sábado, 14 de julho de 2012

O ENCONTRO, AINDA

(...) (...) Nosso  roteiro  arrancou  a arte  dos  fluxos  coletivos  que  não são  mais  que  os processos  da  natureza  caótica. Ao final, ela, a  arte,   retorna  como  aquilo   que  sempre  esteve  aí, tanto  no socius,  quanto   na política,   como  na  ética. Mas  se  ela   não  salva nem cura,   produz,  produz  universos  móveis e não  sonhados pela percepção  humana.  É inumana,  ainda  que  o homem,  na  pessoa  de um psicótico,  torne-a    expressão abortada   de  um excesso de vida, mesmo  e ainda  sob  as  condições  mais  adversas.  O hospital, a sociedade, o cotidiano, a racionalidade, as  relações  interpessoais, os  deveres, o dinheiro, a  aparência  de  opções  múltiplas,tudo  isso  e muito mais oculta  o fato  de  que    vivemos  sob as  condições  do encontro em  dualismos   fatais. Bom ou mau? Não  há  fórmulas ou   pacotes   prévios  à   espera  da  indicação  terapêutica  adequada. Se a  técnica  prevalecer como  mercadoria, a  órbita do capital  se  afirmará  como  opção  única  de vida.  Viver será   tão somente   conformar-se   ao capital,   subjetivamente  decalcado   das mercadorias  da  alma.. Assim, as  técnicas  serão  meramente  adaptativas  (morais) e esse  efeito (adaptar)  é relativamente  fácil de obter.  A psiquiatria   expõe   nesse  mister a essência  do controle dos  dias  que  correm.  Biopoder.  Mas,  o que  dizer  das  técnicas  não  psiquiátricas  que  com a psiquiatria  compõem  níveis  consentidos   de  adaptação  ?  O tratamento  se  faz  controle   disfarçado   em técnicas.  O essencial  a  considerar  é  que  a  técnica  e  a arte diferem em  natureza. Não  são apenas  modos  de  atuar  com o  paciente  mas visões diferentes da realidade. O roteiro do e para  o encontro  traz a possibilidade  de  técnicas, mesmo as  mais  sofisticadas,  servirem a  um  ser  de sensação  (o paciente) e não o contrário. Trata-se  de uma  inversão de  ótica,  desvio de  sensibilidade  para  um trabalho  com   o paciente. As  linhas  psicoterápicas  também  são  passiveis desse  tipo de mudança. Digamos que não  tão expostas ao público quanto a psiquiatria, mas  professam, na calada dos consultórios,  suas  técnicas de controle e pressupostos  teóricos. Claro, todos  querem  ajudar  o paciente. Não  negamos  as boas  intenções  da  psicoterapia  atual. Questionamos,  sim,   o percurso do encontro. Então, a via do encontro  para  tratar dos transtornos mentais   antecede a  linha  teórica  adotada. No caso  psiquiátrico sequer  há  uma linha  teórica  da  subjetividade, o que não  impede a  psiquiatria de  atuar (ao contrário!) sobre o  paciente. Nas    linhas psicoterápicas em geral a  adoção de técnicas de resposta  imediata (por. ex., técnicas  de  grupo, do corpo, etc) faz  por  apagar  as teorias que  lhe servem  de suporte.  Se  priorizamos  a  Saúde  Mental,  foi    devido ao   lugar  de poder que  a  psiquiatria  ocupa. Mas  os  encontros , bons e maus, circulam nos  poros da sociedade sem serem  notados, passando ao largo  dos  mandamentos psiquiátricos.  Ora, se a  proposta  de  reforma psiquiátrica inclui e  considera  o trabalho de uma  equipe  multidisciplinar, tudo se conjugando  para o encontro, seja com o paciente ou  com  os  técnicos entre si,  o tecnicismo se esgotará  no  ponto  limite da  clínica . Dobrar-se sobre  si  mesma  enquanto auto-crítica permanente, tal é a nossa  proposta. O trabalho  multidisciplinar  só  existe  enquanto  dissolução das  identidades  técnicas,  ou seja, na  medida  em que o delírio  for   matriz  dos saberes, matéria das intensidades subjetivas e superfície  da  clínica onde  algo  acontece  em prol  do  paciente.
(...)
A.M.

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