quinta-feira, 11 de agosto de 2011

MICROPOLÍTICA

-Libere a ação política de toda a forma de paranóia unitária e totalizante.

-Faça crescer a ação, o pensamento e os desejos por proliferação, justaposição e disjunção, antes que por submissão e hierarquização piramidal.

-Libere-se das velhas categorias do Negativo (a lei; o limite; a castração, a falta, a lacuna) que o pensamento ocidental por tanto tempo manteve sagrado enquanto forma de poder e modo de acesso à realidade. Prefira o que é positivo e múltiplo, a diferença à uniformidade, os fluxos às unidades, os agenciamentos móveis aos sistemas, considere que o que é produtivo não é sedentário, mas nômade.

-Não imagine que precise ser triste para ser militante, mesmo se a coisa que combatemos é abominável. É o elo do desejo à realidade (e não sua fuga nas formas de representação) que possui uma força revolucionária.

-Não utilize o pensamento para dar a uma prática política um valor de verdade; nem a ação política para desacreditar um pensamento, como se ele não fosse senão  pura especulação. Utilize a prática política como um intensificador do pensamento, e a análise como  um multiplicador das formas e dos domínios de intervenção da ação política.

-Não exija da política que ela restabeleça os "direitos" do indivíduo, tais como a filosofia os definiu. O indivíduo é o produto do poder. O que é preciso é "desindividualizar" pela multiplicação e pelo deslocamento, pelo agenciamento de combinações diferentes. O grupo não deve ser o elo orgânico que une indivíduos hierarquicamente, mas um constante gerador de "desindividualização".

-Não se apaixone pelo poder.


Michel Foucault -  extraído do  texto Anti-édipo: uma introdução à vida não-fascista

2 comentários:

  1. Todos que se consideram, ao menos em alguma vertente, humanos, já sentiram raiva, inveja, ciúme, etc. Com o ressentimento não seria diferente. A questão não é ser ou não afetado pelo ressentimento. Spinoza já destacava a independência dos afetos. Dizer "sem ressentimentos" não implica necessariamente aquilo que se sente. A questão é, mais uma vez, "o que fazer?" Então, as últimas postagens do blog sevcpensa, menos do que alimentação de ressentimento, implica numa dobra, numa criação: como seria para Amy o outro lado, encontrando Tim Maia e Bob Marley? No seu caso, "falar por Miguel". Dar a voz a Miguel é uma forma de arte, de resistência.

    Grande abraço!

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  2. Explico. Resistência diante do familiarismo, em primeira instância. E, em segunda instância, resistência diante de um ressentimento que qualquer um poderá estar sujeito.

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