PODERES
O poder como fundo opaco, a aura da felicidade humanista de servir ao próximo, o culto à ciência como artigo de fé, o respeito contrito à academia, que mais será a ciência do cérebro? Deus meu, livrai-nos de todo o mal não explicável por conexões cerebrais. Contudo, isso é fácil de provar: não pense. Falemos de outra coisa: a traição.A política não é bem vista pelos cientistas. Eles a desprezam em favor de uma pureza de princípios e métodos . Todos pelo progresso. Um, dois, três, sigamos a população serial de neurônios aflitos. A questão da psiquiatria, hoje, é a produção de um pensamento único e do acriticismo. A ciência do cérebro apóia isso, mas ela não é a psiquiatria. Um agenciamento neuro-psiquiatria é uma máquina de produzir mentes. A busca da causa das doenças (quais?) torna-se produção de causas, portanto, de uma razão médica [1]. O sistema límbico, reduto dos afetos, molda e é moldado pelo que está fora. Não é possível ver a mente. Ela compreende relações e fluxos que precedem coisas e substâncias. Não existe O poder. Existem forças dispersas querendo se afirmar. Oh Nietzsche.
[1] “O médico, que não quer se assemelhar a um charlatão, vive com mal-estar a dimensão taumatúrgica de sua atividade. O paciente, acusado de irracionalidade, intimado a se curar pelas “boas” razões, hesita. Onde, nesse emaranhado de problemas, de interesses, de constrangimentos, de temores, de imagens, está a “objetividade”? O argumento “em nome da ciência” se encontra por toda parte, mas não pára de mudar de sentido”, Stengers, I., A invenção das ciências modernas,S. Paulo, Ed.34, 2002, p.35.
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