sábado, 2 de junho de 2018

ÉTICA EM NIETZSCHE

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No lugar de enunciar o que deve ser dirigido ao conjunto dos homens, a ética de Nietzsche professa o que vem a ser, enquanto manifestação singular que diferencia os homens. Cada homem apresenta um devir diferente, dado expressar as lutas processadas apenas no seu organismo e, por isso, diferenciadas das que se dão em outro. Novamente, é o quanto de potência que se é que decide o vir-a-ser humano assim como a distinção irredutível entre homem e homem. De fato, Nietzsche situa o agir humano na perspectiva da explosão de força, isto é, na manifestação das lutas que se processam em profundidade. Assim, falar no que vem a ser é resgatar os processos não conscientes determinantes daquilo que se tem acesso através da consciência. Por isso, a necessidade manifesta-se no sentido de que só pode vir-a-ser aquilo que já se é, pois são as hierarquias resultantes das lutas que situam o homem na relação com outro homem. Nesse sentido, a ética nietzschiana remonta à sua interpretação fisiológica, trata-se da interpretação de uma multiplicidade de vontades de potência que se digladiam permanentemente e introduzem perspectivas que dotam a existência de sentido e de valor. Entretanto, não se trata de um princípio metafísico, explicar a ação desde a unidade da vontade, mas de interpretar a presença de uma multiplicidade de vontades enquanto acontecer. É na necessidade da luta e na perspectiva necessária enquanto resultado da disputa que se encontra, em Nietzsche, a possibilidade de interpretar o agir humano desde a necessidade e prescrever-lhe o amor enquanto aceitação do seu vir-a-se como fatum.

Vânia Dutra de Azeredo, in "Nietzsche e a perspectiva de uma nova ética", 2009

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