sexta-feira, 8 de junho de 2018

O fingidor

O ermo que tinha dentro do olho do menino era um
defeito de nascença, como ter uma perna mais curta.
Por motivo dessa perna mais curta a infância do 
menino mancava.
Ele nunca realizava nada.
Fazia tudo de conta.
Fingia que lata era um navio e viajava de lata.
Fingia que vento era cavalo e corria ventena.
Quando chegou a quadra de fugir de casa, o menino
montava num lagarto e ia pro mato.
Mas logo o lagarto virava pedra.
Acho que o ermo que o menino herdara atrapalhava
as suas viagens.
O menino só atingia o que seu pai chamava de ilusão.

Manoel de Barros

2 comentários:

  1. Acredito que os meninos (as crianças) já nascem com um "um bosque na alma", mas daí os pais (avó, avó, pai, mãe, irmãos, tios tias...) que não se curam dos ermos que herdam transferem as suas pedras no caminho deles/delas e atrapalha as suas viagens. E um ciclo de ermos vai sendo reproduzindo automaticamente, sem que se perceba que a vida mora justamente no que costumam chamar de ilusão.
    A menina fingia que a massa, lavada, da mandioca, desprezada no lixo (porque
    já se havia retirado dela os elementos necessários para se fazer a goma e a
    farinha) era ingrediente de bolo e fazia bolo.
    Redondos, quadrados, de andares.
    Fingia que as flores rochas e brancas com caules verdes, pequeninas,
    encontradas no mato, eram enfeites e ornava o bolo.
    E ele ficava lindo e ela fazia uma festa de ilusões.

    Será de onde veio o seu bosque? Ela não sabe explicar. Tirava da sua imaginação bolos que nunca antes havia visto, nem em revistas, uma foto sequer.

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  2. flores rochas - ato falho
    Correção: flores "roxas"

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