terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

EXCERTO DE ENTREVISTA COM PAUL VIRILIO - 15/06/2011

DIPLOMATIQUE: O que o senhor combate é a aceleração do real que põe em questão a percepção das aparências sensíveis e daquilo que a fenomenologia chama de “ser-no-mundo”?

VIRILLIO: Sim, o que a revolução dos transportes era para a aceleração da história e os movimentos migratórios, a revolução das transmissões instantâneas o é para a aceleração da realidade percebida. É um acontecimento alucinante, estupeficante. A velocidade é uma ebriedade. Uma embriaguez que pode ser “scópica” ou sonora – daí, aliás, a passagem do muro do som. Com as telecomunicações, utiliza-se a força de impacto da aceleração para fazer passar coisas que não estão na realidade pública, ou seja, no espaço real público, mas na realidade privada, ou antes transmitidas em tempo real por sociedades privadas. A tal ponto que a questão da imaginação, e aquela, filosófica, do “ser-no-mundo”, do aqui e do agora, tornam-se centrais. Nós estamos, assim, em plena crise da ciência, do que eu chamo de “acidente dos conhecimentos”, “acidente das substâncias” e “acidente das distâncias”. Essa questão da velocidade, desde Einstein, está no cerne da relatividade outrora especial, e hoje generalizada, que está em vias de se chocar contra um muro, o que eu chamo de “muro do tempo”. O que se passou em Wall Street me interessa muito porque as pessoas de Wall Street se chocaram contra o muro do tempo e o muro do dinheiro. É um fenômeno político maior no momento em que os algoritmos e os programas de computador dominam a vida econômica, e eu pretendo que a “relatividade especial” deveria ser um problema encarado pelo Estado. Se o século XX foi o século da conquista do ar e do espaço, eu penso que o século XXI deveria se questionar não somente sobre as nanotecnologias (*), mas, também, sobre as nanocronologias, isto é, sobre o tempo infinitesimal, sobre a conquista do “infinitamente pequeno do tempo”.
(...)
(*) Manipulação da matéria numa escala atômica e molecular (Nota do Blog)