PROBLEMAS DE CONSCIÊNCIA
(...) (...) O conceito de consciência está presente, de modo explícito ou não, na clínica psicopatológica desde os seus primórdios. Pode-se dizer que é impossível realizar o exame do paciente sem pôr a questão: “ele está consciente”? Trata-se do conceito clínico de grau (ou nível) da consciência. Da vigília (a normalidade) ao coma, desenha-se um espectro de graus de consciência (torpor, turvação, obnubilação, etc) em que as estruturas neurocerebrais estão comprometidas. A equação consciência=mente=cérebro é adotada como resposta teórica à clínica dos transtornos mentais de origem orgânica. Quanto mais alguém está consciente, melhor estará funcionando o seu cérebro e por extensão a mente. Contudo, o exame pode ser esmiuçado: “o indivíduo sabe o que faz”? Ou “ele tem noção (=consciência) dos seus atos”? Um sentido moral se insinua, ficando encoberto pelo sistema fechado “cérebro/mente. Entretanto, é com Karl Jaspers que o conceito de consciência adentra ao universo psicopatológico não médico. Sob a influência da fenomenologia, ele trabalha elementos conceituais para ser posssível pensar uma “outra” consciência não redutível às estruturas neurocerebrais. É a consciência intencional. Ela constitui a “essência” da vida psíquica. Divide-se em consciência do eu e consciência do objeto. Desse modo, Jaspers usa o conceito de eu (e por extensão o de objeto) atrelado ao conceito de consciência. Quando fala em consciência, a intencionalidade torna-se a expressão do eu no mundo. O mundo é o objeto, já que esse objeto é considerado em relação ao eu (sujeito da fenomenologia). A partir desse dado teórico ocorre uma curiosa mistura de conceitos nos manuais de psiquiatria ao longo do século XX. De um lado a consciência neurocerebral. Do outro, a consciência psicológica assumindo a orientação fenomenológica.
(...)
A.M. - do livro Trair a psiquiatria
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