quarta-feira, 11 de abril de 2012



           
            DEVIR-CONSCIÊNCIA                                             
          
           A consciência, mesmo que  pareça  ser  uma  luz  vinda  de dentro do cérebro, ou da mente, é uma tela. É possível dizer a partir  de  um   Bergson   deleuziano [1]  que a consciência  é  o  contrário da luz. Ela  é uma espécie  de anteparo para  a luz, esta sim, vindo  de fora, do  cosmo. Para pensar  desse modo, há   a experiência não usual, não  cotidiana, “anormal”  do “ser-consciente”. Uma  psicopatologia em ato.   No encontro com o paciente  interessa operar clinicamente uma  “outra”  consciência. Os  casos mais  ou menos evidentes de alteração  do nível da  consciência (os  quadros  orgânicos)   são percebidos  como tais à medida em que a  anamnese  é  feita com detalhes.  Há uma infinidade deles  ligados à  condições   cerebrais  específicas. No entanto,  pela via   do Encontro  não existe   a consciência e sim subjetivações  ou modos de subjetivação. Um modo  de subjetivação é  uma composição de afetos. Um traumatismo de crânio, por  exemplo,  pode gerar  uma  confusão mental.  Mesmo aí, o nível da consciência compõe  um modo de  subjetivação, e não o contrário. A consciência  chega  depois. Ela é  um efeito proveniente  de  estímulos que  vêm de fora  e com o cérebro  estabelecem    relações   de  uso. Caso  o tecido cerebral  esteja  danificado (lesionado)    os efeitos   mudam. O cérebro é matéria, claro, mas o que  chega  de fora também é matéria. São imagens  formando  a  subjetividade. Assim,  o chamado “mundo interior” não existe  senão  como expressão corporal das  imagens. Se  estas são matéria, são afetos.  O que  muda  então  na avaliação  (exame) do paciente  portador de transtorno mental?  1-o comportamento observável é   sobretudo o afetivo-relacional: como o paciente sente  e  reage ao mundo? 2-as  funções psíquicas não remetem a  um centro  organizador (a consciência, o eu)  como  modelo de conduta adequada; 3- a capacidade de autonomia social  passa a estar ligada  aos  devires ou processos  desejantes; 4- uma pesquisa  destes  devires ou: que linhas existenciais o paciente constrói? é essencial, mais  até  do que obter  um diagnóstico nosológico; 5- traçar um plano de vida  que  comporte os devires  como movimentos  singulares: o paciente não é o diagnóstico, sequer a doença (caso exista); ele é uma mistura de elementos  do real e  do não-real; resta usá-la   como ato  terapêutico.  
         (...)

A. M.

[1] “ A consciência  é  o contrário  da luz; todos os  filósofos tem vivido  com a idéia de que  a consciência era uma  luz. Pois  não  é. O que  é  luz é  a matéria e  daí  a consciência é  o que  revela  a luz. Por  que? Porque a  consciência é a tela  negra. A consciência é  a opacidade, que  como tal vai levar a luz a revelar-se, isto é,a refletir-se”, Deleuze, G., Curso de los  martes; La  imagem movimento, 1982, tradução  ao espanhol: Ernesto Hernandez, via  Internet,  web  Deleuze, acessado em 09/12/2003, tradução espanhol-português nossa.

Um comentário:

  1. Zeca: http://www.youtube.com/watch?v=TRL7-HiUMQk

    A psicanálise traz contribuições úteis à noção de regressão, tanto no âmbito da sexualidade infantil, quanto com relação aos mecanismos de defesa. O problema da psicanálise não é epistemológico, não é enquanto filosofia. O problema da psicanálise é a instituição psicanalítica, portanto, não tanto o discurso, mas a sua aplicação. Ora, isso não ausenta o discurso de críticas, obviamente, até porque, se esse tipo de aplicabilidade se tornou possível, foi porque o discurso deixou margem a isso; mas, há coisas passíveis de aproveitamento. Por falar em contradições, Deleuze & Guattari se referiram muito a Lacan, mas isso não implica qualquer reacionarismo, ou incoerência.

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