmico traz saídas que, alguém letrado e acadêmico, poderá intitular "deleuzianas". Portanto, a palavra "Trair" não significa um preceito moral. Ninguém está aqui a manifestar qualquer repúdio por condenar outrem a determinada atitude. A questão não é a dinâmica da mudança, e sim a potência da mudança. Quando se fala, pois, unilateralmente, em ressentimento, muitas vezes está em jogo um mecanismo de defesa do ego, que não verifica a despotencialização vital dos seus próprios comportamentos. Ninguém ao seu redor relincha. Muitas atitudes errantes, tais como TRAIR, podem ser justificadas, justificáveis ou justificantes, como, no caso do Joel, os títulos. No caso da Psiquiatria, qualquer outra coisa, menos Psiquiatria.

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  2. A expressão "qualquer coisa, menos Psiquiatria" não é contrária à Psiquiatria, nem a substancializa, nem afirma que o Psiquiatra é desnecessário, tampouco a torna "menor" ou "molar"; pois, o problema - viva Bergson! - proposto não é a utilidade ou inutilidade da Psiquiatria, a visão de Direita ou de Esquerda em Psiquiatria, ou a Antipsiquiatria em si mesma. Aqui, não se demoniza o psiquiatra, como se age dentro do mecanismo de defesa do ego. Aqui, está proposta a ratificação do verdadeiro problema: TRAIR A PSIQUIATRIA. TRAIR A PSIQUIATRIA é ser um "Raudnei delirante", ao invés de passar remédio. Isso não significa a ausência de prestação de atendimento, entende? Porque não é isso que está em jogo. Mas, quando se diz TRAIR A PSIQUIATRIA, banque. TRAIR A PSIQUIATRIA, definitivamente, não passa pelo deslinde da Psiquiatria nesses parâmetros dos falsos problemas, os quais são seguidos veementemente, e que não suportam a crítica, em função de uma crise existencial não explícita, tamponada pelos mecanismos de defesa do ego.

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  3. A confusão toda proposta é colocada em função de seguir a Psiquiatria. E isso pode ser feito de variadas formas. Não é preciso ser "psiquiatrão" para seguir a Psiquiatria. Do contrário, TRAIR A PSIQUIATRIA é que é o problema, um problema que não se iguala às relações de paridade, aos dualismos propostos pelo ego para se valer de contradições e escapar do problema, valendo-se de conformismos. TRAIR A PSIQUIATRIA é um problema inalcançado a se alcançar. Se assim fosse, humildemente visto, as relações que se afirmam deterioradas não estariam deterioradas, as críticas, não seriam ameaças, os ressentimentos não seriam alvo de afirmação cordial da discórdia, e a clínica da diferença não seria tão indiferente.

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