sábado, 10 de fevereiro de 2018

ESQUECER, RECORDAR

Em psicopatologia, a memória é um elemento de grande importância no funcionamento  dos  processos subjetivos. Ela, de certo modo,organiza a preservação da vida psíquica. Quem fui ontem, quem sou hoje, quem serei amanhã? Memória e tempo, coordenadas implícitas na vivência do paciente, trazem um fio de continuidade existencial. A vida seria  impossível sem memória. Ao mesmo tempo, a vida  não seria possível se  tudo  fosse  recordado. Na  verdade, como  diz  Nietzsche, a  vida é regida  por  uma  faculdade  ativa  de esquecimento, sendo pois,  por natureza,  esquecediça.  A memória está, assim,  numa  espécie de  paradoxo  subjetivo. Não podemos lembrar de tudo, mas nada somos sem lembrar.Necessitamos recordar,  sobretudo  para  atividades de  manutenção. A cultura  é  uma  gigantesca Memória. Para  obter  formas  de  criação, retiramos  da  cultura, das suas instituições, dos  gens, da história  pessoal etc, elementos que possibilitam a emergência do Novo.No campo estrito da  psicopatologia  médica,  a memória oferece um bom exemplo de função psíquica atada aos processos físico-químicos.Nestes o cérebro ocupa o lugar que lhe confere a pesquisa neurocientífica: o de centro.  De fato, qual um coordenador das ações do indivíduo,  o cérebro, de acordo com o imaginário da medicina, é  uma  espécie  de  órgão da racionalidade. Está diretamente ligado à função-memória. Contudo, talvez seja  possível alterar a equação cérebro= memória, correlata a cérebro= mente para  inserir a subjetividade. A memória “ garante” a subjetividade mas nem por isso deve ser decalcada do cérebro nem dar conta da  complexidade dos processos subjetivos, ou “ explicar” a ocorrência dos fenômenos ditos patológicos como expressões do insólito, do bizarro e do excesso. Deste modo, consideramos o cérebro em toda a sua importância funcional e ao  mesmo tempo na relação  mantida com o caos que o precede. Situá-lo  desse modo implica  numa  tomada de posição teórica  de  inspiração  bergsoniana:  não  é o  universo que está no cérebro, mas é  o cérebro que está no  universo.  Daí, a  pesquisa científica sobre o  cérebro ser inseparável da filosofia e da arte, formas do pensamento estabelecidas pela concepção deleuze-guattariana.
(...)

A.M. in Trair a psiquiatria

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