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Ética e Clínica – 2
A psiquiatria chama o seu paciente de “portador de transtorno mental”. Nem sempre explícito, tal enunciado está na bíblia dos diagnósticos, a CID. A expressão “mental” é usada de modo naturalizado, ou seja, todo mundo sabe o que é “mental”. A metonímia “ele é um mental” expõe o nervo do estigma.
Contudo, no Encontro com a loucura, acontece outra coisa: a mente some como substância, ou como algo palpável. Dilui-se num vazio sem forma.
Encontrar o paciente seria então possível?
Sim, na medida em que se adentre ao Acaso, ao Indeterminado e ao Desconhecido. Esta é a condição. Como, então, trabalhar a clínica? A experiência da prática mostra que ela só existe como abertura ao mundo. Por outro lado, a ética – essência da clínica - sustenta-se na alegria. É a força maior. “O regime da alegria é o do tudo ou nada: não há senão alegria total ou nula” [1].
A psicopatologia da diferença busca, então, atuar em linhas existenciais desprezadas pela razão. Lida com o incurável, o imprestável, e com discursos submetidos às formações de poder. Requer um desejo não apoiado na realidade objetiva pois o desejo é a própria realidade objetiva. No universo sedutor-violento do capital, a aposta num trabalho com pacientes graves capta o ritmo das canções sem dono. Tudo é impessoal e coletivo. O Caps torna-se, então, a procura de saídas não cadastradas pela psiquiatria canônica. A ótica da diferença é o novo. A ética precede a técnica.
Quem arrisca?
Legiões de psiquiatrizados de toda parte ajoelham-se no altar dos psicofármacos e dos cérebros à mão. Tudo conspira a favor do consumo de pacotes cientificamente autorizados para ações lucrativas. No entanto, mesmo desbotada e segregada nos grilhões cidológicos , a diferença resiste. A ética da potência de viver afirma-se como ética de poetas itinerantes.
O discurso e a prática da diferença exploram o avesso da ordem do estado capitalista. Quem se interessa em criar, fazer nascer? Pergunta insana, na medida em que os poderes investem na repetição do mesmo e no rigor mortis do pensamento. Por isso, uma clínica da diferença considera as determinações sócio-políticas como a superfície da ação mais concreta. O ato clínico. Em suas pesquisas, não encontra respostas exatas, mas problemáticas instigantes.
Se a loucura é a experiência que atravessa a subjetividade, (mesmo que não estejamos loucos, podemos entrar num devir-loucura), tudo muda na percepção fina da realidade do Encontro. Um novo universo se desvela. Somos devires incontroláveis.
Hoje, vi uma mulher vendendo beiju de tapioca, com a Bíblia na mão. Perguntei-lhe a instituição que frequentava. Era uma instituição séria, em termos de trabalho social. Isso quer dizer que o humanismo em si não é um problema, apesar de ser abstrato. Mas, abstrato também pode ser um discurso nietzschiano. Isso não quer dizer que eu ignore os efeitos catastróficos do humanismo, sobretudo no quesito que ilude sobre a guerra social vigente, à luz de um suposto bem-estar transcendente e de eufemismos carentes de sustentabilidade. Como disse, o discurso não é tão problemático quanto as instituições e devemos fazer a análise dos discursos tais quais a análise das instituições, sendo que o discurso é, ao menos aparentemente, formal; enquanto as instituições aludem ao quesito material, ao exercício do poder-saber, isto é, de uma formação discursiva. Isso tudo é para dizer que não existe terrenos sólidos, nem a certeza plena. Nesse sentido, ao contrário do que alguém julgaria previsível como conclusão, ou seja, a conclusão pela paranóia ou excessiva desconfiança, é necessário confiar. Confiar em que? Essa é uma resposta de cada um. Graças a Deus, já encontrei essa resposta e não padeço da autorreferência paranóide que incide não no fato de inexistir - ainda - uma resposta, mas no fato de se apegar à desconfiança como uma defesa absoluta da certeza absoluta; o que faz alguém fundamentalista. O fundamentalista não é somente um terrorista, como se "monstrificou", mas, considerando formas e graus variados, pode ser desde aquele que faz do Ministério Público sua religião, ou que faz sua teoria ser o ápice hegemônico de qualquer tratamento, àquele que se alia à defesa de de grupos vítimas de preconceitos, minorias étnicos-raciais, enfim, a discursos políticos que, numa vertente humanista, conjugada com uma vertente paranóide, se não se torna adoecedor, por questões educacionais ou de caráter, passa a ser extremamente perigoso - dada a vingança latente e sombria que o humanismo tampona com delicadeza.
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