domingo, 8 de abril de 2012

PERSONA INGRATA

Consideramos  histórias clínicas em que as hipóteses diagnósticas  esgotam   as categorias  da  CID-10,  exceto uma.   Desse modo, é   freqüente se  recorrer  ao  chamado “transtorno da personalidade”  (TP) ou mesmo   ao   que    era   antes   chamado de “personalidade psicopática”   ( termo  criado  por  Kraepelin  em 1904 )como  uma  saída   aos impasses  da clínica   psicopatológica.  Isso  advém da  dúvida: será   uma   psicose? Ora,  a psiquiatria, enquanto   sistema nosológico-conceitual ,  não  sabe  definir com precisão  uma psicose.  Tomemos  o exame de um paciente:  de acordo com  a  semiologia ,    não há     delírios, alucinações, nem ruptura com a  realidade; por outro lado,  desvios de conduta,   às vezes  graves,  atestam  algum signo  necessário para se  poder dizer afinal   do que se  trata. Descrevendo uma personalidade      em seus padrões anormais, incluímos o que ele, o portador, faz no mundo:  atos, atitudes,  interações com pessoas, desempenho de papéis sociais,  capacidade laboral e outros parâmetros.  O paciente,   excluídas    informações  de  terceiros,    se  acha e  se  mostra  mentalmente  são.   Em certos casos, é pessoa de  conversa fácil e discurso que  flui  espontâneo. O pensamento se expressa em frases conexas.  No mais, segue o percurso das conversações amenas, ditas normais. Em outros casos  até  poderá ficar tenso, a depender do contexto institucional, como, por exemplo,  ser   entrevistado  numa  prisão.  O essencial a reter desses dados  clínicos é  que o TP    tende a escapar do molde  psiquiátrico. A psiquiatria lhe é estranha, exceto talvez por um ato de força  executado  por ordem do juiz. Diferentemente  da psicose, tal personalidade não vacila diante de  pressões sociais: confesse! Ora, uma  Personalidade funciona  num mundo social  cujas   linhas de conduta estão longe de serem retas e programáveis. Desse modo,  o diagnóstico deve   compor   um dispositivo para  avaliação contingencial. O contrário  seria    um  enquadre apenas   técnico ,  o  que equivale  a  prática  do  estigma social   disfarçado  de ciência pura.
(...)

Antonio Moura - do livro Trair a psiquiatria

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