Ética e Clínica-1
Diante do paciente, é possível operar uma ética não pronta. Nada de manuais ou códigos recitados pela Academia. Há uma não pessoa na pessoa à nossa frente. Tal paradoxo encarna um anti-humanismo visceral. O que está em jogo não é o indivíduo, mas uma vida. A que isso leva?
Isso leva à busca de um aumento da potência de existir, tal como ensinou Espinosa. Na prática clínica remete a aspectos empíricos e imediatos. Quem é o paciente? Quem sofre? Ele mesmo nos procurou? Por quê? Para quê? Ele quer viver? O que é viver? São perguntas elementares para a formulação de uma ética de vida. A potência de viver ocupa um lugar de destaque na questão de uma clínica da diferença. Vale para o paciente e para o psiquiatra. Num meio clínico encharcado de psiquiatria, reina a ética médica envelhecida. Escapar dela e propor outra coisa... seria possível?
Talvez uma clínica que trabalhe a produção de novas maneiras de viver... Ora, a psiquiatria está morta como pensamento [1]. Para turbinar novas práticas, iniciemos pela ética: o Encontro com o paciente traduz esse projeto: a materialidade da relação passa a ser constituída por afetos que circulam nos dois sentidos. É claro que pela sua própria definição, há os bons e os maus afetos. Os que constroem e os que destroem.
Desse modo, antes da técnica é preciso compor linhas de vida. Implica em dizer que o trabalho com o paciente segue a arte como experimentação. Experimente, não interprete, diz Deleuze. Os dados da história pessoal e das contingências atuais estão baralhados na superfície do Encontro. O trabalho, no caso do psiquiatra, será o de destruir formas sociais rígidas (por exemplo, o afã de medicar, o diagnóstico cidológico, o corporativismo médico, etc) e criar dobras, saídas, mesmo ínfimas e imperceptíveis, para os impasses existenciais.
Atender o paciente é encontrar a loucura. Interessa, pois, ao psiquiatra, sair de si na direção de um campo vivencial movediço, sem garantias prévias, sem receitas ou protocolos técnicos. Sob tais condições, torna-se um feiticeiro. Carrega o seu balaio de conceitos na espreita de mais um encontro em que possa usá-los.
A. M.
[1] Usamos “pensamento” no sentido deleuziano, ou seja, um pensar não restrito a interioridade de um sujeito, mas voltado ao encontro com o Fora, com as multiplicidades do mundo. Ver Deleuze, G. e Guattari, F., Mil Platôs-Capitalismo e Esquizofrenia, S. Paulo, Ed. 34, 1997, vol. 5, p.43 a
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Olá para todos.
ResponderExcluirEu, já tendo sido paciente de VÁ-RIOS "psis" (psicanalistas, psicólogos, psicoterapeutas, psiquiatras) dos mais diversos matizes, tendo a concordar que existe grande pobreza da psiquiatria em termos de pensamento. É impressionante como, em dadas situações (parece ser a maioria delas, nas consultas psiquiátricas), numa consulta que dura uma hora (isso, quando chega a durar esse tempo), o médico, sabendo praticamente nada da complexidade da vida daquele paciente, das suas emoções, sentimenstos etc, enquadra-o em um diagnóstico pré-fabricado pelo CID e passa determinada medicação, justificando, assim, a própria função, o consultório capitalista e a indústria de fármacos.
Mais um sintoma da nossa "doença social" é que, muitas vezes, as pessoas (os pacientes) já vão ao consultório de um médico psiquiatra pedindo que ele lhe passe a receita de um determinado remédio. E, não raramente, o médico faz isso mesmo. Então, para esse paciente que já está "mergulhado" no "sistema", essa percepção de que algo está errado com a psquiatria talvez nem surja.
Para um paciente um pouco mais inteligente, pode ser muitas vezes frustrante ir a uma consulta psiquiátrica, ter aquele contato superficial e ver a complexidade e beleza da sua vida reduzida a um enquadramento pobre e a uma "gavetinha" mantida pelas escolas de medicina e pela indústria farmacêutica.
Ora: se esse(a) médico(a) mal me conhece, como pode dizer "você é isso" e me passar deteminado remédio simplesmente para algum tipo de controle químico no meu corpo?
Isso é pobre e leviano.
Abraço a todos.