FORA DO EU
(...)
Uma criança que começa a andar não se contenta em ligar
excitações numa síntese passiva, mesmo supondo que tais excitações sejam endógenas e
nasçam de seus próprios movimentos. Nunca se andou de maneira endógena. De um lado,
a criança ultrapassa as excitações ligadas em direção à posição ou à intencionalidade de
um objeto, a mãe, por exemplo, como alvo de um esforço, termo ao qual se procura
ativamente reunir-se "na realidade", termo em relação ao qual a criança mede seus
fracassos e sucessos. Mas, por outro lado e ao mesmo tempo, a criança constitui para si
um outro objeto, um outro tipo de objeto, objeto ou foco virtual que vem regrar ou
compensar os progressos, os fracassos de sua atividade real: põe vários dedos em sua
boca, envolve o foco com o outro braço e aprecia o conjunto da situação do ponto de
vista desta mãe virtual. Que o olhar da criança se volte para a mãe real, que o objeto
virtual seja o termo de uma aparente atividade (a sucção, por exemplo), isto pode inspirar
um observador a correr o risco de emitir um juízo errôneo. A sucção é utilizada apenas
para fornecer um objeto virtual a ser contemplado num aprofundamento da síntese
passiva; inversamente, a mãe real só é contemplada para servir de alvo para a ação e de
critério para a avaliação da ação numa síntese ativa. Não é sério falar de um
egocentrismo da criança. A criança que começa a manusear um livro por imitação, sem
saber ler, nunca se engana: ela o põe sempre de cabeça para baixo, como se o estendesse
a outrem, termo real de sua atividade, ao mesmo tempo em que ela própria apreende o
livro invertido como foco virtual de sua paixão, de sua contemplação aprofundada.
Fenômenos bastante diversos, como o canhotismo, a escrita em espelho, certas formas de
gagueira, certas estereotipias, poderiam ser explicados a partir desta dualidade de focos
no mundo infantil. Mas o importante é que nenhum desses focos é o eu. É com a mesma
incompreensão que se interpretam as condutas da criança como dependendo de um
pretenso "egocentrismo" e que se interpretava o narcisismo infantil como excludente da
contemplação de outra coisa.
(...)
Gilles Deleuze in Diferença e Repetição
...Fenômenos bastante diversos, como o canhotismo, a escrita em espelho, certas formas de gagueira, certas estereotipias, poderiam ser explicados a partir desta dualidade de focos no mundo infantil...
ResponderExcluirUma professora do meu filho, a qual era psicopedagoga, me deu um diagnóstico de q meu filho tinha dislexia, q ele precisava de tratamento caso contrário ñ seria alfabetizado, isso aconteceu quando ele ainda ñ tinha completado 5 anos de idade, apenas pq ele escreveu o 1º nome dele no espelho...
No momento do "diagnóstico prematuro", lembrei-me duma palestra com Lauro de Oliveira Lima, na qual Lauro deixou claro q dislexia faz parte do mundo infantil...
Deixo claro q sou livre de preconceitos, nada contra a dislexia, porém, sem condições essa psicopedagoga...
Outra psicopedagoga da mesma escola, criou dificuldades, também argumentando q meu filho ñ teria condições de ser alfabetizado, daí em 2 semanas, no recesso junino, eu, quando chegava do meu trabalho alfabetizei o meu filho...
A psicopedagoga se assustou quando o viu lendo, me chamou à escola...
Eu disse pra ela q ela tava vendo chifres em cabeça de cavalo, rsrsrs
A psicopedagoga, ainda, me perguntou o q era ver chifres em cabeça de cavalo, rsrsrs