terça-feira, 3 de abril de 2012

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Ética e  Clínica – 2



      A  psiquiatria chama o  seu   paciente de  “portador de  transtorno mental”. Nem  sempre explícito,  tal enunciado   está  na bíblia  dos diagnósticos, a  CID.  A expressão “mental”  é usada  de modo naturalizado, ou seja, todo mundo  sabe  o que  é  “mental”. A  metonímia  “ele  é  um  mental”  expõe   o  nervo  do   estigma.
    Contudo,  no  Encontro com a loucura,    acontece  outra  coisa: a  mente  some   como substância,  ou  como  algo  palpável.   Dilui-se   num  vazio  sem  forma.
      Encontrar o  paciente  seria    então  possível?
     Sim, na medida em que  se   adentre   ao   Acaso,  ao  Indeterminado  e ao  Desconhecido.  Esta  é a   condição.   Como,  então,   trabalhar a clínica?  A experiência da prática  mostra que    ela  só existe como abertura  ao  mundo.  Por  outro  lado, a     ética – essência da clínica -   sustenta-se   na alegria.   É  a  força  maior.   “O regime da alegria é  o do  tudo  ou  nada: não  há senão alegria total  ou nula” [1].
    A  psicopatologia da  diferença   busca,  então,    atuar  em   linhas   existenciais desprezadas  pela  razão.  Lida com  o  incurável,  o imprestável,   e  com  discursos   submetidos  às formações de poder.    Requer um  desejo   não apoiado na realidade objetiva   pois    o  desejo é a  própria   realidade objetiva.  No  universo  sedutor-violento  do  capital, a  aposta  num trabalho com  pacientes  graves  capta  o ritmo das  canções  sem  dono. Tudo  é impessoal e    coletivo.   O  Caps    torna-se, então,    a   procura   de saídas não  cadastradas pela psiquiatria   canônica. A  ótica  da  diferença é  o  novo.  A  ética  precede  a técnica.
     Quem arrisca?
    Legiões  de psiquiatrizados  de toda parte ajoelham-se  no altar  dos  psicofármacos e   dos   cérebros   à mão. Tudo   conspira a  favor do consumo  de   pacotes  cientificamente autorizados  para ações lucrativas. No  entanto,  mesmo   desbotada e segregada nos  grilhões cidológicos , a diferença  resiste.   A ética da potência  de  viver afirma-se    como  ética  de poetas   itinerantes.
     O discurso e a prática da  diferença  exploram  o avesso   da  ordem  do  estado  capitalista. Quem se  interessa  em criar,  fazer nascer?   Pergunta  insana,  na  medida em que  os  poderes investem na   repetição do  mesmo e  no  rigor  mortis   do pensamento.  Por  isso,   uma  clínica  da diferença considera as  determinações sócio-políticas  como  a     superfície  da  ação  mais  concreta. O  ato  clínico.  Em  suas  pesquisas, não  encontra  respostas  exatas, mas   problemáticas instigantes.
    Se  a loucura   é  a experiência que   atravessa a subjetividade,  (mesmo que não estejamos    loucos, podemos entrar  num devir-loucura), tudo  muda  na  percepção fina  da  realidade do  Encontro. Um novo universo se  desvela. Somos devires incontroláveis.


A. M.

[1] Rosset,  C., Alegria-  A  Força   Maior, Rio, Relume-Dumará, 2000, p.7.

Um comentário:

  1. Hoje, vi uma mulher vendendo beiju de tapioca, com a Bíblia na mão. Perguntei-lhe a instituição que frequentava. Era uma instituição séria, em termos de trabalho social. Isso quer dizer que o humanismo em si não é um problema, apesar de ser abstrato. Mas, abstrato também pode ser um discurso nietzschiano. Isso não quer dizer que eu ignore os efeitos catastróficos do humanismo, sobretudo no quesito que ilude sobre a guerra social vigente, à luz de um suposto bem-estar transcendente e de eufemismos carentes de sustentabilidade. Como disse, o discurso não é tão problemático quanto as instituições e devemos fazer a análise dos discursos tais quais a análise das instituições, sendo que o discurso é, ao menos aparentemente, formal; enquanto as instituições aludem ao quesito material, ao exercício do poder-saber, isto é, de uma formação discursiva. Isso tudo é para dizer que não existe terrenos sólidos, nem a certeza plena. Nesse sentido, ao contrário do que alguém julgaria previsível como conclusão, ou seja, a conclusão pela paranóia ou excessiva desconfiança, é necessário confiar. Confiar em que? Essa é uma resposta de cada um. Graças a Deus, já encontrei essa resposta e não padeço da autorreferência paranóide que incide não no fato de inexistir - ainda - uma resposta, mas no fato de se apegar à desconfiança como uma defesa absoluta da certeza absoluta; o que faz alguém fundamentalista. O fundamentalista não é somente um terrorista, como se "monstrificou", mas, considerando formas e graus variados, pode ser desde aquele que faz do Ministério Público sua religião, ou que faz sua teoria ser o ápice hegemônico de qualquer tratamento, àquele que se alia à defesa de de grupos vítimas de preconceitos, minorias étnicos-raciais, enfim, a discursos políticos que, numa vertente humanista, conjugada com uma vertente paranóide, se não se torna adoecedor, por questões educacionais ou de caráter, passa a ser extremamente perigoso - dada a vingança latente e sombria que o humanismo tampona com delicadeza.

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