A OUTRA CLÍNICA
Escutar um delírio: som musical que pode ser terrível, ou não. Música embriaga até corações enrijecidos. Não busque fórmulas, protocolos, cifras. Saia de si. Pense contra si. A forma-psiquiatria não tem dono. Ela é dona de nós cegos no momento de desembrulhar um caso difícil. Tratar além do feijão com arroz, tão fácil, ainda mais se o feijão com arroz for fabricado em série. Instituir a contra-instituição sem binarismos não é fácil, sabemos. Chegar ao não-lugar da traição incessante. A coisa toda vem do século XIX. É uma fraude cuidadosamente preparada em pequenos frascos. Todos acreditam. Um dia, ele entra no consultório e senta-se na cadeira do paciente. Não se trata de uma “inversão de papéis” ao jeito do psicodrama. Isso seria impossível e por demais humanístico. Trata-se da desordem infiltrada no tecido da ordem asséptica. O psiquiatra é o paciente que resiste ao funcionamento linear da entrevista. Pergunta se há consciência. Não há. Descobre que o cérebro é uma instituição instituída desde a forma de falar sozinho. Ensaia solilóquios fugidios. A essa altura, se rompem identidades. Escutar o delírio é olhar as vozes e ouvir o tempo que não passa... e já passou. Trair é inventar (...)
A. M.
O paciente com um "quadro depressivo" (digo: nos moldes dos manuais) instiga o trabalho. Há uma forma de percepção crítica extremamente sensível que tangencia a realidade concreta. Porém, tal energia redunda-se sobre si próprio e ele parece pesar mais de 300 quilos. Agora, ele acredita em você. Pode até querer te levar junto para o buraco, e nem sempre há a posição de súplica. Arrisco-me até a dizer que é raro. O paciente paranóide, ao contrário, ele não só não acredita em você como lhe faz instrumento do próprio delírio. Você fica vulnerável, a mercê de uma realidade muitas vezes inacessível, a depender do grau. A depressão, mesmo nos casos mais graves, o máximo que pode acontecer são idéias nebulosas sobre a morte e o silêncio.
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