sábado, 23 de junho de 2018

A SELEÇÃO DOS HOMENS DE BEM

No gol, com toda a elasticidade moral e verbal para defender, simultaneamente, seus benefícios além do teto e o combate à corrupção, o juiz do auxílio-moradia; na defesa, contra o desarme do atacante de bem, Jair Bolsonaro, que receita porrada para filho gay, desencoraja estupro de mulher feia e não tem a menor ideia do que fazer com a bola no pé; a seu lado vem Datena, que, inspirado na guru Sheherazade, abraça a legítima defesa coletiva (nem que seja para espancar e prender pelo pescoço adolescente negro suspeito); fechando a zaga, o anônimo de bem, oriundo do povo de bem, sempre pronto para obedecer a qualquer orientação de seus parceiros de área.

Ajudando a defesa, dois volantes recuados: Alexandre Frota, um dos atletas com maior versatilidade profissional da equipe, adepto do vale-tudo, contra a pedofilia e a nudez no futebol-arte; e Oscar Maroni, contra a corrupção das menores no esporte, que ganhou lugar no time apenas porque, apesar da falta de charme e traquejo, ofereceu aos companheiros vale vitalício no clube Bahamas. Articulam-se com dois meias de ligação mais assertivos: Celso Russomanno, responsável pela negociação entre o ataque e a defesa e por assegurar que tudo esteja bom para ambas as partes; e Fernando Holiday, que desburocratiza o meio de campo, vigia a doutrinação ideológica do adversário e dá fôlego e jovialidade ao time.

No ataque, para berrar a voz gospel histriônica no ouvido dos zagueiros adversários e questionar a ditadura do futebolisticamente correto, Magno Malta, Silas Malafaia e Marco Feliciano, trio que promete destronar Satanás, proteger a família e os respectivos órgãos excretores contra qualquer investida mal-intencionada por trás, desde que bem pagos pelo cartão de crédito de fiéis torcedores. Todos têm seus esqueletos no armário, mas negam, em nome da palavra de Deus, qualquer irregularidade.

O time conta com a orientação do técnico Marcelo Crivella, contrário ao samba no pé e ao carnaval de vestiário, chamado às pressas para dar uma pintada na fachada do time, que “estava muito feinha”. Seu objetivo cosmético é evitar que “o cidadão de bem sinta vergonha de ser brasileiro”. Tem um enorme banco de reservas a sua disposição.

O homem de bem é o personagem mais popular da agressividade brasileira contemporânea.

A expressão é sedutora e comporta duas interpretações. A primeira ecoa uma tradição valiosa da filosofia política, que elaborou o ideal republicano de “bom cidadão” à luz das virtudes cívicas que este deveria cultivar e praticar no espaço público. As democracias precisam, de fato, de bons cidadãos: aqueles que, no espírito horizontal e igualitário, participam das decisões coletivas, valorizam laços comunitários para além dos laços afetivos e entendem que existe algo chamado interesse público, que não se confunde com a soma de interesses individuais. O bom cidadão não se autoproclama bom cidadão, porque sabe que suas eventuais virtudes não o tornam infalível nem merecedor de tratamento privilegiado. Sabe que tratar qualquer cidadão como um igual é condição de sua própria dignidade.

A segunda interpretação é diversa. Usa a ideia de “homem de bem” com o propósito de diferenciar-se do outro, estabelecer uma hierarquia de status e a partir de então justificar que ao outro seja aplicado um conjunto de regras particular. O outro não comete apenas um ato ilícito eventual, como o homem de bem; tem identidade inferior e, portanto, não merece o mesmo regime político e jurídico. Por narcisismo ou cinismo, o apelo à retórica tribal do homem de bem serve sempre como licença para atacar e vingar-se de um outro que lhe desagrada. É o motor da exclusão, da discriminação e da violência. “Animais degenerados” não estão à altura dos “humanos direitos” e por isso podem ser abatidos.

A primeira interpretação tem sentido moral. A segunda é moralista e descreve perfeitamente a seleção brasileira escalada acima. Não precisam ser convocados para a tribo, pois convidam a si mesmos. Essa é uma das raízes de nossa encruzilhada. Odiamos e violentamos a diferença. E aceitamos essa violência porque “de bem” somos apenas nós, não os outros.


Conrado Hubner Mendes, Época, 21/06/2018, 18:40 hs

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