ESQUIZOPRÁTICAS
Vinicius Lemos Reis: O que o(s) corpo
(s) dos louco(s) (em uma concepção
ampla de loucura e quadros nosológicos
dispostos para a saúde mental, e não
somente, os indivíduos classificados
como psicóticos) enunciam? E dizem
sobre si?
Antonio Moura: Os corpos loucos dizem
não dizendo (conforme a razão), pois expressam
singularizações existenciais inclassificáveis.
Fiquei sabendo com Foucault
que a loucura foi transformada e cadastrada
como Doença no século XIX. Daí talvez
se possa inferir que hoje a psiquiatria
precisa mais do doente que o contrário. O
que os corpos enunciam são os gritos do
desejo agenciado nas circunstâncias da
vida social. Neste sentido, a prática clínica
em saúde mental só terá acesso a esses
corpos na medida em que encarne em si
mesmo a experiência do sem-sentido.
Questão prática: sob tais condições, o
Encontro com o paciente passa a ser o
encontro do técnico consigo mesmo, com
o corpo das intensidades que vêm de fora,
que chegam do Fora, entendendo esse
fora como o Coletivo em seus fluxos desejantes,
indeterminados e sempre atuais.
Ora pois, o desejo está no mundo, o desejo
é o Mundo, mesmo que se acredite em
outro mundo ou que se professe transcendências
astutas e melancólicas.Tais
assertivas podem parecer abstratas, mas
creio que ainda não são suficientemente
abstratas, pelo menos para fazer uma
psiquiatria cujo modelo de intervenção
prático seja a esquizofrenia, não como
entidade clínica (que aliás, não existe)
mas como processo desejante irreversíível, ou seja, um devir.
Extraído de entrevista em "O corpo" - Jornal de Popularização Científica, Ed. nº 50 - Labedisco, Uesb, Vitória da Conquista, novembro/2015.
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