A TRAPAÇA PSICANALÍTICA
Minha segunda proposição é que a psicanálise é uma máquina já pronta, constituida com antecedência para impedir as pessoas de falarem, portanto, de produzirem enunciados que lhes correspondam e que correspondam aos grupos com os quais elas encontram afinidades. Ao se fazer analisar, tem-se a impressão de falar. Porém, mesmo que se fale à vontade, toda a máquina analítica é feita para suprimir as condições de uma verdadeira enunciação. O que quer que se diga é preso numa espécie de torniquete, de máquina interpretativa, de modo que o paciente nunca poderá ter acesso ao que ele tem realmente a dizer. O desejo ou o delírio (que são profundamente a mesma coisa), o desejo-delírio é por natureza investimento de todo um campo histórico, de todo um campo social. O que se delira são as classes, os povos, as raças, as massas, as matilhas. Ora, produz-se uma espécie de esmagamento graças à psicanálise que dispõe de um código pré-existente. Este código é constituído por Édipo, pela castração, pelo romance familiar; (...)
Gilles Deleuze - Cinco proposições sobre a psicanálise
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