domingo, 7 de fevereiro de 2016

A  DOENÇA  DO  PODER

Usando Elias Canneti do livro “Massa e Poder”, 1960, é possível identificar a “doença” do poder: a paranóia. Há sempre, de fato, na medida e no fulcro das correlações de forças (aumento e queda), uma circulação da desconfiança a priori, um incentivo ao medo, à fobia, uma expectativa angustiante, um pânico frente à desordem, enfim, a grande suspeita contida numa peça sem autoria e, daí, sem sujeito. Quem é o poder? O inominável a serviço de Nomes Próprios. A paranóia não é, pois, individual, mas coletiva, ainda que surja em alguém isolado. Há regimes significantes eternizados como suplícios dos dominados frente aos dominantes, senhores do mundo. Teorias da conspiração... aos montes. Esta parece ser a regra que a história timbrou, ou simula que. Pode ser o rei, o presidente, o príncipe, o chefe de estado, o governador, o juiz, o prefeito, figuras de autoridade, poderosos de vários matizes... O que importa é que eles se inserem em modos de subjetivação como verdades dadas e contabilizadas. A depender dos rumos da política,  qualquer um pode ser qualquer um, todos são todos, desde que o poder funcione como maquinaria produtora  de um gosto por viver (ganhar muito dinheiro, enganar, trapacear,mentir, influenciar pessoas, matar, mandar matar, roubar, etc) e que se nutra de linhas institucionais duras mas submetidas a verdades flácidas. Como solo movediço, desconfia-se de todos e vice-versa; instala-se o clima necessário a dizer e sentir “eu posso tudo”. “Aguirre, a Cólera dos Deuses”, 1972, o filme de W.Herzog, ilustra bem o liame poder-paranóia como delírio da natureza, do cosmos e do infinito: a sequência final é emblemática! Assim, é possível extrair da psiquiatria o sistema da paranóia como lógica persecutória que funciona no território instável dos afetos políticos. O poder produz isso, alimenta-se de mil produções subjetivas, delira. Não por acaso, muitos pacientes trazem temas políticos, públicos, para os seus delírios ("eu sou Hitler"). A contrapartida à vivência persecutória seria, pois, a traição à ordem instituída como expressão nova de sentir a passagem do tempo que não volta: a irreversibilidade. Mas essa é outra história... ligada à revolução e aos revolucionários...


A.M.

P.S. - versão revista e modificada.

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