sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

LUCROS DIAGNÓSTICOS

A psicopatologia é uma ferramenta essencial da psiquiatria clínica.Ou, pelo menos, deveria ser. No entanto, em neurotempos atuais ocorre o inverso. Não se fala e não se pesquisa psicopatologia. Só há transtornos mentais orgânicos, mesmo não sendo, e suas descrições encaixotadas e encaixotantes. A psicopatologia tornou-se a neuromania dos crâneos. O vazio epistemológico deixado é preenchido pela vontade de controle da psiquiatria cidobiológica. Tal vontade opera no cadastramento dos desvios de conduta, do mau comportamento social, do irracionalismo do eu e se traduz como diagnóstico-verdade, diagnóstico-essência. Entre tantas incertezas, proliferam axiomas eternos. Em tal contexto a loucura se alastra, não como experiência de abertura a novas semióticas, a novas terras aqui-mesmo, ao novo, à mudança, mas como esvaziamento do sentido da existência, fim de mundo, apocalipse, noite eterna. Basta conferir a alta cotação das religiões no mercado espiritual do medo. A ideação suicida, o próprio suicídio, ou a auto-flagelação de jovens, são apenas alguns sintomas da angústia inominável do tecido social em decomposição. Uma psiquiatria sem pesquisa psicopatológica não só cauciona o sofrimento psíquico como o produz em série e dele retira lucro, poder, prestígio, reverência e status social.

A.M.


P.S. - texto revisado e republicado

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