O ENCONTRO, AINDA
(...) (...) Nosso roteiro arrancou a arte dos fluxos coletivos que não são mais que os processos da natureza caótica. Ao final, ela, a arte, retorna como aquilo que sempre esteve aí, tanto no socius, quanto na política, como na ética. Mas se ela não salva nem cura, produz, produz universos móveis e não sonhados pela percepção humana. É inumana, ainda que o homem, na pessoa de um psicótico, torne-a expressão abortada de um excesso de vida, mesmo e ainda sob as condições mais adversas. O hospital, a sociedade, o cotidiano, a racionalidade, as relações interpessoais, os deveres, o dinheiro, a aparência de opções múltiplas,tudo isso e muito mais oculta o fato de que vivemos sob as condições do encontro em dualismos fatais. Bom ou mau? Não há fórmulas ou pacotes prévios à espera da indicação terapêutica adequada. Se a técnica prevalecer como mercadoria, a órbita do capital se afirmará como opção única de vida. Viver será tão somente conformar-se ao capital, subjetivamente decalcado das mercadorias da alma.. Assim, as técnicas serão meramente adaptativas (morais) e esse efeito (adaptar) é relativamente fácil de obter. A psiquiatria expõe nesse mister a essência do controle dos dias que correm. Biopoder. Mas, o que dizer das técnicas não psiquiátricas que com a psiquiatria compõem níveis consentidos de adaptação ? O tratamento se faz controle disfarçado em técnicas. O essencial a considerar é que a técnica e a arte diferem em natureza. Não são apenas modos de atuar com o paciente mas visões diferentes da realidade. O roteiro do e para o encontro traz a possibilidade de técnicas, mesmo as mais sofisticadas, servirem a um ser de sensação (o paciente) e não o contrário. Trata-se de uma inversão de ótica, desvio de sensibilidade para um trabalho com o paciente. As linhas psicoterápicas também são passiveis desse tipo de mudança. Digamos que não tão expostas ao público quanto a psiquiatria, mas professam, na calada dos consultórios, suas técnicas de controle e pressupostos teóricos. Claro, todos querem ajudar o paciente. Não negamos as boas intenções da psicoterapia atual. Questionamos, sim, o percurso do encontro. Então, a via do encontro para tratar dos transtornos mentais antecede a linha teórica adotada. No caso psiquiátrico sequer há uma linha teórica da subjetividade, o que não impede a psiquiatria de atuar (ao contrário!) sobre o paciente. Nas linhas psicoterápicas em geral a adoção de técnicas de resposta imediata (por. ex., técnicas de grupo, do corpo, etc) faz por apagar as teorias que lhe servem de suporte. Se priorizamos a Saúde Mental, foi devido ao lugar de poder que a psiquiatria ocupa. Mas os encontros , bons e maus, circulam nos poros da sociedade sem serem notados, passando ao largo dos mandamentos psiquiátricos. Ora, se a proposta de reforma psiquiátrica inclui e considera o trabalho de uma equipe multidisciplinar, tudo se conjugando para o encontro, seja com o paciente ou com os técnicos entre si, o tecnicismo se esgotará no ponto limite da clínica . Dobrar-se sobre si mesma enquanto auto-crítica permanente, tal é a nossa proposta. O trabalho multidisciplinar só existe enquanto dissolução das identidades técnicas, ou seja, na medida em que o delírio for matriz dos saberes, matéria das intensidades subjetivas e superfície da clínica onde algo acontece em prol do paciente.
(...)
A.M.
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